Músicas de sempre (83)
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Dei-te quase tudo, quase
Encontrei a verdade no livro da minha vida, quase
Fomos ambos solidários, quase
Vivi a tua beleza escrita nos meus olhos, quase
Entreguei-te quase toda a minha alma, quase
Olhei longamente a tua beleza, sempre
Passei as mãos trémulas em ti, toda
Devoveste-me o meu amor acrescido do teu, sempre
Beijei os teus seios desejosos de carícia,
E tu, amaste-me de mansinho da cabeça até aos pés
Ficou-me uma escrita prolífera do nosso amor, eterno. Até hoje.
Onde estiveres, não te esqueças de mim. Nunca.
Este escrito é um desmando
Que lavrou no intestino
Saíu da tripa rolando
Em imparável desatino.
Já não sei o que dizer
aos leitores que me vão lendo
Já não há quem queira ver
os sinais do escrito horrendo.
Já aqui se disse que ensinar não é exactamente o mesmo que educar. "Tout court",diremos que os pais e a sociedade educam mais do que a escola, e a esta cabe a tarefa fundamental de ensinar.
A família educa, preparando as crianças e os jovens para a escola e para vida. Por sua vez, os professores e outros agentes educativos dentro da instituição escolar ensinam a aprender, dotando os alunos das ferramentas culturais, científicas e técnicas.
É nesta interação entre a escola da vida e a vida na escola que se dá a transformação para um crscimento activo das personalidades e das competências sociais que fazem do aluno um interveniente esclarecido no meio em que se move.
Fui professor quase durante quarenta anos e nunca escondi o meu apreço pelos meus colegas e pelos familiares dos alunos que sabiam distinguir os bons professores daqueles que se mostravam negligentes. Para os nossos ex-alunos, como para os seus familiares, vai o meu reconhecimento e o meu obrigado por me terem, por vezes, distinguido de forma gentil e benévola. Não escondo um sorriso cúmplice quando muitos dos meus alunos, muitos pais de filhos, me cumprimentam generosamente. Por outro lado, nós os reformados, penalizamo-nos quando um aluno se cruza connosco no supermercado e ele não se lembra de nós.
Oiço com desagrado ouvir que o ensino e a educação nunca estiveram tão mal como agora. A responsabilidade, verdade, recai sobre as prepotências das autoridades ministeriais e do ostracismo a que os professores são votados. O ME e as escolas estão cheias de burocracia e em vez de se incrementar um ensino criterioso e de qualidade atafulham-se os professores em papéis. Os professores trabalham em casa em demasia e não têm tempo para a sua família.
O ensino e a educação, sendo coias diferentes, não deixam de andar ligados. A família e a sociedade têm que mudar para instruír os miúdos em boas regras de educação. Por sua vez, as escolas e o seu pessoal docente, sobretudo, são obrigados a ensinar em más condições - uma vinda das tutelas, outras vindo das próprias famílias e da sociedade. É por isso que ensino e educação andam de mãos dadas.
Minha vida é um fulgor
De quem abraça um tormento
É um suspiro desta dor
De quem vive só, desatento.
Faço com frequência o caminho, serra aima, serra abaixo, que me leva de carro entre Castro Marim e Sintra. Hoje, domingo, já noite entrada, parei em Mértola para beber um café.
Deparei-me com uma Taberna/Café cheia de alentejanos. As alentejanas não se afoitam àquela hora por semelhantes locais. Então imaginei aquele numeroso grupo de homens rijos a cantar o Cante, Património Mundial da Unesco, entre copos e cerveja. Para desgosto meu o grupo não estava cantando, em alegre cavaqueira sim. Todos de pé ao balcão. E não vislumbrei nenhum bêbedo. Tudo sóbrio e com compostura.
O balcão estava estava cheio de homens alinhados. E como não houvesse lugar para mim, aprontei-me por detrás da máquina registadora. Vai, não vai, um dos Mérlosenses chegou-se para a esquerda - os do Alentejo chegam-se muito para essas bandas - abrindo um lugar para mim fazendo-me um gesto convidativo para me juntar à equipa.
O vozear continuou e ninguém me achou estranho no seu seio. O falar característico daquelas gentes feito de sons graves, firmes, assertivos e parcos de gestos à mistura era um falar cantado.
Os de Mértola falam como quem sente e como quem canta. Como os do Alentejo pode haver igual, mas ninguém os supera em generosidade, simpatia, marcada personalidade e ânsia de justiça. Os rosto e a alma alentejanas perdoaram quarenta anos de fome e de maldade dos governantes. Agora fala o cante. E em nós o cante fala. Sempre que dói a saudade.
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