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oraviva

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22
Abr18

Confusões

publicado por júlio farinha

   Recebi hoje uma lição. Escrever para nós pode não ser o mesmo que escrever para os outros.

   Numa tentativa de homenagear o 25 de Abril, abri o livro da experiência e dissertei sobre a História do ensino após a revolução dos cravos. Fi-lo em tamanho XXL, o que faz da coisa uma seca para os mais desprevenidos. A adesão ao escrito é inferior ao esperado. Ao texto chamei Escolas: andar aos papéis.

   Podemos concluír que, ou o tema não interessou aos potenciais leitores, o que é provável, ou as pessoas não estão propriamente afim de atacar grandes prosas de autores não consagrados, o que também éprovável, ou as pessoas acordaram tarde porque sendo Domingo, dia do Senhor, a coisa está mas é para o descanço da cabeça e do corpo.

   Ou seja, o que devia ter feito, se a febre da escrita não me tivesse toldado o discernimento, era ter metido o desgraçado do artigo na gaveta, entregando-o como fez Marx a um dos seus, sim, valiosos manuscritos  que então pôs ao dispôr  da " crítica roedora dos ratos" por ter dúvidas da sua eficácia, completude e oportunidade.

   Nunca é tarde para aprender com os erros. Doravante, e até que novo ímpeto escriturário me assalte, vou passar a escrever, diariamente ou coisa assim, coisas que já fazia, apontamentos breves sobre ainda não sei o quê. Talvez, se houver engenho, coisas divertidas, sérias, filosofias, políticas, eu sei lá. Vamos tentar suprimir o supérfluo e agarrar o essencial. Minimizar o texto e o contexto.

 

   Hoje tenho para vos apresentar um caso real (da ficção, gosto mais da científica). Passou-se a coisa numa escola secundária de província onde dei aulas. Um professor de Fisica e Química pediu, num teste, que os alunos caracterizassem a electrólise. Um dos alunos, provavelmente fraco a Português e duro de ouvido, escreveu: electrólise ... "é quando os electrões vão do cátodo para o ânus". O professor, desconfiado da suposta maldade, riscou ânus e escreveu ao lado. "só se for para o seu". Como se sabe ,em vez de ânus deve dizer-se ânodo. E julgo saber que, na realidade, os electrões dirigem-se do ânodo para o cátodo e não o contrário. Se calhar foi esta incorrecção que despertou a veia humorística do nosso professor incomodado com a falta de rigor científico do aluno. Confusões.

   O professor cometeu uma imprudência. Devia ter esclarecido se o aluno era do tipo de escrever tais "provocações", se o aluno sabia o que estava a escrever ou se era um caso comum, na época, de grossa ileteracia ou ignorância.

   Não sou partidário da humilhação como forma de ensinar ou educar quem quer que seja. Talvez o professor só quisesse fazer ironia, mas esta pode ser muito destrutiva. Não se ironiza só porque isso faz rir os outros. Não temos o direito de rir à custa das fragilidades de outrem. Sim, porque não havia nenhuma evidência que o aluno tivesse escrito aquilo por maldade. Se fosse o caso, então, sim, a atitude do professor estava justificada e a ironia passava a ser pedagógica. Quando não sabemos se o réu é culpado, damos o benefício da dúvida. A isto chama-se tolerância.

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