Músicas de sempre (88)
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Toda a gente conhece a expressão "Maria vai com as outras" para designar o seguidismo a que estão sujeitas as almas frágeis e vulneráveis. Aqueles que não detêm pensamento próprio nem cultura firme e trabalhada, estão à mercê de todo o tipo de manipulação, política, religiosa, social e psicológica. Facilmente se entregam à mentira e a interesses que lhes são intrinsecamente alheios.
Acontece, no domínio do espiritual, que esta usurpação da liberdade é consentida. Feuerbach chegou até nós pela pena da sua "Essência do Cristianismo" nos seguintes moldes: "Quanto mais de si o Homem se atribui a Deus, menos lhe resta". A alienação de si representativa é, por isso, quase sempre consentida. A ataraxia estoica não é compatível com esta cedência humana. A tranquilidade da alma não pode ser conspurcada por esta desonra de dar aquilo que só ao Homem pertence - a sua consciência, a sua alma na mais pura da sua identidade ética.
É deveras embaraçoso que a Humanidade despeje, numa urna de voto, o que lhe resta fazer - engrandecer o espírito, armar-se de cultura e elevar o mais alto que pode haver a sua própria sabedoria. Não há ninguém, na chamada democracia representativa, que nos possa guiar ao céu onde está Sócrates e Platão. Só aí eu me ofereço para ser governado.
É para mim um dos mais fantáticos poemas contemporâneos musicados em lingua portuguesa. Foi, na época escura dos regimes totalitários do Brasil, considerado subversivo.
É de uma beleza estética fora do normal e de uma profundidade sem paralelo.
É cantado com o cérebro e a voz de dois monstros da MPB. Chico Buarque e Milton Nascimento.
Arrebatador e apaixonante.
"O cérebro segrega o pensamento assim como o fígado segrega a bílis" - frase atribuída a Descartes e aos materialistas do século XVII.
Não há pensar sem a base material que o produz, nem há qualquer instância sobrenatural que esteja na sua génese. Tudo é material, tudo é consequência da matéria incluindo aquilo que se designa por espiritual.
A alma não existe, de facto. Atribui-se o termo a um atributo humano localizado no cérebro responsável pelas emoções e pela razão. A própria inteligência emocional, própria pelo debitar dos sentimentos e pelo conhecimento de si e pela compreensão do outro é, tudo razão - embora lhe demos diferentes nomes por facilidade de análise.
Do mesmo modo, os humanos não amam com o coração mas com a cabeça. Nesta, o cérebro detecta impulsos nervosos, eléctricos e transformam tudo isso em acção, em linguagem. Os sentidos do ser humano: tacto, visão, audição, paladar e olfacto constroem o mundo sensorial que, por sua vez, interpreta e formata a realidade de cada um.
Sem pensamento não há acção humana e sem acção humana o pensamento é estéril.
Bons pensamentos dão em boas acções e boas acções fazem nascer bons pensamentos.
A nossa vida, disseste um dia, é uma complicação
Dá-nos com os pés tira com a mão.
É porta fechada em vez de aberta
A nossa vida de nuvens encoberta.
É assim, pensas tu bem, um ter do que nada tem.
O real é o conjunto das coisas que são e que não são. Nesta visão podemos, então, dizer que até o virtual é real. A nossa vida na blogosfera é feita, na realidade, de seres, pensamentos, sentimentos, sonhos e apontamentos da nossa própria história. Sendo assim, podemos dizer que a internet tanto nos une como nos separa, e que aquilo que somos virtualmente passa a ser algo de real e vice-versa.
Comunicamos e deixamos que nos comuniquem. Na vida real e na vida virtual. Pois, são ambas verdadeiramente existentes. Talvez que a única diferença, a havê-la, esteja no contacto físico. Mas, pode um ser humano, por exemplo, amar outro à distância? Sim, obviamente. Fernando Pessoa viveu um amor platónico e ninguém pode dizer, fazendo fé nas suas cartas de amor a Ofélia, que não era um amor terno e sincero.
O contacto físico parece ser necessário, segundo as leis da natureza, para haver uma integral entrega recíproca entre dois amantes. A internet não substitui, de facto, o afecto físico, a carícia, o olhar, o toque, a pulsação da entrega feita da intenssíssima doação dos corpos, a ousadia e o entusiasmo de ir sempre mais além na entrega sexual.
Sumariando - o desejo, a aproximação e o calor amoroso não são exclusivos do amor físico. Há sobejos casos de dois seres que se apaixonam e vivem um amor sem se conhecerem físicamente. O amor vai, neste caso, buscar o conhecimento a várias fontes incluindo à intuição. Costuma resultar em sincera e forte amizade. No entanto, mais tarde ou mais cedo, a paixão irá solicitar um estádio superior de amizade e de necessidade. De contrário, o amor apenas baseado na esfera virtual corre o risco de não passar à comunhão completa e total.
Há já muito tempo tive conhecimento de uma ideia bizarra que nos foi deixada por um membro do "Eixo do Mal".
Quem se desloca na sinuosa estrada e antes de chegar, para quem desce, a Mértola indo de Beja, encontra um cruzamento que vai dar a uma aldeia nas margens do Guadiana que se chama, a propósito da minha história, "Pulo do Lobo".
Alma observadora deu com um predador agora já em vias de extinção, mas na altura desempenhando finções de Presidente da República à portuguesa. Tratava-se, pasme-se, do ilustre Cavaco Silva que atravessava um mau momento do (des)encontro com o pimeiro ministro de então.
Refugiado nas bordas do rio, mais exactamente no Pulo do Lobo, entregava-se à mastigação de ... passarinhos fritos! E para isso deu um pulo digno do mais refinado predador das inocentes avezinhas.
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