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oraviva

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26
Nov19

MIlk. Um fim anunciado

publicado por júlio farinha

   O Milk tem 17 anos caninos. O seu nome foi rebuscado da sua cor de leite. Está velhinho, arrasta-se pela casa e quase que já não é capaz de se erguer da sua cama e andar. Esforça-se nos seus movimentos incertos por ir à rua fazer as suas necessidades. Quando não é capaz de se deslocar o Xão, que gosta muito de animais e sobretudo do Milk, pega-o ao colo e põe-o em lugar acessível à relva. 

   O nosso cão , apesar da avançada idade, dá-se muito bem com a Mia e com a Safira, as duas gatas que há lá em casa. A Safira em idade jovem e a Mia quase sénior foram resgatada da rua. A Safira, brincalhona, corre à deriva e por vezes salta para cima do Milk que não lhe liga nenhuma. A Mia, branquinha, assim chamada por miar muito em demanda  da mãe em parte desconhecida, quando pequenina, e a Safira de cor negra, castanha amarelada não se dão bem. Sempre foi assim. A Mia nunca desistiu de preservar o seu território. Não está para brincadeiras, eriça-se e refila com a outra quando esta tem uma brincadeira mais atrevida. 

   Enquanto as gatas dormem no quentinho das camas da filharada o Milk tem a sua própria cama. Nos dias de inverno o Milk é tapado com mantas e parece ser sensivel, na sua meia incapacidade, ao conforto. Levanta-se só para comer e os esfincteres pregam-lhe, amiúde, uma partida.

   O Milk já não ladra aos transeuntes. Não dá sinal quando chegamos a casa. Antigamente recebia-nos com um ladrar alegre, acenava a cauda e dava pequenos saltos de contentamento. Que foi feito dessas mensagens de acolhimento, dessas reconfortantes boas-vindas? Nós sabemos que a tua presença física vai um dia próximo acabar. Já se anunciam as saudades tuas, Milk. Sem ti já não seremos uma família completa. E todos, sobretudo o Xão, perderão um grande amigo. Um amigo que lhe vai faltando entre os humanos.

   

25
Nov19

O dinheiro

publicado por júlio farinha

   Shakespeare chamou ao dinheiro "vil metal" e Kant referiu que o "muito saber não taz felicidade". A tese deste pequeno texto encontra-se na substituição do "muito saber" por "vil metal" e manter a sua congruência, como espero demonstrar. É certo que o dinheiro compra tudo, ou ...quase tudo, mas um rico nem sempre, ou quase nunca, é feliz.

   Com ironia, Shakespeare referiu que "quem não tem dinheiro, meios e paz",   carece de três bons amigos. O dinheiro abre caminhos que estão vedados ao pobre. Quem tem pouco dinheiro, tem poucos amigos. Quem tem poucos meios não tem influência social.Quem não tem amigos  também não tem paz, ou vice-versa.

   Por seu turno, Marx quando jovem escreveu os chamados Manuscritos Económicos Filosóficos e num dos capítulos tratou da questão do dinheiro. O dinheiro afecta a subjectividade, a personalidade e as relações interpessoais. Segundo o filósofo e economista o dinheiro é um obstáculo à emancipação humana.

   O "vil metal"  substituíu, há muito a troca de mercadorias e começou a ser cunhado em moeda de ouro , de prata e de níquel. Hoje, passou a papel (notas) e cheques e tomou conta das transações virtuais - embora se mantenha a sua categoria valorativa. O dinheiro é uma autêntica vaca sagrada do capitalismo e tem o seu curral favorito nas bolsas e nos bancos. Os banqueiros são quem mais ordena nas transaccões e foi-lhes concedida a condição de influenciador supremo da vida poílica dos países onde o capital assume a categoria de subvertor, rei e senhor das nossas vidas. O apelo do capital é forte e desvirtua a sociedade fazendo de nós escravos. Nessa relação, abunda a corrupção, o branqueamento e toda a sorte de crimes económicos.

   O dinheiro corrompe e distorce as relações sociais. Muitas vezes quem tem valores humanos, quem é bom, justo e rico de carácter é privado desse "bem" material que nos oprime e desfalca. Por sua vez, é frequente que aquele em que abunda o "vil metal" é pobre. Pobre de cultura, personalidade, amor, sentimentos nobres. Só tem amigos e paz enquanto tiver dinheiro.

   Vivemos numa sociedade anacrónica em que o dinheiro, não sendo tudo, tudo compra e não traz, como se esperaria, felicidade. 

