Do avesso
O vírus que por aí anda virou isto tudo do avesso. O medo e a ansiedade instalaram-se e todos os sectores da economia e da sociedade sofrem o maior trambolhão das últimas décadas.
Numa ida a uma grande superfície para comprar uma conservazita, só uma, para o jantar, deparei-me com uma situação caótica. Não havia lugares livres de estacionamento.
Lá dentro, perguntei a um funcionário onde era o sítio das tais conservas. Ele apontou-me para um corredor e disse, com um sorriso amarelo: "Costuma ser ali". E deparei-me com metros e metros de espaços simplesmente vazios. Outros corredores estavam igualmente depenados de produtos. A Azáfama era grande, uma chusma de clientes assoberbados deitavam mão de tudo e mais alguma coisa.
Acabei por almejar uma lata de feijoada à transmontana e preparei-me para ir à caixa. À frente de cada uma delas formavam-se filas intermináveis com pessoas de olhar preocupado, com carros literalmente a abarrotar de produtos. Tive sorte de encontrar uma caixa automática com meia dúzia de clientes. Saí, e fui jantar o tal enlatado que me bastou para compôr o estômago. Acompanhei a iguaria com pensamentos e concluí que nunca tinha visto uma coisa assim. Talvez o cenário seja parecido com um estado de sítio, uma guerra, um terramoto ou outra catástrofe do género.
Também pensei, paradoxalmente, que a coisa está a ter efeitos benéficos economicamente. O preço do petróleo baixou drasticamente, as bolsas, para meu gáudio, colapsam, os jogos de futebol não rendem milhões e os preços da restauração vão baixar. Ou, seja, acabamos por gastar menos e poupar mais.
Do que foi dito, não se insere que não esteja apreensivo com a situação e longe de mim a intenção de brincar com coisas sérias. Confio nas autoridades de saúde - menos que nos políticos - e louvo as suas prescrições pedagógias. Devíamos olhar com atenção para países e territórios como Macau onde foram tomadas medidas colectivas de grande alcance. Ali, barrou-se o caminho à proliferação ou mesmo entrada do novo vírus. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo da China Continental, apesar de estar a diminuír o número de infectados, e de Itália. Para aqueles povos onde se têm registado óbitos devido à doença vai o meu respeito. Em honra desses países, decido não incluír neste post a habitual música. Que Portugal, onde a infecção é territorialmente assimétrica, reduza, a prazo, a zero o número de contagiados.
