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06
Abr18

Educar o educador

publicado por júlio farinha

A educação é o "acto de educar", instruír e disciplinar a aprendizagem de valores, costumes e conhecimentos entre gerações. É um acto eminentemente social (Hubert) e cultural.

   A educação formal visa, nomeadamente, através do ensino escolar, formar os jovens. Quando se fala de formação contínua (formal e/ou informal) estamos sobretudo a tratar de educação de adultos ao longo da vida. Neste último caso, ao qual se dá cada vez maior importância, vislumbramos grandes benefícios para a longevidade dos respetivos utentes, para além de constituír uma rica fonte de atualização de conhecimentos produtora de mais-valias nos domínios profissional e realização pessoal.

 

   A História da Educação confunde-se com a origem da humanidade. No entanto, um dos principais testemunhos que chegaram até nós data dos tempos da Grécia Antiga, nomeadamente a partir do século V a.c. e é, pois, contemporâneo do aparecimento do conceito de Paideia. Paideia significava "criação dos meninos". Esse "criar" referia-se ao ensino de Gramática, Matemática e Filosofia, entre outras matérias diversas, visando a formação de cidadãos completos, perfeitos e justos aptos para a liderança. Paideia era, então, o ideal de formação geral para a intervenção social. A este propósito, pese embora a falta de consenso dos filósofos, o contributo dos sofistas não foi despiciendo.

 

   A educação é necessária porque o ser humano possui, à nascença, uma dimensão dualista. Por um lado, possui instintos de animalidade e, por outro, pensa e pensa-se a si mesmo. Ou seja, se um homem não for educado desenvolve, sobretudo, a dimensão animal ou tem tendência a adaptar-se àquilo que o rodeia. Não desenvolve espírito crítico. A história do menino abandonado na selva e que adoptado por macacos  desenvolveu a forma de comunicação dos símios, é elucidativa. A educação é necessária porque sem ela não se adquirem conhecimentos, valores e comportamentos humanos. A dualidade de que se falava atrás tende, essencialmente, para a animalidade. Parece que esta se sobrepõe à capacidade intelectual. Por isso, a educação - na medida em que "ataca" os instintos - aparece como algo antinatural, violento. Será por esta razão que os pedagogos e educadores modernos valorizam a  dimensão lúdica e prazerosa no processo de ensino/aprendizagem? Como os antigos gregos, os homens do Renascimento, a Filosofia das Luzes e as correntes progressistas da modernidade, trilhará a educação os futuros caminhos da socialização, da cidadania e do conhecimento?

 

   De acordo com estas perspetivas, quem pode e quer ser educador? A resposta parece óbvia. O educador do amanhã tem que querer sê-lo. Em segundo lugar, tem que ter o perfil e a formação requerida. Há-de ser um ser social, cidadão de corpo inteiro, justo, democrático, ético, lógico, pedagogo e senhor de muitos e integrados saberes. Não tem que ser um supereducador. Basta que seja competente. E, já agora, tem que gostar muito da sua profissão. Por causa destas exigências, o "velho"educador tem que ser educado. A formação contínua é uma necessidade pública e pessoal. 

   Novos tempos, novo paradigma. Os educadores têm que se preparar para a viragem. Temos que ter consciência  do impacto que o "novo" tem sobre o "velho" conhecimento. Este representa ignorância real, aquele é um desconhecimento aparente. Aquele que, por via do trabalho intelectual, se aproxima da verdade, tem a sensação que, afinal, nada sabe. O verdadeiro conhecimento traz uma espécie de paradoxo; "sei que nada sei". (Sócrates). A teoria da Douta Ignorância de Nicolau de Cusa assinala algo de semelhante: quanto mais se conhece, mais dúvidas se nos colocam em relação à proximidade  da verdade. Esta passa a ser de "precisão inapreensível" (N. Cusa).

 

   Preparados para a assunção da certeza que o nosso conhecimento é relativo, tenhamos a coragem de aceitar respeitosamente a educação como um bem essencial. Ela trata do espírito da mesma forma que os serviços de saúde se ocupam do corpo. Manda o pragmatismo dizer que, embora o saber não traga felicidade (Kant), a ignorância é mãe da bestialidade.

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