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30
Abr18

Rumo ao sul

publicado por júlio farinha

   Quando o cansaço da labuta e da escrita ameaça o discernimento, nada como rumar às origens e fazer uma reaproximação ao convívio dos velhos amigos, conhecidas paisagens, cheiros e memórias.

   Aproveitando a circunstância do eminente aparecimento do feriado do 1º de Maio, este ano ancorado num fim de semana, pedimos dispensa às obrigações profissionais e rumámos a sul em direcção ao Sotavento algarvio onde se situa o nosso domicílio original. Algarvios por adopção, pois claro. Viemos para arrumar a casa, em todos os sentidos.

   A longa viagem de carro pareceu curta naquela noite de sexta-feira. Muita, variada e sugestiva conversa. Tu falas muito, diria a patroa em termos de balanço quando, a meio caminho, parámos para meter a bucha no bucho. Respondemos, na circunstância à crítica: é porque temos muito para dizer. Vaidades. Realmente, verdade, verdadinha precisa-se de menos conversa, menos escrita e mais acção. Há muita gente a falar e poucos a fazer, como se pode inferir de uma alocução de Ferro Rodrigues no 25 de Abril.

   Chegados, já noite fora, à nossa casa que ajudámos a construír nos intervalos das funções docente numa escola próxima, revisitámos o passado. Ainda cansados, alguma tristeza consentida na mínima bagagem, mas reconfortados por chegarmos ao que era nosso. Emoções sem nostalgia, lúcidas, mas mesmo assim carregadas de saudade.

  Sem que nos dessemos conta, visualizámos no espírito e na memória a figura de Nicolai,um engenheiro mecânico ucraniano que obrigado a procurar trabalho fora de portas, nem que fosse nas obras para ganhar o pão, se sujeitou, como tantos outros, ao trabalho desqualificado em países como o nosso, em virtude do descalabro que ocorrera a Leste. Conhecemos Nicolai, quando num incerto dia do ano de 2000 lhe demos boleia, na 125. À pergunta sobre o que fazia em Portugal, respondeu que acabava de chegar da apanha do morango em Espanha e aventurava-se a procurar no Algarve o que houvesse para ganhar o sustento da família que havia deixado lá para os lados de Lviv,cidade turística, conhecida como a "pequena Paris", grande centro universitário e cujo centro histórico é, desde 1998, classificado pela UNESCO como património mundial. Nicolai estranhava que cidades como Lisboa tivessem tão poucos monumentos.  

   Empreguei Nicolai porque precisava de alguém , mesmo sem experiência na construção, que tivesse o engenho e a inteligência prática para aprender a acabar a nossa casa cuja construção tinha ficado a meio, quando o improvisado e manhoso arquitecto feito construtor me gastou todo o dinheiro acordado, no previsto orçamento, sem nos deixar a casa feita.Nicolai pareceu-nos ser esse tipo de gente que é boa em tudo no que se mete. E não nos enganámos. Ele foi,para além da vocação para o saber aprender fazendo, uma das pessoas mais honestas e bem formadas que até agora conhecemos. Diligente, pontual,inventor de soluções era,apesar da sua elevada formação académica, de uma grande humildade e dignidade. Neste 1º de Maio, que é o nosso segundo dia preferido, prestamos a nossa homenagem a este jovem engenheiro operário que, antes de partir já havia inscrito o seu legado e exemplo no chão, nas paredes da nossa casa e no espírito de quem a habita. Viver neste domicilio é viver com o nosso convidado: Nicolai. Nunca lhe agradecemos o suficiente ter contribuído decisivamente para o levantamento do alojamento de uma família inteira.  

   Quando demos por terminada a construção, grande parte dirigida através de administração directa, foi a vez de Nicolai subir de categoria e ingressar nos estaleiros navais de um Engenheiro amigo que rapida e solidariamente o integrou dos quadros da sua empresa onde continuou a ser trabalhador exemplar. Nicolai era um jovem homem forte e aparentemente saudável,mas a vida, por vezes, deixa-se escrever por linhas muito tortas. Numa fria manhã de inverno, Nicolai faltou, pela primeira vez, ao trabalho.Tinha sucumbido vítima de uma  síncope cardíaca no duche da apertada casa de banho anexa a um modesto quartinho que tinha alugado.

