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oraviva

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06
Set22

Mãe revisitada

publicado por júlio farinha

Ó minha mãe minha mãe

   Ó minha mãe minha amada

   Quem tem uma mãe tem tudo

   Quem não tem mãe não tem nada

   (Quadra popular recuperada por José Afonso)

 

 

   Diamantina, Mantina para a avó, foi uma mãe extremosa e muito amiga dos seus seis filhos. Não conhecendo uma só letra, não sabia sequer assinar o  seu nome. Mas o amor encerra fantásticos segredos. Criou os filhos à base de valores tão tradicionais quanto eficazes e sob uma cultura e sabedoria populares que dispensavam soberbamente grandes adornos e nobres e fúteis erudições. Não se sabe bem que voltas dá a educação, naquelas circunstâncias em que Mantina formou as suas três raparigas e os três rapazes. Só se sabe que a prole vingou todinha na vida. O mais rebelde de todos foi o “caga no ninho” mas que se fez à vida levando a peito a exigência da mãe. Estuda,Zéi, estuda.     O“caga no ninho”, durante os sete anos de estudo na escola secundária da cidade mais próxima, percorreu nos primeiros cinco anos, a pé, a distância de quatro quilómetros na ida e outros tantos de regresso à aldeia. Até que um dia o pai lhe comprou uma bicicleta, aliviando-lhe a penitência. O Zéi preparou-se e ingressou numa instituição de ensino médio, em Lisboa, onde frequentou parte do curso de electrotecnia e máquinas. A convicção entretanto formada, como tantos jovens dos fins da década de sessenta, de que devia dizer não à guerra colonial, levou-o a um exílio de um ano em França e na Holanda. Lá se fez operário para ganhar o sustento e estudou a língua e a cultura dos franceses anfitriões. Em 74 envolveu-se com o 25 de Abril e não teve tempo para formação académica senão após a década de oitenta. Após a suspensão das lides partidárias, tornou-se professor e estudante trabalhador serôdio. Hoje, exibe com orgulho, mas sem vaidade, duas licenciaturas e um curso de mestrado. Costuma dizer que tudo isso o deve à mãe que não sabia uma letra.

   Mantina tinha um lema. Era preciso dar ordem à vida, afirmava convenientemente, quando a vida exigia que se seguisse em frente, resolvendo problemas, organizando a vontade e lutando por vida melhor. Mantina não só dizia, fazia. Não simulava, enfrentava. Não parava, caminhava. O seu dar ordem à vida implicava labuta, muito suor e sacrifício.Trabalhava nos campos comprados pelo ti Jaquim com o dinheiro ganho e amealhado nos cinco anos que penou, como operário, nos caminhos de ferro da França para onde emigrara no início do século vinte.

   Lá nas terras da aldeia, Mantina dedicava-se à horta, à  sacha, à cura da vinha, à ceifa da madura ceara, à cava e à apanha da azeitona quando Dezembro se chegava. O utensílio que Mantina mais usava, taco a taco com os homens, era a enxada. Naqueles tempos passados não havia tractores, motores e outros objectos que aliviassem as dores.   Um exclusivo de Mantina era a rega da horta. A água, que corria nos regos, era tirada do poço com a ajuda da mula que girando à volta do engenho fazia emergir a água potável e a canalizava para onde fazia falta. Enquanto se esperava que as águas seguissem o seu caminho, saciando a sede dos legumes e outros futuros alimentos, Mantina colhia da horta o que era preciso para ir à mesa.

   Às sextas feiras era dia de praça na cidade. Na véspera, colhiam-se os legumes e outros produtos da horta destinados à venda no mercado semanal. Enchiam-se então os cestos das citadas iguarias e carregava-se a carroça, que não havia cá carros ou carretas. De manhã, manhãzinha, toca a andar que é preciso chegar cedo para apanhar um bom lugar para a venda. Estimulada a besta, ia a carroça célere com as mãos da mãe na arreata pelos caminhos de terra batida ao encontro das senhoras que no mercado, não tardariam a aparecer frente à mãe e seus produtos. Mantina vendia tudo antes do almoço. Já tinha a sua fiel clientela. Antes de arrumar os cestos vazios na carroça, a mãe deitava a mão aos bolsos da bata e contava os escudos apurados. Depois, na companhia do ti Jaquim e, por vezes do “caga no ninho”, era o tempo de se comer uma deliciosa sopa na taberna do mercado, acompanhada por uma acabada de fritar posta de peixe empurrada por um naco de broa. Barriga composta, os intervenientes na história dirigiam-se à mercearia do costume onde havia lugar ao reabastecimento. Mantina dirigia a encomenda e aviava-se de arroz, massa, bacalhau, açucar, sal, petróleo, fósforos, café e demais coisas que a terra não dava.

