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oraviva

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28
Set18

Ficar passando, passar ficando

publicado por júlio farinha

   Quando avançamos na idade, mais as memórias sublimadas da juventude se avivam. Nos momentos mais críticos da nossa presente existência, mas também nos mais felizes, revisitamos, por vezes já com pouca mas clarificante luz, o que de melhor nos aconteceu noutros tempos.

   Não se trata de visão saudosista, mas sim da recuperação difusa de um substracto que nos é identitário, um património que com outros conseguimos edificar, que em nós permanece fazendo-nos pessoas melhores.

   Quando assim nos deparamos connosco deste modo feitos, não sentimos verdadeiramente saudades mas a percepção que somos únicos porque únicas foram as nossas experiências e paixões. Nós somos uma construção que dependeu de nós mas sobretudo das pessoas que nos acompanharam no crescimento, na vida.

   Temos a consciência que fomos actores que interagiram e assim experimentámos o que pode ser a felicidade. Nós somo devedores. E temos essa singular obrigação de nos devolver, no nosso melhor assim feito, aos outros. Aos nossos filhos, sobretudo, e àqueles que não têm sido felizes ou não tiveram a nossa sorte.

   A reflexão individual persiste, e o caminho a subir é o mais valioso. Continuaremos a pensar e a revisitar o passado sempre que o futuro dele precisar. Porque há , não nego, um passado presente que me acompanha e que cultivo, sempre. Pois eu me resumo ao que fica passando e ao que passa ficando.

 

08
Set18

O absurdo desgoverno do ministério da educação

publicado por júlio farinha

   Com o fim do descanso estival que o ME e os sindicatos presentearam os professores, estes acabam por receber a notícia esperada. Não há descongelamento de todo o tempo de serviço confiscado.

   Do chamado braço de ferro havido entre o governo e os professores, o que é que restou? Uma exigência desmedida e absurda, nomeadamente através da imposição dos mais recentes trabalhos forçados  com os quais o incompetente e totalitário ME faz pagar a ousadia da dura e persistente luta dos professores.

   O burocrático e centralizado ministério da má educação, revanchista, acaba de impor brutalmente aos desamparados professores um antiprograma caótico a que chama flexibilização curricular que está a lançar a maior confusão nas escolas.

   Paralelamente, num outro desumano ataque, metade dos professores com baixa – que a ordem dos médicos diz ser justificada – são mandados, como de malfeitores se tratasse, de volta ao serviço. Esta medida é triunfalmente anunciada associando-a aos efeitos pecuniários.  A coisa permite o encaixe de uns milhões de euros que irão direitinhos para os sítios do costume:  fazer boa figura em Bruxelas, exibindo um défice de rico, e para ""ajudar" a manter os jobs dos amigalhaços do partido que mais corruptos tem produzido e protegido desde que somos democracia.

   Em suma, o partido do governo que o bom povo está, desgraçadamente, a apoiar, tornou-se vingativo, arrogante e prepotente. Os professores estão a ser espezinhados nos seus direitos e dignidade e há muitos que afirmam não poder suportar tal estado de coisas. É como se do ME nos chegasse um tal mau hálito que envenena o espírito civilizado da classe docente. O ensino, a educação e a cultura estão a ser envenenados na pessoa dos seus mais dignos actores.

   Quem escreve estas linhas orgulha-se de ter sido combatente pela liberdade e pelo socialismo no que estas causas  têm de genuíno. Mas não tenho pejo em afirmar que nem no tempo da Salazar e Caetano a educação foi tão mal tratada. Então, os professores eram respeitados e tinham estatuto, apesar de ser grande o analfabetismo.

   O 25 de Abril instaurou um ensino obrigatório para todos. Com esta medida, abriu-se a porta para um outro nível mais elevado de dignificação da docência. Contra ventos e marés, Portugal é, hoje, um país alfabetizado, com um bom índice de qualidade educativa e que se pode orgulhar de possuir um grande número de licenciados, mestres, doutorados e quadros reconhecidos, cá e lá fora, pela sua competência e valor. Este conjunto de académicos e técnicos são, em grande parte, fruto da acção dos nossos professores dos ensinos básico e secundário, desde o 1º ao 12º anos.

   Em nome desta realidade, e por respeito pelas convicções e promessas dos próprios, deixa-se aqui um repto aos grupos parlamentares e às direcções do PCP, BE e Verdes: não viabilizem o novo orçamento se não houver, por parte do governo, a garantia inequívoca de que respeita e cumpre o compromisso de contar todo o tempo de serviço congelado aos professores para progressão na carreira. Como está no vosso ideário, nunca se vende a alma ao diabo. Sabemos que não são daqueles que, na ausência de princípios, a vendem por um prato de lentilhas.

  

  

01
Set18

Afinal, era só fumaça!

publicado por júlio farinha

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    Na parede de uma casa de uma ruela de Ayamonte, figura este painel que nos dá conta de dois feitos do navegador Rodrigo de Xerez. O primeiro,foi o de ter acompanhado Cristóvão Colombo na sua primeira viagem à América. O segundo, foi o de ter sido incubido por Colombo para se aventurar no interior da ilha de Cuba, para dali obter notícias e conhecimento.

   Uma vez na ilha, observou o bizarro hábito dos indígenas daquelas paragens, que se entregavam ao consumo de uma "certa erva seca, chamada tabaco" . Esta, ao ser queimada, exalava um apelativo aroma a incenso. Segundo este naco de história transcrito do livro "História de las Indias"  de Bartolomé de las Casas que sustenta o texto que tem sido citado, os nativos inspiravam o fumo até ficarem quase bêbados.

   Conta a redacção nos azulejos de Ayamonte que foi Rodrigo de Xerez o introdutor do hábito de fumar em Espanha e no resto da Europa.

   Rodrigo terá provavelmente acreditado que trazia de além mar novidades que seriam um sucesso no velho continente. Assim,não terá escondido uma certa vaidade e nunca esperaria ser tão mal compreendido ao apresentar-se fumando quando chegou a terra. Na verdade, causou escândalo ao povo e não deixou de ser alvo da observação atenta e correctiva da Inquisição. Estas duas instituições, tão críticas face à diferença e amantes dos costumes sagrados, não gostaram nada de ver o nosso Rodrigo chegar, cigarro nos beiços, deitando fumo pela boca e pelo nariz.

   Deitar fumo pelo nariz, engoli-lo, expeli-lo pela boca. Tudo isto só podia ser obra do demónio. E quem comportamentos destes tinha, só podia estar possuído por Lúcifer. Como é dos livros, que já não há vivos para o contar, quem tinha, ao tempo, afinidades com tanto mal, como aparentava Rodrigo, só tinha um destino: ir parar aos calabouços da Inquisição.. E foi isso que aconteceu ao nosso bravo marinheiro, que não lhe valeu ter ido até terras americanas, nem ter sido o percursor da difusão de um dos maiores negócios do mundo civilizado - o das tabaqueiras.

   A historia do painel é omissa sobre o que se passou a seguir com Rodrigo, mas numa breve investigação apurei que esteve preso durante sete anos. Saíu, pois, em liberdade, por volta do ano 1500. Pesume-se que os inquisidores se terão rendido à rápida difusão do hábito de fumar e terão concluído - longe de se aperceberem do mal que causa o tabaco - que, afinal, era só fumaça! 

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