 

   No segundo dia de permanência na nossa habitação, cedo erguidos, caminhámos pelas veredas e trilhos das matas das proximidades, revendo o lugar, cheirando a resina dos mansos ou bravos pinheiros, ouvindo sinfonias da passarada, ou deitando o olho aos patitos bravos navegando os lagos. Detalhes a que a natureza se presta. Detalhes que afinal enchem aquilo que em nós há de irrepetível na espécie: o coração e a mente.De tempos a tempos, o silêncio era suavemente cortado pelo chiar de uma bicicleta de um conquilheiro com as suas artes da pesca no suporte. Havia estrangeiros que connosco se cruzavam e nos saudavam gentilmente com um "bom dia" ou um "olá" com sotaque. Seguiam caminho e levavam consigo pedaços de alegria, sobriedade,civilização. Sentimos pena de ser,às vezes,tão rudes e incompletos. De não termos as virtudes e os bons costumes dos povos do norte.

   Regressados a casa e feitas algumas tarefas administrativas e coisas práticas que alguém tem de fazer, fomo-nos deixando dormitar pedaço aqui, pedaço acolá. Até que chegou a hora do Sporting. Naquele sábado, já não no distante Café da Dona Berta ,mas ainda assim num café. Este, inscrito no espaço da urbanização. O Sporting ganhou, e bem. Nós também, jogando contra o infundado desânimo. Amanhã é outro dia, vai ser o dia do trabalhador. O dia de Nicolai, de milhões por esse mundo fora e também o nosso,porque não?

27
Abr18

Os comentadores profissionais

publicado por júlio farinha

   Tenho pouco mais de um mês de blogosfera, mas creio já ter topado com dois tipos diferentes de protoganistas. Uns, talvez a maioria, escrevem textos mais ou menos bem intencionados, sinceros, pensados e vividos. Transportam consigo, através dos seus artigos, sentimentos, reflexões, experiências, vida enfim, que constitui a riqueza da plataforma de alojamento que os acolhe.

   O outro tipo (distinguir o bloger que cordialmente comenta posts de outrem por simpatia ou afinidade)  é constituído por criaturas , embora em pequeno número, ruidosas e arruinantes que, quais sanguessugas, vivem à custa da exploração da produção escrita dos primeiros.A maior parte destes comentadores profissionais não querem ou são incapazes  de escrever dez ou quinze linhas seguidas sem se atropelarem na sua fútil prosa. Para a sua comentação servem-se despudoradamente dos pensamentos e vivências alheias.

   Naturalmente, os comentadores profissionais, de elevada inspiração e vocação vampirescas, acoitam-se, geralmente, no anonimato, atrás da cortina do pseudónimo ou na penumbra do nickname. Deste modo, é-lhes fácil praticar a despudorada crítica esfrangalhada, a acusação ou insinuação infundada, quase sempre com as feias roupas de um humor de mau gosto, pobre e brejeiro tão incompativel com a cultura que presumem possuir. Os ditos comentadores querem ser os herdeiros dos representantes das cantigas de escárnio e mal dizer. Até desses estão a milhas de distância. Tal como a História que acontece primeiro como tragédia e se repete como comédia, os comentadores de serviço da nossa blogosfera estão condenados ao ridículo e rapidamente deixarão de ser lembrados. Restará uma vaga ideia da existência de uns comediantes de terceiríssima categoria. Ninguém se rirá com eles mas sim deles, até que se constituam num mero resíduo.

   O 25 de Abril que nos vai deixando saudades fez-se para os mais defavorecidos e não para alimentar vaidades burguesas. Há gente que devia ser destinatária de educação correctiva. Tal como em Esparta, a sociedade devia ter meios e poder para castigar a anti-sociedade e seus mentores. Como dizia Marat : "Nenhuma Liberdade para os inimigos da Liberdade" Que horror, o terror. Já oiço o chefe dos comentadores profissionais, o sábio. Pois é. A tolerância exige que se calem os intolerantes. Por exemplo, a liberdade de imprensa não autoriza o ataque e a destruição da dignidade humana. Se  porventura os denunciados comentadores estão a soldo de estratégias mediáticas, neste caso do sapo, então a coisa toma ainda contornos mais hediondos. Não quero acreditar nisso.

25
Abr18

Dá Sporting na Dona Berta

publicado por júlio farinha

   Aos fins de semana e, por vezes, às quartas ou quintas, o pequeno Café da Dona Berta situado num tranquilo bairro de Mem Martins enche para se assistir aos jogos do Sporting. O jogo é servido num generoso écran e os presentes ocupam os seus lugares do costume, havendo alguns que não largam o balcão onde se bebe mais uma tacita de vinho e se petisca o pitéu do dia cozinhado com jeito e sabedoria pela Dona Berta.

