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20
Jul18

A pobreza

publicado por júlio farinha

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                                                 Sara Matos/ Global Imagens 

  

 

   Estamos acostumados a lidar com o conceito de sociedade desigual. As economias de mercado modernas produziram sectores sociais que, constituidos por poucos, possuem muito. Ao invés, há outros que sendo muitos, possuem muito pouco. A pobreza é produto das desigualdades e situa-se nos seus limites. Ou seja, a pobreza caracteriza-se por ser um estado em que aqueles que a experimentam não têm, muitas vezes, acesso aos bens primários de subsistência, tais como alimentação, abrigo, cuidados essenciais de saúde e de higiene. Vivem, estas pessoas, num estado de penúria e de indignidade humana. Outra característica normalmente associada ao estado de pobreza é a da exclusão social, estado em que os indivíduos pobres deixam tecnicamente de fazer parte da sociedade normalizada, não sendo reconhecidos por esta como seus membros. São repelidos pela sociedade e postos à sua margem.

   A população pobre não tem diminuído conforme o crescimento económico positivo das nações modernas, e tem crescido assustadoramente nos países subdesenvolvidos. Este facto tem levado ao êxodo de populações oriundas, por exemplo, da África subsariana, que diariamente migram clandestinamente para países da EU criando aí grandes conflitos que não cessam de se agravar.

   Por exemplo, no que diz respeito a Portugal, divulgou o INE recentemente os últimos dados sobre a pobreza datados de 2017. Segundo este organismo, "em 2017 dois milhões e 399 mil portugueses estavam em risco de pobreza ou exclusão social", o que embora assinale a diminuição de 400 mil em relação ao ano anterior, continua a ser um número astronomicamente grande. Em percentagem, apurou-se que 18% dos referenciados como estando no limiar, ou dentro da esfera da pobreza, tinham menos do que 18 anos, ao passo que semelhante percentagem (18,8%) eram idosos com 65 ou mais anos. "Em 2017 – acrescenta o estudo – 6,9% dos inquiridos viviam em condições de privação material severa" – observando-se um ligeiro decréscimo face aos dois anos anteriores. (in Diário de Notícias/ Lusa, 7 Maio 2018).

   Apesar do número de pobres ser muito significativo mesmo em países prósperos em termos absolutos, não têm tido a consideração política que a sua dimensão justifica. Ou seja, os pobres não têm contado para os políticos. No entanto, alguns partidos por essa Europa fora, nomeadamente, começam a descobrir que os pobres ainda podem votar (não se sabe até quando) e vai daí começaram a pensar em apanhar o seu voto. Em Itália, dois grupos políticos que pouco devem ao conceito de estado social – a Força Itália e o Movimento 5 Estrelas, durante a campanha eleitoral,  puseram-se a oferecer aos pobres italianos um rendimento fixo no caso de subirem ao poder. Não se sabe que influência teve a oferta,mas pelo menos o Movimento 5 Estrelas já está no pódio. Cá já se usou a mesma táctica com o ainda vivo Rendimento Social de Inserção, tão elogiado por políticos como Ferro Rodrigues e outros sócios.

   Tanto em Itália, como cá, como noutros países onde existe esta espécie de bodo aos pobres, estes expedientes, para além de caça-votos, são operações de cosmética. Não são acompanhadas de estratégias exequíveis de inserção – ou, para sermos mais precisos, de integração. A pobreza é um problema económico, na estrutura,  mas social e politico na superstrutura que só se resolve com transformações estruturantes. Nomeadamente, com o aumento do emprego sustentado e dos salários, com a qualificação da população activa investindo na educação e na formação ao longo da vida. Não há combate consequente e eficaz à pobreza sem o desenvolvimento da indústria, da agricultura e das pescas. Ou seja, sem criação de riqueza.

   A erradicação da pobreza também é incompatível com a fuga ao fisco, nomeadamente das grandes riquezas, com a corrupção, com um sistema económico e financeiro dominador da política e, sobretudo com o modelo politico-social que rege a vida dos portugueses baseado no lucro e na exploração de uns pelos outros.

   Falar em democracia, estado social ou socialismo nos actuais contextos da vida das pessoas que vivem mal, são falácias e disparates ridículos. Nenhum país pode apresentar sorrisos e felicidades bacocas dos seus políticos quando a quarta parte dos seus cidadãos vive no limiar da pobreza ou da exclusão. O grande sentimento nacional devia ser só um: vergonha. De uns, porque participam no enterro dos vivos. Dos outros ,porque fingem que não é nada com eles.

 

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