   A felicidade também não nasce da pobreza. Não fazemos aqui a apologia do ser pobre. Dizemos que o capital, tal como o trabalho, tem que ser distribuido. Não faz sentido que muitos que nada têm trabalhem para poucos que quase tudo possuem. Fazemos a apologia da distribuição e do governo equitativo dos bens e do trabalho. 

   Uma sociedade moderna, humanista e justa não pode permitir que haja no seu seio uma nova forma de escravidão. Todos têm que possuir o suficiente para levar uma vida feliz. Por isso, repetimos com o filósofo: "De cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades".

 

21
Nov19

Partilhar ou intervir?

publicado por júlio farinha

   Quem escreve e publica por prazer e o faz bem e, se para além disso, confere substância, ideias,  sentimentos, e alguma arte áquilo que transmite, dizemos que está a partilhar. Na circunstância, achamos que deve haver o bom gosto conferido pela correcção, rigor e alguma estética da escrita, de tal modo que se cative o leitor e o prenda à leitura. Manda, porém, o bom senso que se tenha em conta a heterogeneidade dos utentes da plataforma - neste caso as características dos bloggers.

   Quem escreve, fá-lo para alguém. Daí o sentido da afirmação de partilha. De facto, quando se publica algo é com a intenção que isso seja lido. Senão, se escrever só para mim próprio, estou presente perante um acto puramente narcísico e o melhor é guardar o tal manuscrito no fundo da gaveta; sendo que ninguém nos tirará o prazer de escrever ... para si próprio. E ninguém aceita a partilha do que quer que seja se não se gostar ou, pelo menos, estar receptivo aos dados da troca. 

   Partilhar é um sintonizar na mesma onda. Dá-se e recebe-se, normalmente com agrado, um ou mais objectos. Neste caso, o texto ou objecto da partilha agrada a ambos os interlocutores no seio da mensagem, podendo serem eles vividos de modo diferente pelo emissor ou pelo receptor. De qualquer maneira, a prosa, a poesia, o quadro, o vídeo e a fotografia entram em casa do receptor. Senão, pode dar-se o caso de ficarmos isolados. Ter prazer no que se escreve convoca a necessidade de haver semelhante prazer em quem lê.

   É comum alguns fazedores de texto dizerem que escrevem por mero prazer. Certo. Eu gosto de escrever. Isso dá-me vida, mas também me dá gozo saber que sou lido. Todo o acto de partilha deve, a meu ver,  ser participado e comungado. Criticamente, é claro. É natural que haja gente que não gosta do que escrevo ou que gostem mais disto ou daquilo. Aqui não se pode falar em partilhar. Ficaremos sempre na dúvida se é aquilo que escrevemos que não presta, ou se é quem lê que discorda ou acha os nossos textos insalúbres.

   Assim, sem presunção, afirmo que escrever é como a música de intervenção. Não há nada de mais estimulante e transformador do que uma boa e revolucionária ideia. Então, entre as palavras "partilhar" e "intervir", não sendo antónimas, gosto mais da segunda. Intervir é um acto intencional, modificador de circunstâncias, provocador de mudança.. A intervenção altera, muda, transforma, faz do velho o novo. Não é por acaso que os comentários contraditórios do Sapo são mais ricos que os simples actos escritos de partilha. O comentário de intervenção exige debate, o de partilha nem por isso.

   É certo que um simples "Bom dia" ou uma despedida com "Beijinhos" (que até eu uso) são reservas de partilha, buscadas na intervenção,  na medida em que partilhamos uma saudação, um toque de ânimo e de simpatia. Coisas tão escassas nos dias que correm. São, se carregados de puro sentido, sinais de afecto - coisas de que todos nós precisamos. Em suma, partilhar e intervir são dois domínios diferentes de uma mesma realidade.

   José Mário Branco partilhava connosco a sua bela e cuidada música e nem por isso deixava de intervir sobre as nossas emoções, sobre o nosso intelecto,  com os seus textos e acções. Partilhava e intervinha.

   Dito isto, façamos da partilha uma intervenção rica e duradoura e assim nos podemos encontrar "com aquilo que temos para nos dar" (J. Mário Branco)

   

   

19
Nov19

José Mário deixou-nos

publicado por júlio farinha

   Morreu José Mário Branco. Foi uma voz comprometida com a exigência, com a solidariedade e com a liberdade. Deixou-nos um grande pedaço de Abril. As suas composições e interpretações musicais são, doravante, património popular. Deixaste-nos cedo ao cair este azarado mês de Novembro contra o qual te insurgiste. Até sempre Zé Mário! A tua música não se esquece e com ela te prestaremos a eterna e devida homenagem.

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