Músicas de sempre (91)
Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]
O governo decidiu fechar as escolas e restringir o acesso a outros locais públicos. Até aqui tudo certo. Os alunos devem ser protegidos do coronavírus evitando que o contraiam e o propaguem. Mas também se sabe que, nas escolas, as pessoas infectadas são sobretudo professores pois são os que mais interagem e são os mais vulneráveis devido à idade. Privilegiar as crianças e os jovens face aos adultos é uma medida vergonhosamente populista. Trata-se de uma questão de votos, mais nada.
Acontece que uma medida importante para evitar a infecção, segundo os competentes a profissionais de saúde, é o isolamento.
Também acontece que ao mesmo tempo que os alunos são enviados para casa de onde só podem saír em último caso, os professores, a mando do respectivo ministério obrigou, contrasenso, a cumprir horário nas escola onde devem fazer trabalho presencial não lectivo. Então os professores são imunes e não de podeem contagiar uns aos outros? É para rir!
A medida infeliz e absurda é um atestado de incompetência. É como se o ME atirasse os professores aos bichos, literalmente.
Os responsáveis (apolíticos) pela educação têm um certo rancor pelos docentes, não lhes perdoam a contestação nem as greves às avaliações. Estes são vítimas do seu próprio orgulho, da sua superior dedicação ao ensino e da sua competência didáctica e pedagógica. É porisso que são tratados abaixo de cães. Tal como dizia um revolucionário francês:Pauvres chiens, on vos traite como des hommes! (Pobres cães, tratam-vos como se fossem homens).
O vírus que por aí anda virou isto tudo do avesso. O medo e a ansiedade instalaram-se e todos os sectores da economia e da sociedade sofrem o maior trambolhão das últimas décadas.
Numa ida a uma grande superfície para comprar uma conservazita, só uma, para o jantar, deparei-me com uma situação caótica. Não havia lugares livres de estacionamento.
Lá dentro, perguntei a um funcionário onde era o sítio das tais conservas. Ele apontou-me para um corredor e disse, com um sorriso amarelo: "Costuma ser ali". E deparei-me com metros e metros de espaços simplesmente vazios. Outros corredores estavam igualmente depenados de produtos. A Azáfama era grande, uma chusma de clientes assoberbados deitavam mão de tudo e mais alguma coisa.
Acabei por almejar uma lata de feijoada à transmontana e preparei-me para ir à caixa. À frente de cada uma delas formavam-se filas intermináveis com pessoas de olhar preocupado, com carros literalmente a abarrotar de produtos. Tive sorte de encontrar uma caixa automática com meia dúzia de clientes. Saí, e fui jantar o tal enlatado que me bastou para compôr o estômago. Acompanhei a iguaria com pensamentos e concluí que nunca tinha visto uma coisa assim. Talvez o cenário seja parecido com um estado de sítio, uma guerra, um terramoto ou outra catástrofe do género.
Também pensei, paradoxalmente, que a coisa está a ter efeitos benéficos economicamente. O preço do petróleo baixou drasticamente, as bolsas, para meu gáudio, colapsam, os jogos de futebol não rendem milhões e os preços da restauração vão baixar. Ou, seja, acabamos por gastar menos e poupar mais.
Do que foi dito, não se insere que não esteja apreensivo com a situação e longe de mim a intenção de brincar com coisas sérias. Confio nas autoridades de saúde - menos que nos políticos - e louvo as suas prescrições pedagógias. Devíamos olhar com atenção para países e territórios como Macau onde foram tomadas medidas colectivas de grande alcance. Ali, barrou-se o caminho à proliferação ou mesmo entrada do novo vírus. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo da China Continental, apesar de estar a diminuír o número de infectados, e de Itália. Para aqueles povos onde se têm registado óbitos devido à doença vai o meu respeito. Em honra desses países, decido não incluír neste post a habitual música. Que Portugal, onde a infecção é territorialmente assimétrica, reduza, a prazo, a zero o número de contagiados.
Disse que a morte é o contrário da vida
Disse que morrer é o mesmo que viver
Disse ao sonho que é igual ao desengano
Disse que o engano é o mesmo que verdade
E disse que a idade não conta
Falou em saudade de monta
E foi-se à aventura mostrando cara triste
Lembrou o riso de meninice
Disse para consigo sem auditório
Como fosse objecto do velório
Morreu como viveu
Sofreu pleno castigo
Como se fosse a enterrar comigo.
Antes, disse que não disse aquilo que disse.
Nem todo o homem se aventura na procura da verdade. Esta não é tangível porque não há verdade absoluta. Quem se dedica à sua procura, fá-lo em vão. Podemos falar em pequenas "verdades", em pedaços do saber fragmentado e pessoalíssimo. É porisso que não devemos, nem podemos, impôr aos outros aquilo que nem para nós se aplica.
O muito saber não traz felicidade, e quanto mais sabemos, mais tocamos em acontecimentos próprios ou colaterais que nos fazem sofrer. É por isso que preferimos a ignorância, o fingimento, por vezes, de que nada sabemos.
Quem, apesar de tudo, com sofrimento da alma, procura a sabedoria, mais janelas se abrem para o desconhecido. É este o dilema da investigação científica: um problema resolvido dá origem a muitos outros assuntos que requerem resposta.
A interrogação sobre as origens da vida e a construção paulatina de respostas inacabadas é, no entanto, algo que vem dos primórdios da nossa existência. Construímos caminhos, fixámos marcos, ultrapassámos barreiras. Estamos condenados a suportar as dúvidas e a mudar constantemente de procedimentos, evoluindo, caminhando aos ziguezagues e recuando sempe que é preciso.
Se o muito saber não nos acrescenta felicidade, podemos sempre preparar-nos através dele e da cultura para uma vida melhor, embora menos tranquila, do que aquela que nos legaram os nossos antepassados.
40 seguidores
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.