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oraviva

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27
Out18

O sentido disto tudo

publicado por júlio farinha

Toda a vida tem um sentido? Em caso afirmativo, será este duradouro e imutável?

 

   Há momentos no viver que são tão contraditórios, imprevisíveis, indefiníveis. Diz-se que Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. Ou seja, não podemos contar com constantes. Na vida trabalha-se, sempre, com variáveis.

 

   Em consequência, exige-se que a nossa mente sela elástica e se comporte bem na diversidade, contrariedade e imprevisibilidade da vida. A vida é o que fazemos dela, mas esse fazer não é arbitrário, depende da história, das circunstâncias, do passado e de todos os constrangimentos possíveis. Fazemos da vida o que podemos, não necessariamente aquilo que queremos.

 

   É neste compromisso entre o desejo e a possibilidade que se vislumbra o complexo sentido da vida. Em última análise, é na luta contra a morte que nos afirmamos como viventes projectados no presente e no futuro. Quando a vida não faz temporária ou definitivamente sentido, estamos na esfera da morte. É esta vitalidade, assim expressa, que justifica uma asserção tão óbvia: o sentido da vida encontra-se no próprio viver.

 

   Quando por um impulso natural vital queremos estar vivos, agindo, pensando e amando, escolhemos com intenção estar do lado de Eros contra Tanatos.

 

   Viva então a vida desejada. Viva o amor consentido.

20
Out18

Mundo insondável

publicado por júlio farinha

 Não sou médico, técnico ou investigador em doenças como a Síndrôme de Asperger (espectro do autismo), Perturbação Obsessivo Compulsiva, depressão e outros distúrbios mentais incapacitantes.

  Para escrever estas linhas deitei mão da experiência que tenho tido com um jovem muito  próximo por quem nutro grande respeito, estima e admiração. Quando ele era pequenino, o pai deu-lhe o nome de Chão. É assim que aqui o tratarei.

   O Chão tem vinte e quatro anos, mas desde os onze meses de idade aprendeu o que é sofrer. Com essa idade foi operado ao coração a uma Tetralogia de Fallot – uma das mais graves anomalias cardíacas congénitas. A cirurgia não podia ser adiada, tal a gravidade do seu estado clínico.

   Na infância superior e na adolescência começou a revelar dificuldades de socialização. Foi perdendo os poucos amigos que fez no primeiro ciclo e, foi-se isolando dos grupos e evitando contactos sociais. Não fazia novos amigos.

   Na escola detinha-se, em aula, a fazer desenhos e rabiscos enquanto os professores se ocupavam da turma. Os professores, a braços com muitos alunos por grupo, "esqueciam-se" amiúde do Chão e muitos nunca reparariam que ali estava um aluno que não era como os outros. Apesar disso, durante toda a escolaridade, nunca os pais foram chamados por eventual mau comportamento do Chão. O Chão não só não era um problema para a escola como sempre se revelou um bom aluno. O Chão - vir-se-ia a apurar aos seus  dezasseis anos em testes psicológicos credíveis - tinha uma inteligência acima da média.

   Neste processo, nem toda a gente esteve desatenta. A professora do primeiro ano do primeiro ciclo alertou os pais para o facto dos comportamentos do aluno em contexto de turma serem um pouco "bizarros". Não obstante a sucessiva chamada de atenção dos pais para os sucessivos directores de turma sobre o problema, nada foi feito de substancial pelas escolas por onde sucessivamente o Chão ia passando. O Chão entrou em acompanhamento médico especializado a  partir dos dezasseis anos, mas o seu estado de saúde tem altos e baixos. Está diagnosticado com Síndrôme de Asperger e POC.

   Como muitos jovens da sua idade, o Chão não tinha, quando terminou o Ensino Secundário, uma ideia sobre o curso a seguir no superior. Como vinha de Humanidades e gostava de línguas, foi-lhe sugerido pelo pai que escolhesse Tradução, curso para o qual contava com 15,5 de média de ingresso. Foi colocado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, há seis anos. A sua condição de saúde só lhe permitiu, por enquanto, chegar ao meio da Licenciatura- que frequenta a tempo parcial.  A sua média actual das notas das cadeiras onde obteve aproveitamento é 14 valores.

