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oraviva

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01
Mar19

Ditadores à portuguesa

publicado por júlio farinha

O texto que se segue foi inspirado por um programa televisivo em que se relata a vida obscura do ditador Salazar. Não trata das zonas cinzentas e um pouco invasivas do programa. É apenas uma reflexão.

 

   Já passou quase meio século após o fim do regime salazarista e do seu Caetano sucessor. Desde Maio de 1928 a Abril de 74 fez figura e deu ordem, má ordem, a Portugal um regime autoritário, pouco republicano e muito ditador. Tratou-se de um regime a que alguns, com razão, chamaram de fascista.

 

   Este regime autoritário foi , pela mão do ditador Salazar e pela espada dos militares e pelo crucifixo da santa madre igreja, impositivo da lei do partido único, da censura da imprensa, do cerceamento das liberdades individuais, da livre reunião e associação dos portugueses.

 

   Nascido das confusões e limitações republicanas anteriores, o chefe viria a ser rapidamente aclamado como salvador da pátria. Com uma hábil divisa propagandística deixou e fomentou o culto da personalidade e feriu os melhores filhos de Portugal que estiveram contra o único. Prenderam-se e mutilaram-se nas masmorras muitos antifascistas e levaram-se ao exílio muitos dos mais altos expoentes da nossa cultura. Ancorou-se no corporativismo, no presidencialismo, na prepotência e no estado policial criando uma rede de odiosos serviçais e diligentes repressores a pretexto da defesa do estado : pides, bufos e delatores. Tudo isto a pretexto da defesa de altos valores morais da nação. O governo de Salazar foi uma penosa mentira.

 

   Hoje reeditam-se velhos fantasmas. A direita quer voltar atrás, clama por um salvador e culpa o 25 de Abril. Tal como os republicanos que os salazaristas invocaram, também a chamada democracia chamada representativa, ou outra do mesmo estilo, está a dar trunfos aos reaccionários que por vezes se nos apresentam como muito democratas. É por isso que o povo abstencionista não acredita em eleições.

 

   Há por aí uma ideia peregrina, sem santuário haja Deus, que quer obrigar ao voto toda a gente. A liberdade que Abril trouxe e que tanto custou  a ganhar aos que por lá estiveram não contempla essa opção. E bem. Votar é um direito, não é um dever. Os abstencionistas seriam violentados na sua consciência se alguém, ou estado, os obrigasse a, de vez em quando, ir pôr uma cruz num papel que não lhe diz nada. A leitura do abstencionismo é clara: as pessoas só votam se quiserem. O contrário disto não está na Constituição. Por outro lado, não é preciso fazer uma sondagem aos abstencionistas para se concluir que eles não votam porque acham que nenhum partido neste quadro politico lhes interessa. Pronto. Obrigar as pessoas a votar é procurar certificação para os chamados votos válidos.

 

   Para este peditório, diz o abstencionista, já dei. Ponto.

 

  

 

15
Fev19

Os três sapateiros

publicado por júlio farinha

   A manufactura desapareceu quase por completo e foi substituída pela produção em série. Quem ainda se lembra do sapateiro, do cesteiro, do latoeiro, da costureira, do alfaiate, do ceramista ? Artes ou ofícios, como lhe devemos chamar?  A cada uma destas formas de produção correspondia uma forma de ser que também desapareceu. Ainda há uns cinquenta anos trabalhava-ve por conta própria, hoje o trabalho é alienado na forma e na pessoa de outrem. Esse outro que já pouco rosto tem.  Os contextos em que o artesão trabalhava foram-se. Não há volta a dar.

 

   Quando era criança, no regresso da escola, passava diariamente por uma casinha de sapateiros onde se confeccionavam botas para o trabalho no campo, para a frialdade dos invernos ou dos mais quentes dias do verão. As botas e os sapatos de homem e de mulher e uns poucos de criança – pois era comum a petizada andar descalça até tarde – nasciam e cresciam de um bocado de couro devidamente  martelado, cortado à faca feita e afiada a preceito pelo mestre sapateiro.

 

   Eu  era visitante assíduo da casa dos sapateiros. Era ali acolhido com simpatia e com vontade de me afoguearem a vergonha com ousadas piadas meio picantes para a minha idade. É que eu tinha três irmãs mais velhas tidas como bonitas e em fase de namoriscar. "Ó Sabichão – atiravam-me à chegada  -  já pintas?". Eu cá pintava-me era de vermelho na cara porque bem sabia o que queriam eles dizer com a provocação.

