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oraviva

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25
Mar20

Primeiro, vieram ...

publicado por júlio farinha

 

   Hoje, apresento-lhes um poema do pastor e poeta alemão, Martin Niemöller  (1892-1984), inimigo público de Hitler, que passou sete anos da sua vida em campos de concentração.

 

   "Quando os nazis vieram buscar os comunistas, eu fiquei em silêncio; eu não era comunista.

   Quando ele prenderam os sociais democratas, eu fiquei em silêncio; eu não era social democrata.

   Quando eles vieram buscar os sindicalistas, eu não disse nada; eu não era sindicalista.

   Quando vieram buscar os judeus, eu fiquei em silêncio; eu não era judeu.

   Quando eles vieram por mim, já não havia ninguém que pudesse protestar".

 

 

14
Mar20

Professores deitados aos bichos.

publicado por júlio farinha

   O governo decidiu fechar as escolas e restringir o acesso a outros locais públicos. Até aqui tudo certo. Os alunos devem ser protegidos do coronavírus evitando que o contraiam e o propaguem. Mas também se sabe que, nas escolas, as pessoas infectadas são sobretudo professores pois são os que mais interagem e são os mais vulneráveis devido à idade. Privilegiar as crianças e os jovens face aos adultos é uma medida vergonhosamente populista. Trata-se de uma questão de votos, mais nada.

   Acontece que uma medida importante para evitar a infecção, segundo os competentes a  profissionais de saúde, é o isolamento.

   Também acontece que ao mesmo tempo que os alunos são enviados para casa de onde só podem saír em último caso, os professores, a mando do respectivo ministério obrigou, contrasenso, a cumprir horário nas escola onde devem fazer trabalho presencial não lectivo. Então os professores são imunes e não de podeem contagiar uns aos outros?  É para rir!

   A medida infeliz e absurda é um atestado de incompetência. É como se o ME atirasse os professores aos bichos, literalmente.

   Os responsáveis (apolíticos) pela educação têm um certo rancor pelos docentes, não lhes perdoam a contestação nem as greves às avaliações. Estes são vítimas do seu próprio orgulho, da sua superior dedicação ao ensino e da sua competência didáctica e pedagógica. É porisso que são tratados abaixo de cães. Tal como dizia um revolucionário francês:Pauvres chiens, on vos traite como des hommes!  (Pobres cães, tratam-vos como se fossem homens).

   

   

12
Mar20

Do avesso

publicado por júlio farinha

   O vírus que por aí anda virou isto tudo do avesso. O medo e a ansiedade instalaram-se e todos os sectores da economia e da sociedade sofrem o maior trambolhão das últimas décadas. 

   Numa ida a uma grande superfície para comprar uma conservazita, só uma, para o jantar, deparei-me com uma situação caótica. Não havia lugares livres de estacionamento.

   Lá dentro, perguntei a um funcionário onde era o sítio das tais conservas. Ele apontou-me para um corredor e disse, com um sorriso amarelo: "Costuma ser ali". E deparei-me com metros e metros de espaços simplesmente vazios. Outros corredores estavam igualmente depenados de produtos. A Azáfama era grande, uma chusma de clientes assoberbados deitavam mão de tudo e mais alguma coisa.

   Acabei por almejar uma lata de feijoada à transmontana e preparei-me para ir à caixa. À frente de cada uma delas formavam-se filas intermináveis com pessoas de olhar preocupado, com carros literalmente a abarrotar de produtos. Tive sorte de encontrar uma caixa automática com meia dúzia de clientes. Saí, e fui jantar o tal enlatado que me bastou para compôr o estômago. Acompanhei a iguaria com pensamentos e concluí que nunca tinha visto uma coisa assim. Talvez o cenário seja parecido com um estado de sítio, uma guerra, um terramoto ou outra catástrofe do género.

   Também pensei, paradoxalmente, que a coisa está a ter efeitos benéficos economicamente. O preço do petróleo baixou drasticamente, as bolsas, para meu gáudio, colapsam, os jogos de futebol não rendem milhões e os preços da restauração vão baixar. Ou, seja, acabamos por gastar menos e poupar mais.

   Do que foi dito, não se insere que não esteja apreensivo com a situação e longe de mim a  intenção de brincar com coisas sérias. Confio nas autoridades de saúde - menos que nos políticos - e louvo as suas prescrições pedagógias. Devíamos olhar com atenção para países e territórios como Macau onde foram tomadas medidas colectivas de grande alcance. Ali, barrou-se o caminho à proliferação ou mesmo entrada do novo vírus. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo da China Continental, apesar de estar a diminuír o número de infectados, e de Itália. Para aqueles povos onde se têm registado óbitos devido à doença vai o meu respeito. Em honra desses países, decido não incluír neste post a habitual música. Que Portugal, onde a infecção é territorialmente assimétrica, reduza, a prazo, a zero o número de contagiados.

08
Mar20

O dito por não dito

publicado por júlio farinha

   Disse que a morte é o contrário da vida

   Disse que morrer é o mesmo que viver

   Disse ao sonho que é igual ao desengano

   Disse que o engano é o mesmo que verdade

   E disse que a idade não conta

   Falou em saudade de monta

   E foi-se à aventura mostrando cara triste

   Lembrou o riso de meninice

   Disse para consigo sem auditório

   Como fosse objecto do velório

   Morreu como viveu

   Sofreu pleno castigo

   Como se fosse a enterrar comigo.

   Antes, disse que não disse aquilo que disse.

   

   

02
Mar20

Verdade incompleta

publicado por júlio farinha

   Nem todo o homem se aventura na procura da verdade. Esta não é tangível porque não há verdade absoluta. Quem se dedica à sua procura, fá-lo em vão. Podemos falar em pequenas "verdades", em pedaços do saber fragmentado e pessoalíssimo. É porisso que não devemos, nem podemos, impôr aos outros aquilo que nem para nós se aplica.

   O muito saber não traz felicidade, e quanto mais sabemos, mais tocamos em acontecimentos próprios ou colaterais que nos fazem sofrer. É por isso que preferimos a ignorância, o fingimento, por vezes, de que nada sabemos.

   Quem, apesar de tudo, com sofrimento da alma, procura a sabedoria, mais janelas se abrem para o desconhecido. É este o dilema da investigação científica: um problema resolvido dá origem a muitos outros assuntos que requerem resposta.

   A interrogação sobre as origens da vida e a construção paulatina de respostas inacabadas é, no entanto, algo que vem dos primórdios da nossa existência. Construímos caminhos, fixámos marcos, ultrapassámos barreiras. Estamos condenados a suportar as dúvidas e a mudar constantemente de procedimentos, evoluindo, caminhando aos ziguezagues e recuando sempe que é preciso.

   Se o muito saber não nos acrescenta felicidade, podemos sempre preparar-nos através dele e da cultura para uma vida melhor, embora menos tranquila, do que aquela que nos legaram os nossos antepassados. 

   

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