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oraviva

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27
Dez18

O desenrascado Homo Habilis

publicado por júlio farinha

 

O homem típico português tem uma qualidade inegável: é desenrascado. É aquele que perante situações problemáticas encontra sempre uma solução. É habilidoso e detentor de saberes e aptidões diversas, mais de ordem prática que teóricas, é certo.

   Não é invulgar encontrarem-se profissionais que percebem de muitos assuntos e fazem de tudo um pouco: eles consertam máquinas de lavar, substituem torneiras, desmontam autoclismos, instalam interruptores e lâmpadas, reparam aparelhos vários, mudam o óleo de um carro, substituem pneus, entram na construção civil e levantam pilares e paredes, instalam janelas e portas, constroem roupeiros e estantes, pintam, envernizam móveis e por aí fora.

   O homem português é desenrascado e aprende depressa, mesmo tendo pouca  instrução. Na década de 60,houve uma avalanche de emigração para França. Lá chegados, aos portugueses, era-lhes perguntado o que faziam em Portugal – quando se candidatavam a um emprego. Eles eram sobretudos oriundos do campo e conheciam bem todas as lides campesinas, mas com havia muita procura de mão-de-obra na construção civil, afirmavam que trabalhavam nas obras. Eram contratados como pedreiros e ao fim de poucos meses tornavam-se experts na arte, sendo por isso muito gabados pelos patrões.

   Os nossos emigrantes não falavam uma palavra da língua francesa, mas as mãos também falam e faziam-se entender. Os mais integrados passariam, a breve prazo, a arranhar o francês, a entendê-lo e a falá-lo. Muitos eram analfabetos em Portugal.

   O homem típico português é um digno descendente do Homo Habilis, espécie que derivou do australopithecus, e é assim chamado por ser o primeiro hominídeo a revelar habilidade de manipular utensílios, tendo vivido entre 2,2 milhões a 780 mil anos atrás - supõe-se, pelo achado de fósseis na Tanzânia em 1964.

   O Homo Habilis tinha o cérebro e os membros superiores maiores do que os dos seus antecessores e foi a primeira espécie a construir e a usar ferramentas de pedra lascada, o que lhe permitia alimentar-se de carne –com os consequentes benefícios proteicos. Tendo um cérebro maior, incrementaram a actividade intelectual. Data desta altura a vida em comunidades acompanhada do nascimento de uma linguagem primitiva.

   Já se deve ter percebido que não sou a favor de um ensino especializado tipo anglo-saxónico. A meu ver, este limita a criatividade e o desenvolvimento integral do homem. Mata a criatividade e não aguça a imaginação. Sou a favor de um ensino generalista de alto nível. Integrado.

   A evolução está no cérebro e na mão. E na liberdade de acção. Esta concepção não é nova. Inspirados na herança intelectual dos gregos, os Humanistas do período renascentista –como Leonardo da Vinci – diziam: Nada do que é humano me é estranho.

  

21
Dez18

Força e talento em Música no Coração

publicado por júlio farinha

Neste natal, a 24 de Dezembro, o filme Música no Coração (Sound of music), vai ser visto pela 11ª vez na televisão portuguesa (canal 1).

   O filme, em adaptação, é interpretado Por Julie Andrews (Maria) e Cristopher Plummer (capitão von Trapp) e a versão actualizada data de 1965.

   A sua passagem televisionada, na versão de R.Wise, justifica-se pelo seu drama, musicalidade, romance e comédia. É um clássico do cinema e colectou cinco óscares em 1966, incluindo o de melhor filme do ano.

   Maria (Julie Andrews) é uma candidata a noviça num convento de Salzburgo (Áustria) mas acaba por ser "cooptada" pelo viúvo, von Trapp. ex-capitão da Marinha (Cristopher Plummer) para cuidar e educar os seus sete filhos. De perceptora das crianças a esposa do ex-capitão, os dois acabam por constituír um par não homogéneo mas complementar no modo de ser. O filme narra as aventuras do casal von Trapp e sobressai a autoridade do amor face à força da autoridade. O tratamento de suprema alegria, paciência, bondade, dedicação e amor às crianças e a seu pai tornam Maria uma referência educativa de elevado valor.

   A educação de Maria e a forma como  encheu os corações das crianças foi rebelde em relação à instrução de von Trapp, educado  e reflector nas atitudes militaristas. Na contradição comportamental entre os dois, o amor venceu a frieza e as regras inflexíveis.

