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oraviva

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20
Ago21

Não aconteceu nada

publicado por júlio farinha

   Quando fomos até àquela praia, já o sol se punha no horizonte côr de laranja e azul esverdeado. Mão na mão, pisámos a areia meio molhada horas antes banhada pela maré vazia.

   Então, o cenário fez-me lembrar as manhãs de outono quando nos permitiam apanhar conquilhas : o mesmo que costumavam fazer os conquilheiros , de água até à cintura.

   Nesse pôr do sol assinalado olhámo-nos, olhos nos olhos, e demos mais uma vez as mãos. Quisemos, então, que algo se fizesse, que algo acontecesse. Um beijo, por exemplo. Mas nada fizemos, tudo ficou por fazer.

   Na despedida, acenámos, e cada um dos dois quis dizer em silêncio: fica para a próxima.Mas nunca mais nos encontrámos.O futuro já não era nosso. Nunca mais vislumbraríamos um pôr do sol como aquele.

   Nos anos que se sucederam, até hoje, não mais pus os olhos no pôr do sol e nunca mais pisei a areia daquela praia. Doravante,  não aconteceu nada, tudo ficou por fazer.

13
Ago21

Infinito e eterno

publicado por júlio farinha

   De tudo o que se pode ter ou mesmo tocar diz-se que é tangível. Daquilo que jamais, ou no instante, podemos ter ou aspirar a ter, por ser demasiado elevado para a humanidade, dizemos que é inalcançável.

   Mas há objectos que sendo intocáveis se dão à nossa mente. São objectos compreensíveis, inteligíveis. Dão-se-nos sob a forma de objectos intelectuais. A maior parte destes objectos começou por ser de carácter "científico". Com o tempo, evoluiram e passaram a ser fonte de novos objetos intelectuais. Ou seja, passaram a ser objecto de novas descobertas e avanços, fazendo andar a roda das novas descobertas científicas. E assim sucessivamente.

   Hoje, mau grado a teoria da relatividade e outras correntes novas a nível da Física, é tradicionalmente aceite que o tempo é eterno e o espaço infinito.

   Para vos dar um pouco de sentimento e a "aplicação" do que tento passar-vos,  arrisco a deixar aqui uma nota histórico-trágica; pois, não sendo eu propriamente um cientista, tem tido a história, ao longo da sua vida, protagonistas que não eram insensíveis aos dramas da humanidade.

   Os mártires do amor, Romeu e Julieta, - que W. Shakespeare tão bem lavrou na sua magistral peça-  enquanto apaixonados, prometeram-se  um ao outro como inseparáveis. Uma vez forçadas as circunstâncias coercivas que se abateram sobre os seus desejos e o seu recíproco amor restou-lhes a aceitação da sua finitude, e deram-se à eternidade do maior sentimento que pode haver.  A impossibilidade do amor cá na terra e a suprema decisão e vontade de se darem um ao outro mesmo na morte, justificam o título deste post: subiram ambos ao céu em sublime afirmação voluntária,  pois o seu amor infinito só podia ter lugar na eternidade. 

    

 

06
Ago21

O teu sal

publicado por júlio farinha

"Oh mar salgado, quanto do teu sal são lágimas de Portugal" (F. Pessoa).

Porque chorais lusas gentes?  Porque derramais vossas lágrimas pelos entes queridos que não voltareis a ver?

O mar imenso e alteroso derrubou as naves conquistadoras e sepultou nele os corpos dos nossos ousados marinheiros.

No cais choram as viúvas e os filhos amados. Nas praias jazem despojos dos defuntos e a dor é maior do que nunca. Esperámos, muito, em vão pelo regresso ao largo de ilhas desertas. Não, não voltaremos a encontrar-nos e das arribas vislumbramos as tábuas soltas das caravelas boiando e batendo nos rochedos agrestes.

Oh mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal! Quanto do teu sangue derramado pintaram de vermelho as castanhas algas e os restos das tábuas ostentando os símbolos de Portugal.

16
Mai21

Sorte do norte desnorteado

publicado por júlio farinha

Deu-me a sorte, um dia destes, um denorteado caminho que percorri ao sabor do norte. Fiquei preso desse norte ao sabor de uma morte anunciada. E sem o saber, percorri o caminho alagado de lágrimas e, portanto, me submeti a esse sabor sem norte na anunciada morte. Não, me disse, o sabor do triste norte, preso ao tal sabor da grande sorte. Pena foi a minha não ter ideia da morte que me era então anunciada. O destino, desatinado, me arrancou os cabelos quase todos num instante de cima a baixo. A cada pelo arrancado substituiu-se uma ideia. Como tivesse tido grande razia no couro cabeludo a minha sorte foi ter ficado carente de ideias. Assim me encontro agora: Vazio de ideias, desnorteado, sem sorte, que esta não me  tem por feliz. Há tempos que sabia o que agora relevo: a minha escrita está em dificuldades. Como se se tratasse de uma morte anunciada.

30
Mar21

Um sonho universal

publicado por júlio farinha

  Acredito no amanhã cheio de promessas. Acredito num mundo despoluído e sem ruído. Acredito que nada me pode contecer para além de um contínuo discorrer de melodias que anunciam felicidade. Eu, dentro do meu ser, nada serei sem ti orgulhoso e próximo universo.   Sonho acordado, olhos abertos irradiando paz. Paz e amor, sempre. Sonho entre as gentes, entre os povos, entre mim e ti, sem reservas.   Acredito no querer, no poder dos simples, no poder do amor e da amizade, na gratidão ...

Que o mundo que me é próximo faz-se sonho universal e literalmente meu e teu. Sonho de manhã contigo e o meu sonho faz-te estar perto de mim sem acordar. Lembranças de ontem são promessas de novos dias. O passado é já amanhã e amanhã já é ontem. Assim vamos andando ao sabor dos dias que vão e vêm.

Ontem lembrei-me de ti. Com saudade! Nesse sonho havia amizade e amor, solidariedade, e tudo de bom. Como gostava que ainda vivesses. Será que ainda vives? Sim, certamente. Pelo menos em mim.

Foram os nossos valores que, conjuntamento, cimentaram os nossos queridos ajustes de alma e são estes que ainda permanecem. "O que é, permanece" , tal como dizia Parménides. É por isso que o amor que nos atingiu não nos abandonou nunca. É como um sonho universal e permanente.

      

26
Mar21

Negativo, sim. Positivo, sempre

publicado por júlio farinha

Durante meses em fuga da virulenta situação inúmeras voltas dei à pandemia. Nunca saberei quantas vezes fui assediado pelo surto. Só a semana passada concluí, em terra de teste, que sou, ou fui negativo. Sempre? Não sei. Posso ter sido assintomático. Que importa? Agora, agora estou, ou sou, livre. 

Negativo perante o vírus sinto-me positivo na minha alma.

A positividade anímica deu-me para passar músicas de que gosto e abandonei, até hoje, a escrita. A música foi o meu conforto e relegou-me para o passado onde fui verdadeiramente feliz. Este pequeno escrito anuncia um desejo: comemorar o possível desconfinamento a que tanto almejo com palavras e frases recuperadas da minha memória passada no inferno da prisão mental a que fomos obrigados.

Desejo ainda que sirva, este texto, para homenagear aqueles que nesta plataforma trocaram comigo impressões e que terão sofrido com o ataque malévolo da doença pandémica. Para aqueles que continuaram a não dar tréguas ao vírus aqui deixo os meus parabéns.

O futuro há-de reunir-nos de novo e voltaremos a escrever sobre o que nos vai no espírito fazendo-nos lançar ao mundo que foi, e será, sempre o nosso.

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