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oraviva

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29
Jan20

Quase tudo

publicado por júlio farinha

Dei-te quase tudo,  quase 

Encontrei a verdade no livro da minha vida, quase

Fomos ambos solidários, quase

Vivi a tua beleza escrita nos meus olhos, quase

Entreguei-te quase toda a minha alma, quase

Olhei longamente a tua beleza, sempre

Passei as mãos trémulas em ti, toda

Devoveste-me o meu amor acrescido do teu, sempre

Beijei os teus seios desejosos de carícia,

E tu, amaste-me de mansinho da cabeça até aos pés

Ficou-me uma escrita prolífera do nosso amor, eterno. Até hoje.

Onde estiveres, não te esqueças de mim. Nunca.

 

26
Jan20

Formar, educar, ensinar

publicado por júlio farinha

   Já aqui se disse que ensinar não é exactamente o mesmo que educar. "Tout court",diremos que os pais e a sociedade educam mais do que a escola, e a esta cabe a tarefa fundamental de ensinar.

   A família educa, preparando as crianças e os jovens para a escola e para vida. Por sua vez, os professores e outros agentes educativos dentro da instituição escolar ensinam a aprender, dotando os alunos das ferramentas culturais, científicas e técnicas.

   É nesta interação entre a escola da vida e a vida na escola que se dá a transformação para um crscimento activo das personalidades e das competências sociais que fazem do aluno um interveniente esclarecido no meio em que se move.

   Fui professor quase durante quarenta anos e nunca escondi o meu apreço pelos meus colegas e pelos familiares dos alunos que sabiam distinguir os bons professores daqueles que se mostravam negligentes. Para os nossos ex-alunos, como para os seus familiares, vai o meu reconhecimento e o meu obrigado por me terem, por vezes, distinguido de forma gentil e benévola. Não escondo um sorriso cúmplice quando muitos dos meus alunos, muitos pais de filhos, me cumprimentam generosamente. Por outro lado, nós os reformados, penalizamo-nos quando um aluno se cruza connosco no supermercado e ele não se lembra de nós.

   Oiço com desagrado ouvir que o ensino e a educação nunca estiveram tão mal como agora. A responsabilidade, verdade, recai sobre as prepotências das autoridades ministeriais e do ostracismo a que os professores são votados. O ME e as escolas estão cheias de burocracia e em vez de se incrementar  um ensino criterioso e de qualidade atafulham-se os professores em papéis. Os professores trabalham em casa em demasia e não têm tempo para a sua família. 

   O ensino e a educação, sendo coias diferentes, não deixam de andar ligados. A família e a sociedade têm que mudar para instruír os miúdos em boas regras de educação. Por sua vez, as escolas e o seu pessoal docente, sobretudo, são obrigados a ensinar em más condições  - uma vinda das tutelas, outras vindo das próprias famílias e da sociedade. É por isso que ensino e educação andam de mãos dadas.

20
Jan20

O cante falado

publicado por júlio farinha

   Faço com frequência o caminho, serra aima, serra abaixo, que me leva de carro entre Castro Marim e Sintra. Hoje, domingo, já noite entrada, parei em Mértola para beber um café.  

   Deparei-me com uma Taberna/Café  cheia de alentejanos. As alentejanas não se afoitam àquela hora por semelhantes locais. Então imaginei aquele numeroso grupo de homens rijos a cantar o Cante, Património Mundial da Unesco, entre copos e cerveja. Para desgosto meu o grupo não estava cantando, em alegre cavaqueira sim. Todos de pé ao balcão. E não vislumbrei nenhum bêbedo. Tudo sóbrio e com compostura.

    O balcão estava estava cheio de homens alinhados. E como não houvesse lugar para mim, aprontei-me por detrás da máquina registadora. Vai, não vai, um dos Mérlosenses chegou-se para a esquerda - os do Alentejo chegam-se muito para essas bandas - abrindo um lugar para mim fazendo-me um gesto convidativo para me juntar à equipa.

   O vozear continuou e ninguém me achou estranho no seu seio. O falar característico daquelas gentes feito de sons graves, firmes, assertivos e parcos de gestos à mistura era um falar cantado.

   Os de Mértola falam como quem sente e como quem canta. Como os do Alentejo pode haver igual, mas ninguém os supera em generosidade, simpatia, marcada personalidade e   ânsia de justiça. Os rosto e a alma alentejanas perdoaram quarenta anos de fome e de maldade dos governantes. Agora fala o cante. E em nós o cante fala. Sempre que dói a saudade.

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