Sou um dos sportinguistas que raramente perde o acontecimento citado. Não tenho Sport TV em casa e hoje não me arrependo de a não ter subscrito. É que tenho para mim que assistir a um jogo de futebol implica participação no espectáculo. Não concebo assistir a um desafio com as pantufas calçadas, isolado numa sala de estar, estendido num confortável sofá. Isso não é vida. O futebol não é coisa para se adormecer. Implica socialização, emoção colectiva, sofrimento partilhado. O futebol, sobretudo o do Sporting, é coisa para leões. Tanto para os que estão dentro, como para os que estão fora dos relvados. Em suma, ou se vai ao estádio ou ao café, em casa não.

Como sou só adepto, não frequento o magnífico estádio de Alvalade. E para ser franco, o Café marcha melhor com a minha personalidade e gosto de olhar, nos grandes planos da TV, os rostos e as posturas dos adeptos do Sporting. Um amigo meu refere-os como pessoas bonitas e civilizadas e distingue-os de outras massas que caracteriza como arruaceiros e relativamente feios de carácter. Eu acho que há gente boa em todos os clubes, como não pode deixar de ser. Só que no Sporting há mais. Por outro lado, as multidões ultrapassam, por vezes, os limites razoáveis do emocional o que induz comportamentos desnecessariamente agressivos e mal educados (o que não tem sido o caso no Sporting). Assim, tenho para mim que o Café ou as Casas do Sporting , onde as há, são os melhores espaços para assistir ao jogo do clube, quando não se pode ou não se quer ir ao estádio. Reconheço, não obstante, que todos os adeptos deviam acompanhar a sua equipa ao vivo e dar-lhe a força e o apoio que os jogadores merecem.

 

   Na Dona Berta encontra-se , invariavelmente, um grupo heterogéneo de fãs do futebol onde predominam, nos dias do Sporting adeptos seus. Chegada a hora, os olhos espetam-se no televisor e preparam-se todos para comentar, dialogar, opinar sobre as incidências do jogo.

   Por mim, entrego a defesa do Sporting ao Ti Jaquim que conhece de ginjeira os "infiltrados" na operação sporting - alguns benfiquistas que tentam fintar e desorientar os sportinguistas presentes. O Ti Jaquim foi atleta do nosso clube quando jovem. Já foi artesão, mas a vida não favorece a arte e dedicou-se ao ofício do estuque que ainda exerce, não obstante já estar na casa dos sessentas. O Ti Jaquim é daqueles que não se senta. Sempre com o balcão por perto vai intercalando o seu copito com o petisco do dia cozinhado com jeito e sabedoria pala Dona Berta. Gosta de dizer que o Sporting é a maior equipa do mundo por via dos inúmeros troféus conquistados nas modalidades amadoras. Quando a coisa corre mal para a nossa equipa filosofa: "as coisas não são como a gente quer, são como elas são".

   A meu lado, senta-se sempre o Sr. Conde, homem de trato fácil, bom. Cultiva a boa educação, a ironia e um saber feito da experiência dos seus quase 70 anos. Reformado da Petroquímica, foi e ainda é um revolucionário. Figura de primeira água da Comissão de Trabalhadores, onde se destacou como líder nato, levou porrada dos militares do Copcon, quem diria, porque "mijava fora do penico". Discute comigo, de igual para igual, actualidade e política. Conhece Marx, Engels e Lenine. Ainda há pouco, apareceu em cartazes que o anunciavam como cabeça de lista às eleições por um partido da extrema esquerda profunda. É que o sr. Conde levou a sério o dito do jovem Marx: "ser radical é agarrar as coisas pela raíz". O Sr Conde também é um ententido nas lides futebolísticas (pertence a uma rara casta de homens que são bons em tudo no que se metem). Conhecedor de tácticas e estratégias do jogo, vai dizendo quem é que se devia substituir , se se devia meter mais um ponta de lança, que era altura de se reforçar mais o meio campo, que o Bruno Fernandes devia apoiar mais as costas do Bas Dost, ou observa que o Gelson está a ficar sem pernas. O Sr Conde também faz figas por debaixo da mesa quando o árbitro marca um penálti ou livre contra o Sporting e acredita que o Patrício há-de defender a coisa.