   Regressados a casa, Mantina daria o pasto à besta, o feno às ovelhas, os legumes aos coelhos,  o milho às galinhas e o destilado aos porcos. Preparava-se a janta, também por aquelas bandas chamada ceia, à base de sopa de couves com feijão (a melhor das sopas que os filhos e netos haveriam de comer) e talvez se aprontasse umas batatas com um naco de conduto, bocado de toucinho  tirado da salgadeira onde repousavam os destroços do porco criado com as melhores alimentações para fazer bons presuntos e magras costeletas.

,   Ainda antes de fazer oitenta anos, Mantina silenciou-se e nunca se saberá quantas vezes se imaginou em terras distantes. Acometida de grave doença, “trombose” explicou desinteressadamente a medicina, Mantina foi à cama e lá ficou, imóvel, calada, inerte, totalmente dependente. Olhava as visitas com suposta impaciência de quem quer revelar ou transmitir algo. Os filhos, os netos e os amigos desejavam muito poder ouvi-la, mas não tinham disso poder. Em vão esperaram durante quase seis anos de presumível grande sofrimento. Mantina não só se manteve calada como resolveu deixar-nos sem aviso, num certo longo e quente dia de um já distante Agosto.

 

 

Quem não tem mãe não tem nada

Quem a perde é pobrezinho

Ó minha mãe minha mãe

Onde estás que estou sozinho

   (José Afonso)

20
Ago21

Não aconteceu nada

publicado por júlio farinha

   Quando fomos até àquela praia, já o sol se punha no horizonte côr de laranja e azul esverdeado. Mão na mão, pisámos a areia meio molhada horas antes banhada pela maré vazia.

   Então, o cenário fez-me lembrar as manhãs de outono quando nos permitiam apanhar conquilhas : o mesmo que costumavam fazer os conquilheiros , de água até à cintura.

   Nesse pôr do sol assinalado olhámo-nos, olhos nos olhos, e demos mais uma vez as mãos. Quisemos, então, que algo se fizesse, que algo acontecesse. Um beijo, por exemplo. Mas nada fizemos, tudo ficou por fazer.

   Na despedida, acenámos, e cada um dos dois quis dizer em silêncio: fica para a próxima.Mas nunca mais nos encontrámos.O futuro já não era nosso. Nunca mais vislumbraríamos um pôr do sol como aquele.

   Nos anos que se sucederam, até hoje, não mais pus os olhos no pôr do sol e nunca mais pisei a areia daquela praia. Doravante,  não aconteceu nada, tudo ficou por fazer.

13
Ago21

Infinito e eterno

publicado por júlio farinha

   De tudo o que se pode ter ou mesmo tocar diz-se que é tangível. Daquilo que jamais, ou no instante, podemos ter ou aspirar a ter, por ser demasiado elevado para a humanidade, dizemos que é inalcançável.

   Mas há objectos que sendo intocáveis se dão à nossa mente. São objectos compreensíveis, inteligíveis. Dão-se-nos sob a forma de objectos intelectuais. A maior parte destes objectos começou por ser de carácter "científico". Com o tempo, evoluiram e passaram a ser fonte de novos objetos intelectuais. Ou seja, passaram a ser objecto de novas descobertas e avanços, fazendo andar a roda das novas descobertas científicas. E assim sucessivamente.

   Hoje, mau grado a teoria da relatividade e outras correntes novas a nível da Física, é tradicionalmente aceite que o tempo é eterno e o espaço infinito.