   Foi a circunstância da vitória da nobreza da alma que levou von Trapp a reagir ao "apelo" e não aceitar a "proposta" de assimilação do ainda mais rigoroso e ultrajante militarismo  das hostes invasoras hitlerianas. Recusando a integração na Marinha nazi, o casal quis saír do país, mas as fronteiras fecharam-se-lhe. Em fuga, a pé, pelas montanhas, a família von Trapp subiu e desceu montanhas na companhia das belas músicas e soberbas paisagens. O amor venceu, e a Razão também.

 

Fontes: 1.Joana Amaral Cardoso, Televisão, in Público, "0/12/2018

  1.      https://pt.Wikipedia.org/wiki/The sound of music
14
Dez18

O Algarve, os algarvios e o resto

publicado por júlio farinha

   Não se pode falar do Algarve sem se falar nos algarvios. As paisagens humanas e as próprias infraestruturas só ganham sentido com gente lá dentro.

   Falemos primeiro, então, dos algarvios. No que acho terem eles de bom e de mau.

    A região algarvia – pois de uma região se trata já que possui identidade nos comportamentos e no próprio linguarejar – não deixa de ser como a Beira interior ou Trás-os-Montes. Região ou província, com ou sem desejo de maior ou menor autonomia, há uma qualificação comum à qual o Algarve não escapa. Chamemos-lhe, sem ofensa, provincianismo – em oposição ao modo de viver e pensar de Lisboa, Porto e Coimbra, para só citar estes três centros, onde se concentram os meios de cultura, as grandes universidade, os bons hospitais.

   A pergunta que se põe é a seguinte: os algarvios podem caracterizar-se  e com segurança identificar  o que têm de bom e de mau? Um sociólogo talvez pudesse. Eu me confesso incapaz de tal proeza e ousadia. Primeiro, porque há algarvios e algarvios; em segundo lugar porque a minha vivência no meio das gentes do Algarve não é bastante para sobre o assunto dissertar condignamente – embora cá viva há muito tempo.

   Embora este blogue não tenha pretensões a respostas definitivas não me eximirei de escrever, sob opinião, sobre aspectos avulso do tema em epígrafe.

   Os meus pontos tratam de coisas simples, deveras - mas incomodativas para quem vem de fora. Por exemplo, é embaraçoso deparar amiúde com carros encostados na berma da estrada e ver explicitamente sujeitos a urinar – algarvios, pois. Nunca vi em outra parte tantos condutores a despejara bexiga na borda da estrada, indiferentes a se vão senhoras ou crianças dentro dos automóveis que passam. Cultura autonómica? Qual cultura? Devia haver uma lei autárquica que obrigasse infratores deste tipo a trazer, junto ao macaco ou ao triângulo, um penico. Em alternativa, obrigar os aflitos a ir pisser a 40 metros da estrada.

   Outra característica intrigante é o facto da maioria dos algarvios não fazerem praia. Será que estão fartos de mar e areia?

   Outra característica comum a outras províncias é o facto de exagerarem na inveja, na intriga, no boato , na desconfiança e no preconceito.  São pouco amistosos para os de fora e muitos chegam à antipatia. Os algarvios  têm tudo a ganhar com a simpatia. Eles precisam dos turistas, de vender o seu produto quer seja aos espanhóis, ingleses holandeses, franceses ou portugueses. Não é preciso prestar vassalagem, certo. Mas um sorriso, uma graça, um olá assertivo ficam sempre bem. É que com vinagre não se apanham moscas.

   Falaremos agora do Algarve propriamente dito, para  depois  terminarmos com três vultos da cultura.

    O Algarve tem tido no turismo a sua galinha dos ovos de oiro. Uma outra actividade de relevo está no imobiliário associado ao aluguer, até há pouco clandestino, de  casas de férias. A restauração de qualidade cresce e a construção revitalizou-se. A pequena industria é solicitada por vias deste crescimento. A grande e média industria do passado desapareceram, com destaque para as conserveiras da sardinha e do atum.

   Quanto ao urbanismo e às infraestruturas, temos duas realidade distintas: O Barlavento, caótico –pelo menos boa parte dele – com construção  desordenada e muita em cima das arribas. Parte da construção no passado recente não tem qualidade e o saneamento é medíocre. A construção de prédios quase na borda de água campeou e deixo marcas feias que persistem. Tudo pela ganância: dinheiro. Não creio que aqui os algarvios possam ter tido responsabilidades, mas consentiram os desmandos.   O Sotavento tem, até agora resistido à desordem, não obstante os perigos que pairam na Retur e pinhais adjacentes. O apetite é muito.