 

   Os sapateiros eram três: o Manel Carranca, o Toino do Talego e o Petinga. Todos eles sentados em bancos sobre o comprido e com uma divisão onde guardavam os martelos, as facas, as agulhas, as linhas, as resinas, as escovas , as pomadas , as tintas e tudo o mais que completava o arsenal de utensílios e materiais destinados ao arranjo e confecção daquilo que a aldeia trazia nos pés. Eu gostava muito de os ver a trabalhar e o que eles diziam era a música que me acompanhava  na minha contemplação. Dáva-me sono observar a enfiadura das agulhas nas solas e o puxar das linhas com força e precisão. No banco onde me sentava, e que ficava no meio do Carranca e do Petinga, ficava ao alcance das braçadas dos dois sapateiros que, de vez em quando, abriam excessivamente os braços nas suas coseduras e com as mãos  enluvadas de pele me batiam, propositadamente, com a força suficiente para me acordar da dormência em que me embalava.

 

   Hoje, que só temos as memórias - os que as têm - dos velhos sapateiros e de todos os outros artistas desaparecidos apetece-me revisitar a obra desses velhos senhores da manufactura. Isso é possível nos museus, na literatura, e nos arquivos históricos. Mesmo que nobres pessoas ou instituições queiram recuperar e revitalizar as tradições, isso não passará de uma quimera. O tempo é outro, não volta atrás. A produção massiva deu cabo de tudo. A nova sociedade é mais velha e pobre que a anterior.

 

 

08
Fev19

Portugal assim-assim

publicado por júlio farinha

   A sociedade portuguesa é francamente desequilibrada. Temos uma realidade social à qual chamaremos os grandes e que são a minoria.  Uma porção que engloba os pobres e os excluídos e que são muitos, e uma maioria que, sem estatísticas, a olho nu, são os que nem são pobres nem ricos - são os irremediavelmente assim - assim a caminhar para a proletarização mercê da enorme apetência que o vampiresco estado manifesta em lhes chupar o sangue fresco -  ou seja, o apetecido farnel que constitui os impostos.

 

   Este sector da população mais o pobre constituem o povo de hoje. O povo ou é pobre ou é assim-assim. Seja como for, é este segmento da sociedade portuguesa que escolhe periodicamente, de entre os digníssimos membros de entre os grandes, quem o vai explorar.

 

   É claro que os ideólogos e outros agentes de serviço aos grandes se encarregam de, constantemente, dizer ao povo que não é assim, que somos todos iguais, que os partidos do arco do poder representam todo o leque social, que é só escolher e acreditar nos escolhidos. Então endeusam o voto. Este é sagrado.

 

   Mas o povo, os pobres e os assim-assim, não são propriamente parvos. Sabem ler mesmo que tenham fraca escolaridade. Vai daí, o povo, valha-nos Deus, não acorre às urnas como eles, os grandes, esperavam. Então, germina por aí uma ideia peregrina, mas sem santuário, que é preciso obrigar o povão a votar para assim se combater os elevados índices de abstenção e certificar com um voto obrigatório aqueles que ciclicamente nos vão roubando, perdão, governando.

 

   Cá por mim, que sou muito abstencionista por não ter partido nem acreditar em nenhum, hei-de clamar, se essa ideia de referendar a obrigatoriedade do voto for possível, que a liberdade que ajudei a vencer em Abril não a largo da mão. Tenho direito à minha liberdade e esta pode consumar-se em não votar. Exijo respeito em nome da própria cidadania. Não serei cidadão à força. É que já o era antes de se poder votar.

 

  

 

    

 

 

28
Jan19

A dignidade

publicado por júlio farinha

Há pessoas que vivem à custa da insídia, da desonestidade e da prepotência.Têm um fim trágico, felizmente. Equanto esse fim anunciado não chega vão ludibriando os outros à sombra da invocação de altos valores (fingidos). Usam argumentos falaciosos e misturam prepositadamente problemas estritamente pessoais para levar à destruição dos incómodos adversários. Dizem-se políticos mas não são senão um simulacro destes. Aprendem as manhas daqueles embora nos digam raios e coriscos das suas práticas. Enfim, são seres desprezíveis que acabam por secar a vegetação generosa que um dia floriu à sua volta.

Há um valor que tem forçosamente que crescer na sociedade por vezes desprevenida. Há que dizer não aos déspotas escurecidos da razão. Há que os pôr no seu lugar: No esquecimento. Há que não vergar as costas perante tais ditadores. A isto chamo dignidade.

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