   Para vos dar um pouco de sentimento e a "aplicação" do que tento passar-vos,  arrisco a deixar aqui uma nota histórico-trágica; pois, não sendo eu propriamente um cientista, tem tido a história, ao longo da sua vida, protagonistas que não eram insensíveis aos dramas da humanidade.

   Os mártires do amor, Romeu e Julieta, - que W. Shakespeare tão bem lavrou na sua magistral peça-  enquanto apaixonados, prometeram-se  um ao outro como inseparáveis. Uma vez forçadas as circunstâncias coercivas que se abateram sobre os seus desejos e o seu recíproco amor restou-lhes a aceitação da sua finitude, e deram-se à eternidade do maior sentimento que pode haver.  A impossibilidade do amor cá na terra e a suprema decisão e vontade de se darem um ao outro mesmo na morte, justificam o título deste post: subiram ambos ao céu em sublime afirmação voluntária,  pois o seu amor infinito só podia ter lugar na eternidade. 

    

 

06
Ago21

O teu sal

publicado por júlio farinha

"Oh mar salgado, quanto do teu sal são lágimas de Portugal" (F. Pessoa).

Porque chorais lusas gentes?  Porque derramais vossas lágrimas pelos entes queridos que não voltareis a ver?

O mar imenso e alteroso derrubou as naves conquistadoras e sepultou nele os corpos dos nossos ousados marinheiros.

No cais choram as viúvas e os filhos amados. Nas praias jazem despojos dos defuntos e a dor é maior do que nunca. Esperámos, muito, em vão pelo regresso ao largo de ilhas desertas. Não, não voltaremos a encontrar-nos e das arribas vislumbramos as tábuas soltas das caravelas boiando e batendo nos rochedos agrestes.

Oh mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal! Quanto do teu sangue derramado pintaram de vermelho as castanhas algas e os restos das tábuas ostentando os símbolos de Portugal.

16
Mai21

Sorte do norte desnorteado

publicado por júlio farinha

Deu-me a sorte, um dia destes, um denorteado caminho que percorri ao sabor do norte. Fiquei preso desse norte ao sabor de uma morte anunciada. E sem o saber, percorri o caminho alagado de lágrimas e, portanto, me submeti a esse sabor sem norte na anunciada morte. Não, me disse, o sabor do triste norte, preso ao tal sabor da grande sorte. Pena foi a minha não ter ideia da morte que me era então anunciada. O destino, desatinado, me arrancou os cabelos quase todos num instante de cima a baixo. A cada pelo arrancado substituiu-se uma ideia. Como tivesse tido grande razia no couro cabeludo a minha sorte foi ter ficado carente de ideias. Assim me encontro agora: Vazio de ideias, desnorteado, sem sorte, que esta não me  tem por feliz. Há tempos que sabia o que agora relevo: a minha escrita está em dificuldades. Como se se tratasse de uma morte anunciada.

30
Mar21

Um sonho universal

publicado por júlio farinha

  Acredito no amanhã cheio de promessas. Acredito num mundo despoluído e sem ruído. Acredito que nada me pode contecer para além de um contínuo discorrer de melodias que anunciam felicidade. Eu, dentro do meu ser, nada serei sem ti orgulhoso e próximo universo.   Sonho acordado, olhos abertos irradiando paz. Paz e amor, sempre. Sonho entre as gentes, entre os povos, entre mim e ti, sem reservas.   Acredito no querer, no poder dos simples, no poder do amor e da amizade, na gratidão ...

Que o mundo que me é próximo faz-se sonho universal e literalmente meu e teu. Sonho de manhã contigo e o meu sonho faz-te estar perto de mim sem acordar. Lembranças de ontem são promessas de novos dias. O passado é já amanhã e amanhã já é ontem. Assim vamos andando ao sabor dos dias que vão e vêm.

Ontem lembrei-me de ti. Com saudade! Nesse sonho havia amizade e amor, solidariedade, e tudo de bom. Como gostava que ainda vivesses. Será que ainda vives? Sim, certamente. Pelo menos em mim.

Foram os nossos valores que, conjuntamento, cimentaram os nossos queridos ajustes de alma e são estes que ainda permanecem. "O que é, permanece" , tal como dizia Parménides. É por isso que o amor que nos atingiu não nos abandonou nunca. É como um sonho universal e permanente.

      

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