   Uma das razões que leva o Chão a não frequentar mais regularmente a Faculdade está, para além das depressões recorrentes e às manifestações da POC, a um certo pavor pelas multidões, pelas enchentes nos comboios suburbanos de Lisboa e sobretudo a fuga ao contacto social e às interacções com colegas e professores. O Chão tornou-se um solitário. Penso (conjecturo) que ele tem a percepção que não é igual aos outros e sofre por causa disso. Ele acredita que os outros não o compreendem por causa dos mundos serem diferentes e as maneiras de comunicar a diferença  serem irredutíveis. O Chão não só sabe que é diferente como sabe que os outros o acham diferente. Por exemplo, não é raro que, por inabilidade social, o Chão tenha para com outrem um comportamento inadequado e estranho. Ele não faz por mal, mas a reacção de espanto ou desagrado do outro torna-se, no contexto, penalizante.

 O Chão deve ter, julgo, a percepção de que a vida dos outros inclui coisas que lhe não dizem respeito e por isso não se interessa por elas ou delas abdica. Sempre me interroguei pelo facto do  Chão não mostrar grandes afectos pelos humanos mas ser tão carinhoso e cuidadoso com os animais.

   O jovem de que falamos não é um alienado. Ele interpreta a realidade com muita acuidade e relaciona correctamente a muita informação que possui. Nas grandes conversas que temos, quando ele a isso está disposto, eu costumo sintetizar dizendo que ele tem um contencioso com a humanidade. O Problema dele é com pessoas, arrisco. Ele tem um nicho de interesses muito forte. Só que há muito que desistiu de levar os outros a comungarem desses mesmos interesses.

   O nosso jovem é um leitor compulsivo. Acabou de reler os dois volumes de D. Quixote e está a terminar a Origem das Espécies. Interessa-se por cinema, do qual é grande conhecedor. Gosta de música. Passa muito tempo na internet onde bebe e seleciona informação em abundância. Gosta de videojogos.

   O Chão tem limitações na recepção e envio da mensagem. Denota alguma imprecisão fonética, com um tom de voz monocórdico, e por vezes tem dificuldades reiteradas a nível da semântica. Por exemplo, nem sempre distingue o que é uma graça, uma ironia, uma metáfora. Para ele, todo o discurso é para entender literalmente. 

  O maior desejo dos pais era poderem penetrar na sua mente para o visitarem tal e qual ele é, para o compreenderem. Mas a isso não estão autorizados. Quando se lhe diz querer ajudá-lo, ele pressente e julga que não há, por enquanto, ajuda possível. O Chão sabe que o seu mundo não é transmissível. Apesar de o querer, ele não é capaz de nos comunicar o seu mundo. Está aqui o seu e o nosso drama.

   Quando se lhe fala dos médicos e na ciência em geral, ele descrê e afirma lucidamente que se conhece muito pouco acerca do funcionamento do nosso cérebro. Ao fim de tantos anos a tomar medicamentos, a experimentar, o jovem promissor que sonha ser tradutor tem, não se sabe como, de aprender a traduzir-se  numa linguagem comum a ser inventada.

   Entretanto, a cronicidade da sua doença vai ainda precisar de uma espécie de cuidados paliativos. A sensação de desalento invade regularmente os que o acompanham e dele gostam muito, mas a cada dia que o Chão nos aparece com um brilho calmo nos olhos, nós voltamos a acreditar e sentimos saudades imensas do Chão que, no passado, ainda sorria e nos surpreendia com um ou outro comentário irónico. Haverá um dia em que entenderemos o que agora desconhecemos. Os nossos mundos continuarão a ser diferentes, mas seremos uma unidade nessa diferença cimentada pelo amor e pela razão. Terás, então, Chão,traduzido a obra definitiva O Cérebro.

  

 

13
Out18

O dinheiro é o ópio do rico

publicado por júlio farinha

   Karl Marx, que a troco de uma intensa vida de trabalho intelectual, praticamente gratuito, não nadava em riqueza, disse um dia: " Nunca ninguém escreveu tanto sobre o dinheiro tendo tanta falta dele".  Sua mãe, que não partilhava a  paixão  pelos ideais do filho, desabafou em jeito de azeda e cínica resposta: "Em vez de escrever O Capital, mais valia que o produzisse."

 

   Shakespeare, por sua vez, designaria  o  dinheiro por "vil metal". Esta é uma das expressões mais felizes e certeiras para atribuir ao citado condimento do capitalismo. A vilania está na redução das necessidades humanas ao poder de um fetiche, de uma entidade perversa de cariz sobrenatural, mágica e trágica.

