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oraviva

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28
Ago20

O meu eu

publicado por júlio farinha

   Eu sou eu e o meu eu sou eu. Partilho o que sou com aquilo que tenho e tenho aquilo que dou aos outros. O meu eu pertence-me e é dado a quem me tem por bem. O meu eu é comunicável, e quem sou eu  senão aquilo que é meu.

   Não desisto de me dar, de me considerar inteiro, de ser em mim um eu confortável. Não desisto de ser, de me considerar o meu eu próprio.

   Aquilo que é meu sou eu. Perene, satisfeito. Aquele que se dá na sua completude, na sua identidade. Sou eu.

21
Ago20

Debate entre dois próximos

publicado por júlio farinha

   Os jovens, alguns jovens, surpreendem-me cada vez mais. Um destes dias fui "interpelado" por uma jovem próxima, familiarmente falando, que me queria fazer umas perguntas sobre política, sobre sociedade, sobre muitas coisas importantes para ela  e para mim..Confessou-me, o que já sabia, que nunca votou e que a sua participação em manifestações anti racistas e cívicas que já tinha frequentado não a satisfaziam pois, segundo ela, estava incomodada com a ascenção das correntes nazis, fascistas e populistas em Portugal, bem como com um certo demissionismo de grande parte da população jovem em relação à coisa pública. Queria saber mais para agir melhor e levar outros jovens a uma consciencialização política que não permitisse o regresso a ditaduras. A minha tarefa era exigente como exigentes eram as questões que me poria.

   Não recusei o debate, mas confesso que no decorrer do mesmo me senti por vezes embaraçado perante as dúvidas que me eram dirigidas. Queria a jovem que fosse sincero, transparente, e que não escondesse cada lado das questões não fugindo às dificuldades. Pediu-me ainda para não fazer do meu discurso um  repositório planfetário, conhecedora das minhas convicções. Fazia, assim, ela apelo à minha honestidade, à clareza, à imparcialidade e ao bom senso. Por isso, não fugi às questões mais difíceis e rendi-me antecipadamente às ideias objectivas, claras e distintas - como dizia Descartes. 

   A minha jovem amiga era a primeira a dar o exemplo e pensava as questões antes de as formular, pesando cada palavra, medindo o alcance da ideia para a qual precisava de resposta.

   Enumeram-se, assim, alguns tópicos do debate. Ela precisava de saber, sem rodeios, o que era o totalitarismo, qual a sua relação com fascismo e se se pode dizer que todo o regime comunista é totalitário. Neste caso, o que é que distingue o fascismo do comunismo. "Expliquei" o melhor que pude, mas não deixei de lhe dizer que há regimes totalitários que são comunistas (Coreia do Norte) e que outros não o são obrigatoriamente. Por outro lado, todo o regime fascista tende a ser totalitário (Mussolini) e lá fui discorrendo sobre aquilo que caracteriza tais entidades: o culto do chefe, as milícias, a falta de liberdade de imprensa, a polícia política, etc.

   A jovem quis saber também se Marx tinha algo a ver com a derrocada da URSS. Disse-lhe que de Marx até Stalin e a Gorbachov ia uma grande distância. Aqui, falámos da corrupção e divergimos ao considerar a mesma uma coisa inata ao ser humano.Disse-lhe que são as organizações, o poder e o dinheiro que corrempem e que nas sociedades primitivas não havia propriamente corrupção. E que esta, embora já existisse, era diminuta na Grécia Antiga.

   Calava-me, a tempos, para lhe dar a palavra.Levou-me até à China e à curiosa existência de dois regimes, passando pela revolucionária longa marcha de Mao Tsé Tung que no século passado instaurou a maior República Popular do mundo num país de camponeses - tal com havia feito em 1917 na Rússia Lénine.

   Tivemos assim que regressar a Marx e "concordar" que Marx se "enganou" ao prever que as revoluções socialistas e o próprio comunismo teriam lugar em países industrializados com um proletariado forte. A palavra de ordem: "Proletários de todos os países, uni-vos" devia de acentar em partidos comunistas que levariam o resto do povo à abolição de todas as classes sociais.

   O pai da Revolução Russa, Lenine, haveria de prever um período de transição entre socialismo e comunismo a cargo de uma figura "temível" para a burguesia a que apelidou de "ditadura do proletariado" .Esta forma de transição era necessária enquanto existissem classes. Ora, é sabido que, por exemplo, na maior parte dos países socialistas nunca chegou a haver tal transição pelo que o comunismo nunca chegou aí a nascer verdadeiramente. "Então, eu quero ser de esquerda e partilhar o comunismo,  tal como Marx o concebeu", afirmou a jovem que mostrou grande simpatia pelo ditado de Marx enquanto jovem e que reza assim. "Ser radical é arrancar as coisas pela raíz."

   Passámos por Cuba, por Che e por Fidel e não escondi à minha interlocutora a minha simpatia por essa trindade, onde e por quem Marx foi, a meu ver, mais fielmente interpretado.

   No fim, ao sabor de uma taça de vinho branco alentejano, tivemos tempo de voltar a Marx, o filósofo, e tocar nalguns escritos icónicos que falam do dinheiro- do qual somos escravos. Referindo-se ao "Capital" - essa obra eterna e inacabada, dizia Marx: " Nunca ninguém falou tanto de dinheiro e com tanta falta dele" .

   Mais tarde, revimo-nos, como acontecia amiúde, na praia onde é Nadadora Salvadora. Dirigi-me a ela chamando-a revolucionária. " Não" - e como se esperasse mais de si ,retorquiu - "só sou anti fascista e simpatizo com Marx".

 

  

 

 

    

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