   É sabido que quase todas as praias do Algarve têm qualidade. Desde o areal até às águas. As de areia fina e água cálida são insuperáveis. Estão a Sotavento:  Vila Real, Monte Gordo (tem gente a mais no verão), Cabeço, Altura, Fábrica, Barril , Manta Rota, Ilha deTavira, etc.

   Em termos urbanísticos, temos como bons exemplos a Praia Verde e as Casas da Audiência, as duas no concelho de Castro Marim.

   No que toca a serviços de saúde, educação e repartições públicas, o Algarve não está bem. Vive-se um bocado de improviso e a coisa é pouco "científica". Apesar da existência de  uma   rede razoável de centros de saúde, faltam profissionais e meios de diagóstico por perto. O hospital de Faro, pese embora a militância de um punhado de médicos e enfermeiros militantes do SNS, não suporta tantos doentes. Quanto à Educação, requerem-se mais professores  identificados com o meio onde se situa a escola. As escolas do Algarve não estão bem classificadas nos rankings. Pedia-se, penso, uma intervenção séria e comprometida junto das famílias dos alunos, seguindo a máxima de que é preciso educar o educador. Pois aos professores compete ensinar e aos pais educar.

   Quanto às repartições, são o mesmo aqui e na provínciaem geral. Muita falta de rigor, incompetência qb e atendimento medíocre. Este ponto não merece mais.

   Para fazermos uma pausa para café quero dizer que o que tenho vindo a escrever não é porque sim. Baseia-se na observação e na prática. Sou residente no concelho de Castro Marim onde pago os meus impostos e onde sou eleitor hà mais de 20 anos. Não tenho nenhum prazer em dizer que não gosto, pois isso significa que, pelo menos para mim, as coisas não estão bem. Ao contrário, fico satisfeito quando digo bem pela razão inversa.

   Alguns de fora não são melhores que o pior dos algarvios. Alguns "turistas" portugueses são, pelo menos, insensatos. Dizem esses veraneantes na véspera de partir rumo ao sul: "Vamos dar de comer aos algarvios!" . Isso é jocoso, pretensioso e indecente. Os algarvios vendem o  que lhes querem comprar e que é deles, seja trabalho, um aluguer, um café. Não vendem o sol nem o mar que é de todos, mas  que os algarvios  preservam e guardam durante todo o ano e não só no Verão. Os de cá não querem esmolas dos "doutores"de que fala António Aleixo.

                                                                                                                     

    Vemos gente bem vestida

      no aspecto desassombrada;

       são tudo ilusões da vida,

        tudo é miséria dourada                     

                                   (Este livro que vos deixo, sexta edição )

  

  Já se viu que uma pesonalidade da cultura (popular) que escolhi foi António Aleixo (1899-1949). Aleixo nasceu em Vila Real de Santo Antonio e morreu em Loulé. Além de poeta – que denota características classistas e próximas do carácter negativo que sublinhei para os algarvios em geral – foi guardador de rebanhos e cauteleiro.

   O segundo vulto da cultura algarvia e portuguesa, nasceu em Vila Nova de Cacela. António Rosa Mendes foi um humanista de elevado carácter. A sua formação faz lembrar o espírito da Renascença em relação ao conhecimento.  Foi um homem de saber diverso. Jurista,  historiador, professor universitário, político. O Arquivo Histórico Municipal de Vila Real de Santo António tem, hoje, o seu nome. António Rosa Memdes faleceu a 4 de Junho de 2013. Faz falta  a todo o Algarve. Foi sepultado no antigo cemitério de Cacela Velha. Foi acompanhado até aí por centenas de amigos e admiradores.

   A terceira figura é uma mulher e  está viva: Lídia Jorge. Escritora, nasceu em Loulé e foi sucessivamente professora, membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social, membro do Conselho Geral da Universidade do Algarve. Recebeu inúmeros prémios pelas suas obras literárias. Foi condecorada com a Grão Cruz da Ordem do Infante e com a Ordem das Artes e das Letras de França. Entre outras, escreveu as seguintes obras: O Dia  dos Prodígios, O cais das merendas, O Vale da  Paixão,O Vento Assobiando nas Gruas, e Contrato Social  (Reflexão crítica sobre o futuro de Portugal).

 

   Finalizamos com uma outra quadra de A. Aleixo:

 

      Porque o mundo me empurrou

       caí na lama, e então

       tomei-lhe a cor mas não sou

        a lama que muitos são          

                                                    (Este livro que vos deixo )

 

 

   À qual não resisto em  responder:

 

                     Diz-me a alma, diz-me a Lei,

                      no inferno em que já estou,

                      que não sabendo o que sou

                      sou o pouco que já sei .

                                                                            (júlio farinha)

                               

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