 

   Tanto os pobres como os ricos são escravos desse fantasma. Para os despossuídos, ele é o senhor absoluto. Significa escravidão. Submissão. O vil metal é o feiticeiro da discórdia e da infelicidade no lar do pobre. Casa onde onde não há pão , todos ralham e ninguém tem tazão.

 

   Para os possuidores, o dinheiro representa uma prisão construída à custa dos pobres. O rico é vítima da desonra da exploração a que sujeita os que nada ou pouco têm, coisificando aquilo que devia ser enobrecido: o trabalho  Ele está preso à condição de quem depende dos bens que o dinheiro compra. O dinheiro é o ópio do rico. A bancarrota de um rico é a sua perdição, a sua própria morte. Pois, ele é o dinheiro e os bens que possui. E o dinheiro não tem alma. 

 

    O vil metal é necessário? A resposta é não. Podíamos viver sem ele? Sim. Historicamente, o nosso antepassado sobreviveu e era feliz enquanto colector, caçador, pastor e agricultor. Colhia da natureza o que lhe fazia falta e trocava excedentes e produtos entre si.

 

   É isto uma visão simplista, romântica e idealista? Provavelmente. Mas não faz mal irmos às origens – lá onde se vivia em simbiose com a natureza e havia respeito pelos próprios animais que se caçavam. Havia então,empiricamente,a noção que hoje não temos de que o planeta é frágil e exige cuidados nossos.

 

   A ciência multidisciplinar que hoje existe dá como provável o colapso, porque insustentável a prazo, dos sistemas sociais, políticos e económicos que temos. A história conhece períodos de revisitação e actualização do passado, como foi o caso do Renascimento  -  tão fértil em cultura, ciência e humanidade.

 

   Preparemos os vindouros na revisitação da felicidade perdida e na antecipação do futuro refeito. Para além deste tempo, outros tempos derivados virão.  Novos, feitos hoje a partir dos velhos. É que toda a antiga e madura sociedade, ao caír sob o desenlace dascontradições em que se envolveu, dá necessariamente origem a uma sociedade de nível superior. É uma questão de tempo e da acção dos homens. Como tão bem disse Ortega & Gasset: eu sou eu e as minhas circunstâncias. (*)

 

(*) Esta citação foi-me recordada pelo blogue de P.P. no seu perfil. Obrigado.

 

06
Out18

Triângulo obtusângulo: Costa , Centeno, Brandão

publicado por júlio farinha

   O que preocupa os professores e bloqueia a tão urgente qualidade e bem-estar na educação? 

 

   É o desgaste, o cansaço e a doença. É a injustiça na recuperação do seu tempo de serviço, a burocracia incomensurável, o excessivo número de alunos por turma e a consequente ausência de qualquer trabalho individualizado. A enorme extensão da carreira, – que a maior parte dos docentes nunca irá cumprir na íntegra -,os currículos e os programas mastodônticos e ingovernáveis, a incompetência técnica, teórica e prática do ME ,  a irresolúvel miopia política deste governo e a sua falta de seriedade ética.

 

   O peso dos malefícios que se abatem sobre os professores e a escola denota, por parte dos responsáveis, uma fraca ou mesmo inexistente moral e afecta e compromete a educação, que está em declínio, prejudicando também os alunos e o progresso social e económico. O futuro, a seguir-se este caminho, não é risonho. O futuro político e da democracia em Portugal podem estar em perigo.

 

   O mal-estar na educação e a irresponsabilidade deste governo e dos  anteriores tem igualmente produzido uma impreparação cultural, cívica, cognitiva e comportamental dos alunos, por vias da deficiente educação familiar e social a que os jovens têm sido sujeitos, o que tem implicações na disciplina nas aulas, nos estudos e aquisições escolares, colocando sérias e crescentes dificuldades aos professores. 

 

   Por tudo isto, os professores têm perdido sucessivamente autoridade e autoestima e estão cada vez mais sozinhos na tarefa de ensinar. A sua prolongada e intensa preocupação vai de mão dada com as compreensíveis e por vezes firmes exigências de dignidade, justiça, direitos e recompensa. Sem isto, os professores são, e serão sempre, uma classe com instrução e valores, mas pobre. Tão pobre e incompleta como a sociedade e o regime que os despromovem. 

 

Nota:   Num triângulo obtusângulo qualquer não há nenhum ângulo recto

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