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19
Jun18

Amor e Educação

publicado por júlio farinha

   Em educação, o amor é estruturante. A criança ou o jovem sentem o amor, ou a sua falta, em redor. Os pais cuidam de criar um ambiente familiar compreensivo onde pontua o cultivo do amor e da amizade. A relação familiar não pode ser senão, a bem de uma educação de qualidade, o substracto da criação de plataforma amiga, tolerante, estimulante e indutora dos factores próprios para o desenvolvimento psíquico e físico equilibrado dos filhos em crescimento. O futuro emocional e afectivo dos filhos dá-se muito no contexto da relação parental que condiciona a possibilidade da sua felicidade e realização futuras.

   Ninguém é obrigado a viver numa inevitável desunião de facto, nem numa vida de mentira ou indiferença, ou em carência ou ausência de amor e amizade, mas a interrogação sobre se é legítimo o estilhaçar de casamentos ou uniões por dá- cá-aquela-palha, pondo interesses pessoais, egoístas, acima do interesse dos filhos, é pertinente.

   Se os pais soubessem a tempo quanto sofrimento muitas vezes causam aos filhos com separações e divórcios pouco fundamentados. Se soubessem o que significa não ter um lar único e passar só o fim-de-semana com um dos pais, talvez pensassem duas vezes antes de dar o passo, por vezes leviano, de escangalhar a casa natural do desenvolvimento de um ser humano frágil e ávido de segurança, amor e carinho. Filho de pais separados é um nómada que anda com a trouxa às costas entre o refúgio da mãe e a toca do pai. Além disso, os pais, não obstante estarem separados continuam, muitas vezes, a poluir com ódios os ambientes de crescimento das crianças e jovens, produzindo uma má ou conflituosa comunicação que chega a envolver os próprios filhos.

   A vida actual não favorece a tolerância, o diálogo, o entendimento, o amor entre pais e mães. Não há tempo útil para as relações. Não há tempo para os filhos. Sinais dos tempos do individualismo, do sucesso a todo o custo, do hedonismo.

   Os filhos merecem que se lute por eles e para eles. Isso exige esforço, sobretudo quando as escolhas de parceiro não foram as melhores. Mas amar também se aprende. O cérebro, dizem as neurociências, é quem mais ordena, mesmo na questão das emoções e sentimentos. O coração passou a ser uma metáfora.

   No tempo dos meus pais, estes davam ordem à vida para criar os filhos e que eram, geralmente, muitos. Não existiam os problemas demográficos causados com a baixíssima natalidade que grassa presentemente. Hoje, as pessoas têm um filho, no máximo dois. E não é só por falta de meios ou apoios. Ao contrário dos pais de meados do século XX, que se sacrificavam pelos filhos, sem apoios nenhuns, hoje poucos adultos prescindem da sua carreira, da sua liberdade (os filhos são uma “prisão”), dos seus interesses individuais. A concepção tradicional da família, na qual os pais viviam juntos, os avós estavam presentes e os filhos contribuíam para o rendimento familiar, está completamente ausente. Tenho que confessar que sou adepto da família antiga e, na minha opinião, há que recuperar o conceito. Nem que isso requeira alteração social.

   Resolvidos provisoriamente os problemas dos pais, pois nisso estamos conversados, viremo-nos para aquilo que é urgente fazer-se em educação por parte dos progenitores. Sim, porque a educação faz-se preferencial e naturalmente em casa, a dois, e em sociedade. Mais do que na escola. Nesta, ensina-se. O que já não é pouco.

   A grande prescrição para uma boa educação está no amor. Além do mais, os filhos, mercê do amor e admiração que têm pelos seus bons pais, têm-nos como exemplos. Não devem, pois, os pais desbaratar essa vantagem e procurar, em tudo na vida, ser pessoas apaixonadas, rectas, rigorosas, leais e trabalhadoras – autênticos modelos para os seus filhos.

   Amar os filhos não é dizer-lhes sempre sim. Eles perceberão que uma atitude correctiva em educação significa, ainda, gostar deles. Dizer sim quando fazem bem, dizer não quando fazem mal. Também com os erros se aprende e com eles se cresce. Amar os filhos é dar atenção, ouvir. Amar é cuidar, ensinar a usar ferramentas para a vida. Neste particular, disciplina e organização é fundamental.

   Um ser humano em crescimento alimenta-se do líquido em que mergulha. Já era assim no ventre materno. Assim, o ambiente familiar é um indutor de atitudes e valores. Das atitudes, destaco a promoção da responsabilidade individual e social, a disciplina, o rigor, o espírito crítico, a competência, a criatividade e a autonomia. Dos valores, destaco a liberdade, o amor e o respeito por si próprio e pelo outro, o respeito pela vida e pelo planeta, a tolerância, a solidariedade e a justiça – valores convenientemente informados pelo conhecimento, pela razão, pela paixão, pela inteligência, enfim.

   A minha geração criou e viveu um dos mais belos hinos ao amor e à rejeição da guerra, mas também foi uma das que mais se divorciou ou separou, não acautelando devidamente o futuro dos seus filhos. Os jovens que sentiram os ventos utópicos do Maio de 68 ou que viveram intensamente o 25 de Abril não tiveram tempo, estiveram indisponíveis para os seus filhos e para a restante família. Deixaram uma memória da entrega ao social e ao político.

Dos filhos colheram, os pais, o generoso perdão e compreensão pela omissão e ausência em período de infância. Passados os truculentos e voluntários gestos de intervenção social, houve uma reaproximação tardia dos pais aos seus filhos e uma recuperação dos gestos do amor que, nos anos anteriores, não tinham tido tempo para se afirmar. Talvez nunca seja tarde para amar e para crescer.

   Os filhos da geração de 60, ao contrário do legado dos pais, conservam as suas relações e têm mais tempo útil para os netos destes. A transmissão e a aquisição da cultura tornaram-se mais eficientes. Ainda bem.

   Dos da geração de 60, espera-se, justificadamente, que sejam muito mais avós do que pais foram. Agora que têm tempo e amor acumulado.

 

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