   Pelo meio de nós, senta-se o Ti Américo, portista dos quatro costados. Técnico de ar condicionado, reformado. É nosso amigo.Afirma mesmo, "se isto não for para o Porto que vá para o Sporting". Admira o meu filho que também é portista militante e que se desloca inúmeras vezes ao Porto para apoiar os seus, no Dragão. Nós, sportinguistas, retribuímos a simpatia e desejamos -lhe boa sorte quando o Porto joga, menos quando a coisa é contra o leão.

   Também há, no nosso grupo, uma figura sempre presente que desempenha um papel peculiar. Trata-se de um senhor do qual nunca soube o nome, de origem africana, tímido, reservado, e muito atento. Enquanto nos acompanha na visualização do jogo ouve, a partir do seu telemóvel e com a ajuda de fones para não perturbar, o relato de uma rádio. Como há uma décalage temporal entre as imagens televisivas e a realidade, o "speaker", como lhe chama o Sr Conde, consegue saber quando há golo enquanto nós ainda estamos a ver a bola no meio campo. Quando o speaker anuncia o golo, é uma festa antecipada. Mas há quem não goste, por achar que assim se retira emoção ao  espectáculo.Grandezas e misérias da tecnologia.

   Para além das pessoas que referimos como sportinguistas, distinguem-se também pela sua participação, o Sr. Ilídio ex-funcionário dos Smas, e o Sr. Simões, electricista reformado.

   É este pedaço de povo, representativo do que há de melhor e mais autêntico no conceito, que se reune na Dona Berta a pretexto do Sporting. Não há nada de alienante nestes encontros, bem pelo contrário. Ali, e então, se vivem momentos saborosos de emoção, de paixão, de vida enfim. Há momentos que perduram na memória porque se ratificam no real. Ainda temos muito a aprender com uma entidade que não é ficcional: o povo.

 

22
Abr18

Confusões

publicado por júlio farinha

   Recebi hoje uma lição. Escrever para nós pode não ser o mesmo que escrever para os outros.

   Numa tentativa de homenagear o 25 de Abril, abri o livro da experiência e dissertei sobre a História do ensino após a revolução dos cravos. Fi-lo em tamanho XXL, o que faz da coisa uma seca para os mais desprevenidos. A adesão ao escrito é inferior ao esperado. Ao texto chamei Escolas: andar aos papéis.

   Podemos concluír que, ou o tema não interessou aos potenciais leitores, o que é provável, ou as pessoas não estão propriamente afim de atacar grandes prosas de autores não consagrados, o que também éprovável, ou as pessoas acordaram tarde porque sendo Domingo, dia do Senhor, a coisa está mas é para o descanço da cabeça e do corpo.

   Ou seja, o que devia ter feito, se a febre da escrita não me tivesse toldado o discernimento, era ter metido o desgraçado do artigo na gaveta, entregando-o como fez Marx a um dos seus, sim, valiosos manuscritos  que então pôs ao dispôr  da " crítica roedora dos ratos" por ter dúvidas da sua eficácia, completude e oportunidade.

   Nunca é tarde para aprender com os erros. Doravante, e até que novo ímpeto escriturário me assalte, vou passar a escrever, diariamente ou coisa assim, coisas que já fazia, apontamentos breves sobre ainda não sei o quê. Talvez, se houver engenho, coisas divertidas, sérias, filosofias, políticas, eu sei lá. Vamos tentar suprimir o supérfluo e agarrar o essencial. Minimizar o texto e o contexto.

 

   Hoje tenho para vos apresentar um caso real (da ficção, gosto mais da científica). Passou-se a coisa numa escola secundária de província onde dei aulas. Um professor de Fisica e Química pediu, num teste, que os alunos caracterizassem a electrólise. Um dos alunos, provavelmente fraco a Português e duro de ouvido, escreveu: electrólise ... "é quando os electrões vão do cátodo para o ânus". O professor, desconfiado da suposta maldade, riscou ânus e escreveu ao lado. "só se for para o seu". Como se sabe ,em vez de ânus deve dizer-se ânodo. E julgo saber que, na realidade, os electrões dirigem-se do ânodo para o cátodo e não o contrário. Se calhar foi esta incorrecção que despertou a veia humorística do nosso professor incomodado com a falta de rigor científico do aluno. Confusões.

