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oraviva

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30
Jun18

O tempo em dois tempos

publicado por júlio farinha

   O tempo tem dois andamentos. Um é lento, promissor, de futuro. O outro é o tempo do destempo, da negação do futuro, de um desfazer do presente.

   O anti-tempo é dominante, hoje, mas não o vai ser para sempre porque é o tempo do despudor, da aldrabice, do poder provisório, da corrupção, do não-ser, do parecer. Fingindo ser de hoje, não o é. Remete para ontem. Esse tempo simulado dos que agora, por (nosso) engano mandam, não se conta, não conta. É tempo perdido. Não faz andar a História. Está morto.

   O tempo do segundo andamento ainda não veio à luz do dia mas já se persente. Adivinha-se a sua aparição pelo movimento da vida e da acção dos actores sociais. Não é rápido no seu percurso, mas o seu despontar promete ser impetuoso, vibrante e conclusivo. Assemelha-se ao tempo que se concretizou, e traz consigo todos os gérmenes da sua contagem que se anuncia difícil mas inevitável. Este tempo conta-se, e conta, porque se traduz em solidariedade e em luta generosa. As voltas que o tempo dá para ser contado são cansativas, mas não são em vão.

  O tempo real de outrora, contemporâneo dos velhos trafulhas que ludibriaram quem o trabalhou, não contará para estes, enquanto que, para os novos de hoje e de sempre que o cumpriram, constituirá uma dívida a que têm, para sempre, direito. Nada será esquecido. Mais cedo ou mais tarde a razão intemporal vencerá.

27
Jun18

Convosco, professores

publicado por júlio farinha

O acórdão do Colégio Arbitral não é equívoco, é ilegal. Não se justifica, pois, nenhum pedido de aclaração. Podem os sindicatos talvez dirigirem os seus esforços para coisas mais úteis.

   Em primeiro lugar, o acórdão é ilegal porque estabelece o quórum de 50% +1 para as reuniões se realizarem. A lei prevê 100%.

   Em segudo lugar, é ilegal porque prescreve , sem estar para isso autorizado em lei, a prática da recolha pelo director das avaliações dos presumíveis grevistas das suas avaliações. Esta recolha só é legalmente permitida em caso de doença prolongada do professor ou por qualquer motivo de longa duração (o que não se aplica às actuais greves).  

  Ainda em relação ao acórdão destaque-se, pela negativa, a posição do representante dos sindicatos. Também votou a favor, ou seja, contra os professores. Surpreendente, ou talvez não. Diz-se que a filiação partidária do tal “equivocado” representante é a mesma que a do dirigente de uma federação.A ser assim, tirem-se as conclusões autorizadas.

   A ideia que fica disto tudo é que os próprios sindicatos começam a ficar incomodados com as greves. Vá-se lá perceber porquê.

   Se houvesse sindicatos a sério, dir-se-ia que o caminho seria continuar as greves – incluindo as do 9º, 11º e 12º anos. Neste caso era seguir a lei que não autoriza a entrega de quaisquer notas aos directores. As reuniões só deviam ser feitas com 100% de quórum, tendo cada um dos professores as suas notas na mão. Isto é o que manda a lei e não é assunto para inopinanços de colégios arbitrais.

   Reconhece-se que a desobediência civil é assunto provavelmente a invocar pelo governo em caso de não realização das reuniões de 9º, 11º e 12º anos. É uma hipótese que pode atemorizar e não será consensual. É assunto para ser ponderado.

   Se não houver outro remédio, e aqui será uma derrota dos sindicatos e da sua mansa perspectiva, acho que se devem fazer, enquanto possível, as greves aos restantes anos de escolaridade. Os fundos de greve são importantes mas não menos importante é que os directores marquem serviço docente para os dias de greve para que não se desconte um dia a quem falte apenas a dois tempos.

   Para que haja diversificação das formas de luta, julgo que se impõe uma grande manifestação na primeira metade de Julho.

   De todo este processo, acho que os professores foram a única entidade que se tem saído com honra, não porque lhe tenha sido emprestada, mas porque é um produto do seu esforço. Tal como sugeria Aristoteles: a dignidade não é de quem formalmente a possui , mas de quem a merece – por feitos e virtudes.

   Confesso que sinto orgulho na classe a que pertenci (e pertenço). Nesta circunstância, em que sinto alguma tristeza, ocorre-me fazer uma citação de leituras que fiz na minha juventude. A propósito da diferença entre vós e alguns dirigentes políticos e sindicais que julgam mandar alguma coisa nos professores:

 

   “Acontece por vezes que as águias voam à altura das galinhas, mas as galinhas nunca voarão à altura das águias”. 

                                                         (Provérbio russo)

23
Jun18

Conversa fiada

publicado por júlio farinha

   Amigo do Costa: Oh pá, devolve lá os 9 anos, 4 meses e 2 dias aos professores.

   Costa: Já viste quanto é que isso custa? 

   Amigo:   Quanto?

