Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

oraviva

oraviva

25
Abr18

Dá Sporting na Dona Berta

publicado por júlio farinha

   Aos fins de semana e, por vezes, às quartas ou quintas, o pequeno Café da Dona Berta situado num tranquilo bairro de Mem Martins enche para se assistir aos jogos do Sporting. O jogo é servido num generoso écran e os presentes ocupam os seus lugares do costume, havendo alguns que não largam o balcão onde se bebe mais uma tacita de vinho e se petisca o pitéu do dia cozinhado com jeito e sabedoria pela Dona Berta.

Sou um dos sportinguistas que raramente perde o acontecimento citado. Não tenho Sport TV em casa e hoje não me arrependo de a não ter subscrito. É que tenho para mim que assistir a um jogo de futebol implica participação no espectáculo. Não concebo assistir a um desafio com as pantufas calçadas, isolado numa sala de estar, estendido num confortável sofá. Isso não é vida. O futebol não é coisa para se adormecer. Implica socialização, emoção colectiva, sofrimento partilhado. O futebol, sobretudo o do Sporting, é coisa para leões. Tanto para os que estão dentro, como para os que estão fora dos relvados. Em suma, ou se vai ao estádio ou ao café, em casa não.

Como sou só adepto, não frequento o magnífico estádio de Alvalade. E para ser franco, o Café marcha melhor com a minha personalidade e gosto de olhar, nos grandes planos da TV, os rostos e as posturas dos adeptos do Sporting. Um amigo meu refere-os como pessoas bonitas e civilizadas e distingue-os de outras massas que caracteriza como arruaceiros e relativamente feios de carácter. Eu acho que há gente boa em todos os clubes, como não pode deixar de ser. Só que no Sporting há mais. Por outro lado, as multidões ultrapassam, por vezes, os limites razoáveis do emocional o que induz comportamentos desnecessariamente agressivos e mal educados (o que não tem sido o caso no Sporting). Assim, tenho para mim que o Café ou as Casas do Sporting , onde as há, são os melhores espaços para assistir ao jogo do clube, quando não se pode ou não se quer ir ao estádio. Reconheço, não obstante, que todos os adeptos deviam acompanhar a sua equipa ao vivo e dar-lhe a força e o apoio que os jogadores merecem.

 

   Na Dona Berta encontra-se , invariavelmente, um grupo heterogéneo de fãs do futebol onde predominam, nos dias do Sporting adeptos seus. Chegada a hora, os olhos espetam-se no televisor e preparam-se todos para comentar, dialogar, opinar sobre as incidências do jogo.

   Por mim, entrego a defesa do Sporting ao Ti Jaquim que conhece de ginjeira os "infiltrados" na operação sporting - alguns benfiquistas que tentam fintar e desorientar os sportinguistas presentes. O Ti Jaquim foi atleta do nosso clube quando jovem. Já foi artesão, mas a vida não favorece a arte e dedicou-se ao ofício do estuque que ainda exerce, não obstante já estar na casa dos sessentas. O Ti Jaquim é daqueles que não se senta. Sempre com o balcão por perto vai intercalando o seu copito com o petisco do dia cozinhado com jeito e sabedoria pala Dona Berta. Gosta de dizer que o Sporting é a maior equipa do mundo por via dos inúmeros troféus conquistados nas modalidades amadoras. Quando a coisa corre mal para a nossa equipa filosofa: "as coisas não são como a gente quer, são como elas são".

   A meu lado, senta-se sempre o Sr. Conde, homem de trato fácil, bom. Cultiva a boa educação, a ironia e um saber feito da experiência dos seus quase 70 anos. Reformado da Petroquímica, foi e ainda é um revolucionário. Figura de primeira água da Comissão de Trabalhadores, onde se destacou como líder nato, levou porrada dos militares do Copcon, quem diria, porque "mijava fora do penico". Discute comigo, de igual para igual, actualidade e política. Conhece Marx, Engels e Lenine. Ainda há pouco, apareceu em cartazes que o anunciavam como cabeça de lista às eleições por um partido da extrema esquerda profunda. É que o sr. Conde levou a sério o dito do jovem Marx: "ser radical é agarrar as coisas pela raíz". O Sr Conde também é um ententido nas lides futebolísticas (pertence a uma rara casta de homens que são bons em tudo no que se metem). Conhecedor de tácticas e estratégias do jogo, vai dizendo quem é que se devia substituir , se se devia meter mais um ponta de lança, que era altura de se reforçar mais o meio campo, que o Bruno Fernandes devia apoiar mais as costas do Bas Dost, ou observa que o Gelson está a ficar sem pernas. O Sr Conde também faz figas por debaixo da mesa quando o árbitro marca um penálti ou livre contra o Sporting e acredita que o Patrício há-de defender a coisa.

   Pelo meio de nós, senta-se o Ti Américo, portista dos quatro costados. Técnico de ar condicionado, reformado. É nosso amigo.Afirma mesmo, "se isto não for para o Porto que vá para o Sporting". Admira o meu filho que também é portista militante e que se desloca inúmeras vezes ao Porto para apoiar os seus, no Dragão. Nós, sportinguistas, retribuímos a simpatia e desejamos -lhe boa sorte quando o Porto joga, menos quando a coisa é contra o leão.

   Também há, no nosso grupo, uma figura sempre presente que desempenha um papel peculiar. Trata-se de um senhor do qual nunca soube o nome, de origem africana, tímido, reservado, e muito atento. Enquanto nos acompanha na visualização do jogo ouve, a partir do seu telemóvel e com a ajuda de fones para não perturbar, o relato de uma rádio. Como há uma décalage temporal entre as imagens televisivas e a realidade, o "speaker", como lhe chama o Sr Conde, consegue saber quando há golo enquanto nós ainda estamos a ver a bola no meio campo. Quando o speaker anuncia o golo, é uma festa antecipada. Mas há quem não goste, por achar que assim se retira emoção ao  espectáculo.Grandezas e misérias da tecnologia.

   Para além das pessoas que referimos como sportinguistas, distinguem-se também pela sua participação, o Sr. Ilídio ex-funcionário dos Smas, e o Sr. Simões, electricista reformado.

   É este pedaço de povo, representativo do que há de melhor e mais autêntico no conceito, que se reune na Dona Berta a pretexto do Sporting. Não há nada de alienante nestes encontros, bem pelo contrário. Ali, e então, se vivem momentos saborosos de emoção, de paixão, de vida enfim. Há momentos que perduram na memória porque se ratificam no real. Ainda temos muito a aprender com uma entidade que não é ficcional: o povo.

 

11 comentários

Comentar post

mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D