   O professor cometeu uma imprudência. Devia ter esclarecido se o aluno era do tipo de escrever tais "provocações", se o aluno sabia o que estava a escrever ou se era um caso comum, na época, de grossa ileteracia ou ignorância.

   Não sou partidário da humilhação como forma de ensinar ou educar quem quer que seja. Talvez o professor só quisesse fazer ironia, mas esta pode ser muito destrutiva. Não se ironiza só porque isso faz rir os outros. Não temos o direito de rir à custa das fragilidades de outrem. Sim, porque não havia nenhuma evidência que o aluno tivesse escrito aquilo por maldade. Se fosse o caso, então, sim, a atitude do professor estava justificada e a ironia passava a ser pedagógica. Quando não sabemos se o réu é culpado, damos o benefício da dúvida. A isto chama-se tolerância.

21
Abr18

Escolas: andar aos papéis

publicado por júlio farinha

“Ao princípio era o caos” (Hesíodo)

 

   Há mais de quarenta anos, estávamos no pós-25 de Abril e a situação no ensino em Portugal atravessava momentos difíceis. Um grande número de professores não tinha qualquer tipo de formação pedagógica ou didáctica. Ainda não existiam os estágios dos cursos universitários via de ensino que só viriam à luz do dia em meados da década de oitenta.

   Embora já fosse usada a figura do concurso, um grande número de docentes era recrutado directamente com base na sua formação académica, na maior parte das vezes, de grau não superior. Nada de currículos vitae. Mercê da adopção do princípio da escolaridade obrigatória até ao terceiro ciclo do então chamado ensino unificado, deu-se equivalentel boom na procura de professores.

   A organização das escolas viu-se a braços com muitos problemas. Havia falta de meios humanos e materiais e não havia recursos financeiros suficientes para lhes fazer frente, nem estratégias que o essencial resolvessem.  Escolas mal dimensionadas, uma rede escolar improvisada e desadequada, a falta de uma rede de transportes condicente com as realidades, os problemas de preparação, já assumidos, dos professores e dos próprios responsáveis pela educação campeavam. Cedo os ministérios se centralizaram e burocratizaram e algumas inspirações políticas “minaram” os ambientes.

   Com a viragem tendencialmente “recuperadora” de concepções “moderadas” operada no 25 de Novembro, os problemas não se resolveram e houve alguns que se agravaram. Os sucessivos governos que se seguiram não deram conta do recado. Uma das chagas mais dolorosas que então nascia prende-se com a monstruosa “mobilidade” a que os professores passariam a estar sujeitos durante anos e anos  Os professores passaram a ser subjugados pelo salário e pela miragem de um lugar do quadro que os trouxesse de volta a, pelo menos, uma distância de cinquenta  quilómetros da  sua casa e da família.

   Nestas condições de precariedade, em que nunca se sabia se no ano seguinte haveria emprego, os alunos e as famílias também viviam na incerteza. As escolas ficaram privadas da ideia de terem um projecto. Escolas e professores pouco sabiam do futuro. Nestas circunstâncias, vingou a lei da administração imediatista, de curtas vistas e, mais uma vez, dependente da boa vontade dos docentes que começavam a dar sinais de cansaço mas que, apesar de tudo, voltavam a agarrar o barco. Nestes contextos, ninguém daria por falta do ministério se ele nos faltasse. Este, por vezes, só atrapalhava, para sermos claros. Já não valia a pena exigir dos governos reprografias, papel, giz, refeitórios capazes, laboratórios e pavilhões gimnodesportivos. Como fazem hoje com a marmita, os professores iam trazendo de casa aquilo que podiam e que fazia falta para ensinar a malta.

   Os anos oitenta distinguiram-se por algumas boas reformas. A falta de formação inicial foi colmatada com o aparecimento e bons resultados da chamada profissionalização em exercício, percursora , até há 25  anos, da desconhecida formação contínua. Esta reganhou os professores para o entusiasmo e para o progresso educativo e têm tido nos Centros de Formação das Associações de Escolas os seus principais dinamizadores. Bem hajam membros e directores dos Centros referidos. Professores, afinal.

   Voltando à História, refira-se um marco importante na luta docente e sindical pela dignificação da classe. Falamos daquela que foi, provavelmente até hoje, a maior vitória dos professores: a aprovação do seu Estatuto da Carreira. Com este documento, a classe autonomizou-se da função pública e adquiriu o perfil de “especial”.  Falta o reconhecimento das consequências todas dessa individualidade. É preciso reconhecer que a profissão é de desgaste rápido e, consequentemente, exige-se antecipação da idade da Reforma.