   Costa:   Eu não sei bem porque os meus contabilistas aumentam sempre um bocado  a coisa para impressionar. Mas é pra aí uns 600 milhões.

   Amigo:  Olha que o David Justino, que até nem era muito chegado aos professores quando esteve no governo, fala em 400 milhões.

   Costa:   Mesmo que seja isso. Continua a ser muita massa. O Centeno não deixa

   Amigo:   Mas o primeiro- ministro não és tu?

   Costa:    Eu, às vezes, já não sei o que é que sou. É que o gajo é que é o presidente do Eurogrupo. E esses mandam muito. Os gajos chateiam-nos com o défice e o Centeno quer ficar bem visto, percebes?

   Amigo:  O défice? Quando já se enterraram quase 20 mil milhões no sistema financeiro, vocês estiveram-se marimbando para o défice. Oh Costa!

   Costa:  Mas nós temos que proteger o sistema financeiro.

   Amigo:  Ai é? E não se pode proteger a classe docente?

   Costa: Nós precisamos mais do sistema financeiro do que dos professores, estes não nos dão pilim. Vê lá o nosso ex-ministro do nosso ex-primeiro- ministro, que arrecadou umas massas do dono-disto-tudo. Os professores são uns tesos. Aliás, os banqueiros distribuem o dinheiro que a gente vai buscar aos impostos para eles darem aos amigos, entre os quais estão muitos camaradas nossos. Vê lá o benemérito do BES ,que enchia os bolsos a quem lhe ia comer à mão a troco duns serviços por encomenda.

   Amigo:   Tá bem. Mas não arranjas aí uma solução para os professores? Porque é que não lhes segues o exemplo? Nas greves às avaliações, que estão a ter uma adesão que nunca esperarias nem desejavas, eles quotizam-se para pagar aos colegas mais sacrificados com os descontos que a luta acarreta.

   CostaEstás a sugerir que eu ponha dinheiro do meu bolso para pagar os tais malvados 9 anos, 4 meses e 2 dias que nunca deviam ter nascido? Eu, pagar para áqueles que de costume ponho a trabalhar para me pagarem a mim? Eh pá, estás a ver o filme ao contrário. O meu dinheirinho custou-me muito a ganhar. Foram muitas horas a preparar argumentário para enganar os pagantes e convencê-los a votar sempre em mim, haja o que houver.

   Amigo (farto da conversa fiada):  Bem, suponho que não deves ter os 400 milhões trocados e o dono-disto-tudo já não está operacional. Mas vai aos membros do governo, aos teus deputados, aos teus políticos com reformas vitalícias, aos teus presidentes de Câmara, aos teus assessores e aos milhares dos teus boys dirigentes e dirigidos no aparelho e Estado que chupam o orçamento. Sê criativo. Aprova uma nota informativa do tipo daquela que uma tal DGEste mandou aos directores das escolas e obriga esse maralhal todo a pôr uma quantia no saco rosa destinada a pagar os custos da reposição na carreira dos professores. Assim, por alto, quaisqueres 10% do ganho que cada sujeito das categorias enunciadas ganha num mês será suficiente. 

   Costa (hesitante):  E posso pagar em prestações? Por exemplo, até 2050?

   Amigo:  Convinha que fosse antes da maioria dos beneficiários morrer. Se fosse eu a ti, pagava a pronto para calares a boca aos 120000. Não te esqueças que pró ano tens eleições, se não for antes, e se não deres a volta à tendência das sondagens, arriscas-te a ver a maioria absoluta por um canudo.

   Costa (falando sozinho):   Estou confuso. Eu já disse tantas vezes que não há dinheiro... isto tudo é muito humilhante! Se eu soubesse que ser primeiro-ministro era tão difícil… Uma noite destas tive um pesadelo com suores frios - acordei aos berros sonhando que uma dúzia de professores me estava a pôr umas orelhas de burro.

    

19
Jun18

Amor e Educação

publicado por júlio farinha

   Em educação, o amor é estruturante. A criança ou o jovem sentem o amor, ou a sua falta, em redor. Os pais cuidam de criar um ambiente familiar compreensivo onde pontua o cultivo do amor e da amizade. A relação familiar não pode ser senão, a bem de uma educação de qualidade, o substracto da criação de plataforma amiga, tolerante, estimulante e indutora dos factores próprios para o desenvolvimento psíquico e físico equilibrado dos filhos em crescimento. O futuro emocional e afectivo dos filhos dá-se muito no contexto da relação parental que condiciona a possibilidade da sua felicidade e realização futuras.

   Ninguém é obrigado a viver numa inevitável desunião de facto, nem numa vida de mentira ou indiferença, ou em carência ou ausência de amor e amizade, mas a interrogação sobre se é legítimo o estilhaçar de casamentos ou uniões por dá- cá-aquela-palha, pondo interesses pessoais, egoístas, acima do interesse dos filhos, é pertinente.