   De resto, nunca tivemos razões de queixa da sociedade, mau grado algumas pequenas incompreensões de parte a parte. O que une os professores e as famílias é mais forte do que aquilo  que os separa. O seu elo de ligação é comum: os alunos.

   A gestão das escolas, conceito para além do órgão directivo, tem conhecido indecisões, imprecisões e tem, por vezes laborado excessivamente no erro de  encarar os outros como só de um se tratasse. Exige-se sem dúvida uma gestão amiga do ambiente escolar, criativa, motivadora e justa. Respeitar a diferença, valorizar aquilo que cada um de nós tem de melhor. Neste sentido, faz sentido falar-se de gestão democrática.

   Finalmente, uma palavra para a política “lato senso”. As constantes alterações nas orientações e medidas a que os sucessivos ministérios têm submetido as escolas e o ensino, conforme os governos se alternam no poder, bem como uma certa falta de ideias originais, coerentes e relacionadas logicamente não tem favorecido a construção de uma matriz sólida, séria e justificada.Pelo contrário, têm sido progenitoras de ziguezagues e certas importações apressadas do estrangeiro. Por vezes, fica-se com a ideia que certas intervenções ou propostas são para cumprir agenda política ou manifestam uma vontade de “aparecer” na praça dos media. A política educativa não pode ser exclusiva dos governos. Há muita gente interessada nas coisas públicas e que, tendo opinião, tem o dever cívico da participação. Políticos de carreira têm que partilhar o espaço. Senão, onde está a democracia?

   Quando se lê um documento do actual ME ,que é uma grande seca, graças a Deus, onde se procura explicar os princípios e as formas de implementação e “acompanhamento” do processo de flexibilização curricular, não encontramos referência que valha a pena sobre a hipotética intervenção dos professores. Lá, dá-se muito mais importância aos alunos, por exemplo. Para além de uma panóplia de comissões maiores e menores que definem, prescrevem,fiscalizam, propõem, avaliam e por aí fora…não se vislumbra onde é que entram os professores. Se, por lapso, não topei com o assunto da pesquisa peço, desde já, desculpa. Uma coisa é certa, esta natureza burocrática e impositiva é familiar do  “esquecimento” em relação aos docentes. E  só pode significar o seguinte: o ME não confia nos professores. Avalia-os negativamente. Existe um preconceito, talvez, de que os professores são “resistentes” à mudança e, portanto, não há que contar com eles. Ou estarei enganado?

   A natureza puramente administrativa, burocrática, razoavelmente autoritária e segregadora dos professores fez-me lembrar as sábias palavras do Sr. Engenheiro Roberto Carneiro que, numa entrevista dada, após  ter deixado o Ministério da Educação do qual foi ministro nos confidenciou sem pedir segredo: “O Ministério da Educação é mastodôntico e ingovernável”. Quem sabe, sabe. Como ainda não passaram senão 25 anos desde esta declaração,  presume-se que tudo continua na mesma. Há duas dezenas de anos, o ME era uma quinta onde proliferavavam os lobbies, os amigosdequemestánopoder,os professores destacados – leia-se os que não queriam dar aulas - os directores, os sub-directores, os assessores, os convidados para emitir pareceres, os mangas de alpaca, enfim tudo o que come do orçamento. Enquanto isso, bombardeavam as escolas, os professores e outros inocentes com decretos, despachos, circulares, esclarecimentos, interpretações, tudo coisas muito úteis à educação!

   Apesar disto tudo, e mercê do honroso trabalho feito pelos actores do sistema de ensino, professores à cabeça, o estado da educação em Portugal já não é o que foi. Muita coisa mudou, ou está a mudar, mas não à custa da acção dos governantes, como se procurou demonstrar no artigo Professores -  contornos da razão. Quando passa mais um aniversário do 25 de Abril, olhamos para trás e vislumbramos uma estrada sinuosa mas calcorreada. No entantanto, há muito caminho pela frente. Este faz-se caminhando. A educação faz parte de uma realidade global onde se cruzam professores, alunos e pais. Da sociedade, espera-se um contributo. Quanto mais rica e instruída, melhores jovens e crianças teremos. Ao invés, melhores alunos, melhor sociedade Uma melhor sociedade e melhores alunos exigem melhores professores e melhor escola. É a dialética das coisas.

   Se o poder político estiver genuinamente interessado em fazer parte da solução para termos melhor escola, avance. Nós não guardamos rancor pela insansatez de certos comportamentos desviantes.

   Em primeiro lugar, há que considerar os professores como o núcleo duro do sistema educativo, protegendo-os do desgaste a que têm sido sujeitos e dar-lhes condições de trabalho e de vida.

   Em segundo lugar, pense-se em promover o ajustamento fundamentado dos currículos e não simplificar ou banalizar o assunto recorrendo, para tal, a um diagnóstico competente da actual situação.

   Em terceiro lugar, há que intensificar a formação contínua depois de se decidir o que se quer fazer com ela.

   Em quarto lugar, renove-se a classe docente tão desgastada e envelhecida. Reformas mais cedo (sendo que, primeiro, tem que haver o reposicionamento nos escalões a que os professores têm direito, permitindo atingir o topo imediatamente antes do acto da aposentação por limite de idade).

   Em quinto lugar, convidem-se os professores aposentados a permanecer nas escolas de origem, desempenhando funções não docentes como, por exemplo, apoio e aconselhamento dos colegas mais novos. Não se atirem os mais velhos para os lares. O prolongamento de actividade induz qualidade de vida e promove longevidade. Não nos importemos com as já esperadas objecções do ministro da Segurança social. O nível civilizacional de uma sociedade mede-se pela forma como trata as crianças, os jovens e os seus "velhos".

   Finalmente, acabe-se já com a carga de trabalhos a que os professores são sujeitos para além do serviço docente. Não às tarefas administrativas, burocráticas e inúteis. Não afoguem os profissionais de ensino em papéis e não os baralhem, não os ponham a andar aos papéis. Não os cansem de propósito para que se tornem acríticos. Deixem os professores em paz, deixem-nos dar aulas.

   A escola pública e o ensino obrigatório tiveram um parto difícil que deixou algumas sequelas. A responsabilidade não é do 25 de Abril. Foi de quem o estragou e do legado de 40 anos de escuridão e do aprendizado turbulento mas generoso do exercício da Liberdade. É preciso que os jovens de hoje e de sempre saibam reconhecer a importância histórica da Revolução dos cravos e aproveitem as lições do “sacrifício” dos seus pais e avós para serem melhores amanhã.

 As novas gerações já dão o exemplo. Os nossos jovens professores e os nossos miúdos podem não ter uma ligação emocional ao 25 de Abril mas têm sabido, por outros caminhos, construír conhecimento , bem estar e liberdade. Os últimos resultados dos testes do PISA da OCDE colocam Portugal no meio da tabela dos vários saberes para a vida num total de 72 países. Só não somos dos melhores devido ao elevado índice de reprovações. Os nossos jovens justificaram em Literacia Científica, Leitura e Matemática o honroso lugar que ocupam. Atrás de nós ficaram países como Itália, Espanha, Luxemburgo, Israel, República Checa e até os Estados Unidos (estes em todos os domínios). Ou seja, não tarda que estejamos em condições de “exportar” educação (passe a brincadeira). Já ajudámos Timor, e bem.

Agora só nos resta continuar a andar e reprovar menos. Há um caminho a fazer nas metodologias de ensino e na avaliação.

 

P.S.

   O sr. Ministro da educação, numa entrevista dada ao Expresso de 21 de Abril de 2018, critica Nuno Crato por este ter feito uma “revolução” curricular, durante o seu reinado, sem ter ouvido a sociedade e as escolas, exactamente por não ter necessidade de o fazer, pois tinha maioria absoluta. Na citada entrevista, o actual ministro vem sugerir que não é igual a Crato e que vai lançar algumas ideias sobre “flexibilização” em discussão pública, se bem entendi, até ao final do mês. Pensa-se que se esteja a referir a este Abril em que estamos. Ou seja, o sr. Ministro dá menos de dez dias para discussão. Devo ter interpretado mal ou a jornalista fez confusão. A coisa é ridícula, se não fosse séria. Das duas, uma. Ou o sr ministro presume que ninguém tem ideias sobre o assunto dos currículos, ou está a contar, em antecipação, com os contributos dos seus conselheiros que têm o material todo prontinho nas gavetas para promover uma "discussão" em tempo recorde.