   Se os pais soubessem a tempo quanto sofrimento muitas vezes causam aos filhos com separações e divórcios pouco fundamentados. Se soubessem o que significa não ter um lar único e passar só o fim-de-semana com um dos pais, talvez pensassem duas vezes antes de dar o passo, por vezes leviano, de escangalhar a casa natural do desenvolvimento de um ser humano frágil e ávido de segurança, amor e carinho. Filho de pais separados é um nómada que anda com a trouxa às costas entre o refúgio da mãe e a toca do pai. Além disso, os pais, não obstante estarem separados continuam, muitas vezes, a poluir com ódios os ambientes de crescimento das crianças e jovens, produzindo uma má ou conflituosa comunicação que chega a envolver os próprios filhos.

   A vida actual não favorece a tolerância, o diálogo, o entendimento, o amor entre pais e mães. Não há tempo útil para as relações. Não há tempo para os filhos. Sinais dos tempos do individualismo, do sucesso a todo o custo, do hedonismo.

   Os filhos merecem que se lute por eles e para eles. Isso exige esforço, sobretudo quando as escolhas de parceiro não foram as melhores. Mas amar também se aprende. O cérebro, dizem as neurociências, é quem mais ordena, mesmo na questão das emoções e sentimentos. O coração passou a ser uma metáfora.

   No tempo dos meus pais, estes davam ordem à vida para criar os filhos e que eram, geralmente, muitos. Não existiam os problemas demográficos causados com a baixíssima natalidade que grassa presentemente. Hoje, as pessoas têm um filho, no máximo dois. E não é só por falta de meios ou apoios. Ao contrário dos pais de meados do século XX, que se sacrificavam pelos filhos, sem apoios nenhuns, hoje poucos adultos prescindem da sua carreira, da sua liberdade (os filhos são uma “prisão”), dos seus interesses individuais. A concepção tradicional da família, na qual os pais viviam juntos, os avós estavam presentes e os filhos contribuíam para o rendimento familiar, está completamente ausente. Tenho que confessar que sou adepto da família antiga e, na minha opinião, há que recuperar o conceito. Nem que isso requeira alteração social.

   Resolvidos provisoriamente os problemas dos pais, pois nisso estamos conversados, viremo-nos para aquilo que é urgente fazer-se em educação por parte dos progenitores. Sim, porque a educação faz-se preferencial e naturalmente em casa, a dois, e em sociedade. Mais do que na escola. Nesta, ensina-se. O que já não é pouco.

   A grande prescrição para uma boa educação está no amor. Além do mais, os filhos, mercê do amor e admiração que têm pelos seus bons pais, têm-nos como exemplos. Não devem, pois, os pais desbaratar essa vantagem e procurar, em tudo na vida, ser pessoas apaixonadas, rectas, rigorosas, leais e trabalhadoras – autênticos modelos para os seus filhos.

   Amar os filhos não é dizer-lhes sempre sim. Eles perceberão que uma atitude correctiva em educação significa, ainda, gostar deles. Dizer sim quando fazem bem, dizer não quando fazem mal. Também com os erros se aprende e com eles se cresce. Amar os filhos é dar atenção, ouvir. Amar é cuidar, ensinar a usar ferramentas para a vida. Neste particular, disciplina e organização é fundamental.

   Um ser humano em crescimento alimenta-se do líquido em que mergulha. Já era assim no ventre materno. Assim, o ambiente familiar é um indutor de atitudes e valores. Das atitudes, destaco a promoção da responsabilidade individual e social, a disciplina, o rigor, o espírito crítico, a competência, a criatividade e a autonomia. Dos valores, destaco a liberdade, o amor e o respeito por si próprio e pelo outro, o respeito pela vida e pelo planeta, a tolerância, a solidariedade e a justiça – valores convenientemente informados pelo conhecimento, pela razão, pela paixão, pela inteligência, enfim.

   A minha geração criou e viveu um dos mais belos hinos ao amor e à rejeição da guerra, mas também foi uma das que mais se divorciou ou separou, não acautelando devidamente o futuro dos seus filhos. Os jovens que sentiram os ventos utópicos do Maio de 68 ou que viveram intensamente o 25 de Abril não tiveram tempo, estiveram indisponíveis para os seus filhos e para a restante família. Deixaram uma memória da entrega ao social e ao político.

Dos filhos colheram, os pais, o generoso perdão e compreensão pela omissão e ausência em período de infância. Passados os truculentos e voluntários gestos de intervenção social, houve uma reaproximação tardia dos pais aos seus filhos e uma recuperação dos gestos do amor que, nos anos anteriores, não tinham tido tempo para se afirmar. Talvez nunca seja tarde para amar e para crescer.

   Os filhos da geração de 60, ao contrário do legado dos pais, conservam as suas relações e têm mais tempo útil para os netos destes. A transmissão e a aquisição da cultura tornaram-se mais eficientes. Ainda bem.

   Dos da geração de 60, espera-se, justificadamente, que sejam muito mais avós do que pais foram. Agora que têm tempo e amor acumulado.

 

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