   Seja como fôr, a coisa não deve ser levada a peito. Trata-se, a julgar pela entrevista, de uma proposta minimalista: mais educação física, mais expressão artística. Pronto. Dez dias são mais que suficientes para dizer ámen ao ministro. A este propósito, não dispenso o recurso a uma anedota que fiz questão de contar em oraviva.blogs.sapo.pt no post O rigor o resto e o nada:  António Sérgio conta nos seus Ensaios o seguinte episódio: um revisor de texto, encarregado de passar a pente fino, os conteúdos de um dicionário destinado a publicação, deteve-se na entrada caranguejo à frente do qual o autor tinha escrito só isto: peixe vermelho que anda às arrecuas. O revisor escreveu à margem: não é peixe, não é vermelho, não anda às arrecuas. O resto está certo. O resto, sr. Ministro, o resto.

 

   Como este artigo já vai longo, declaro não ter mais nada a dizer ao sr. Ministro. Nem hoje, nem até ao fim do mês. A paciência dos leitores e a minha têm limites.

19
Abr18

Fazer e desfazer

publicado por júlio farinha

   Ontem, ao passar em sentido inverso por duas senhoras que conversavam ouvi, involuntariamente, a seguinte declaração que me soou a aforismo: "Se está feito, não há nada a fazer". Pensei com os meus botões e concluí: se se fez e está mal feito, desfaça-se e faça-se diferentemente. Até acertarmos. Não há nada de irremediável.  A não ser a morte, por enquanto.

18
Abr18

Professores - recuperar é possível

publicado por júlio farinha

   Há uma petição à Assembleia da República no blogue DeAr Lindo chamada Iniciativa Legislativa de Cidadãos para Recuperar Todo o Tempo de Serviço. São necessárias 20 mil assinaturas. Por outro lado, os sindicatos estão a marcar uma Manifestação para 19 de Maio.

   Embora aposentado é, para mim, um imperativo categórico subscrever a primeira iniciativa e estar presente na segunda. Declaro, assim e desde já, a minha solidariedade activa.

  Saúdam-se os membros da comissão e os promotores da Petição e dizer que admiro a sua coragem e determinação. Aos sindicatos pede-se um enorme esforço de mobilização para uma grande demonstração reivindicativa dos direitos e da dignidade da classe. A razão vingará. É a ordem natural das coisas.

17
Abr18

Quem sou eu?

publicado por júlio farinha

    A maioria dos leitores não quererá saber disso para nada. Haja Deus. Ninguém me pede para me "retratar". Ainda bem.Mas para poupar tempo a alguns "adivinhos" e tranquilizar, eventualmente, algum leitor mais inquieto, vamos a um pequeno registo autobiográfico. Sou sportinguista não militante , lá fora gosto dos verdes alemães, não fumo, não bebo, separo o lixo (não é uma metáfora) e não sou marciano, descansem. Cá dentro, tenho as minhas simpatias políticas como já se deve ter notado - descubram-nas, se isso vos fizer felizes -  mas o que eu sou é abstencionista nas urnas, por não acreditar na chamada democracia representativa, embora a data mais importante para mim seja o 25 de Abril. Fora isto, digam o que disserem, escrevo o que me dita a consciência e a convicção e não o faço por encomenda. A liberdade não tem preço.

15
Abr18

Professores - o desgaste

publicado por júlio farinha

   Os sucessivos ministérios da educação têm involuntariamente, admita-se, espalhado o desânimo, o cansaço e a doença na classe docente. Segundo o Jornal de Notícias, em Março havia cerca de 6000 professores com baixa à espera de Junta Médica. Isto devia envergonhar o ministro da educação. Esta realidade é representativa da pouca importância atribuída aos professores e às suas condições de trabalho. Para o Estado,  o que vem primeiro são os cifrões, depois talvez se arranje qualquer coisita para as pessoas. É óbvio, para quem seja minimamente conhecedor do trabalho nas nossas escolas, que a profissão docente tem de ser considerada como de desgaste rápido.

   Quanto às Juntas Médicas, a coisa é fácil de caracterizar. Os médicos, nomeados pelos organismos estatais para se "ajuntarem"  para fiscalizar as doenças dos funcionários, estão longe de produzir um trabalho sério e cuidadoso. A memória do caso daquela professora, que sofria comprovadamente de cancro e a quem foi reiteradamente negado o acesso à Reforma, não pára de nos apoquentar. Deixa-nos a matutar na incompetência e na desumanidade de quem devia estar sujeito a um exigente código deontológico. Negligência grosseira em todo o terreno, é o que é. Governantes, metam baixa!

   

 

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