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26
Mai18

Liberdade para José Diogo

publicado por júlio farinha

 

 

  Corria o ano de 1975. No dia 25 de Julho desse ano, realizou-se em Tomar o primeiro e único julgamento popular estruturado que a História regista.

 Pouco tempo antes, havia ocorrido um incidente no Alentejo entre o operário agrícola José Diogo e um latifundiário abastado, ex-legionário, de nome Columbano Monteiro. A imprensa da época relatou o incidente da seguinte forma: um dia, José Diogo que se encontrava desempregado e com família para alimentar, dirigiu-se a casa de Columbano que lhe franqueou a entrada. Conta-se que se desentenderam, e uma das razões desse desencontro terá sido o facto do operário não ter tirado o boné quando falava com o senhor -  provavelmente julgando-se senhor feudal com direito absoluto sobre o servo José Diogo. Enxovalhado, José Diogo, para quem o 25 de Abril era para ser levado a sério, puxou de uma navalha (que todos os homens alentejanos usavam para cortar e comer a bucha) e enfiou-a, apurou-se, na barriga do ex-patrão. Este viria a falecer dias depois em Lisboa. José Diogo foi acusado do crime de homicídio.

   O jornal " A Voz do Povo", órgão central da UDP, divulgou, por vezes entusiasticamente, o feito de José Diogo e chegou a escrever, inflamadamente, sobre a morte de Columbano Monteiro: “Agora já não faz mal a ninguém, foi saneado da face da terra”.

   A justiça “burguesa” preparava-se para condenar o trabalhador agrícola, mas a UDP agarrou o assunto como se fosse uma bandeira. O José Diogo não era um mero e odiento assassino, foi adoptado como herói e exemplo da luta antifascista. Ele era um símbolo. Condenar os latifundiários (que ainda não estavam, naquela altura, a ser “ocupados”) e exaltar os trabalhadores e o povo era, naquela circunstância, o grande esteio da política da UDP.

   O poder “burguês” marcou uma audiência do julgamento para Tomar, longe do Alentejo e de Lisboa onde as ondas revolucionárias não favoreciam a acção da justiça “antiga”. Pensaram que Tomar era um sítio pacífico, conservador, onde nada acontecia e onde se poderia fazer um julgamento sem percalços. Mas em Tomar já se fazia sentir o efeito mobilizador da UDP e FEC (ML) que, através das suas organizações locais, se encarregaram, nas vésperas, de difundir panfletos  porta a porta e junto das fábricas de papel, de madeiras, de fiação e dos bairros pobres, apelando à comparência do povo no tribunal para exigir a libertação do operário alentejano. Inscreveram palavras de ordem nas paredes do sacrossanto tribunal “burguês”,exigindo a libertação sem condições de José Diogo. De Lisboa, de outras zonas do distrito de Santarém e do Alentejo viriam camionetas cheias de assalariados, operários e revolucionários da UDP.

   A sala de audiências do tribunal de Tomar, que tem uma bela acústica, ficou nesse dia 25 de Julho de 1975 cheia como um ovo. Quando os juízes “oficiais” entraram na sala onde, “por segurança”, não se encontrava José Diogo – não fosse o povo libertá-lo - uma figura que nunca é mencionada mas que foi o verdadeiro herói do julgamento popular, entrou em cena. Chamava-se José Alcobia (e há muito que partiu).

   Quando os juízes entraram na sala de audiências, José Alcobia ergueu-se acima de toda a multidão e, de punho cerrado e firme, gritou fazendo um eco de arrepiar: “Liberdade pra José Diogo!" -  no que foi imediatamente, e durante largos minutos, secundado pelos justiceiros populares.

   Não houve desacatos ou agressões no protesto. Os juízes não foram incomodados, não foram desrespeitados, não foram insultados nem menorizados. O povo e os revolucionários presentes eram contra o fascismo e a favor da revolução – não havia nada de pessoal na sua intervenção.

   Adiado o julgamento “oficial”, sem que os juízes soubessem porque não tinham trazido o réu para o julgamento, determinou o tribunal “burguês” a libertação condicional de José Diogo sob uma caução de 50 contos, quantia que viria rapidamente a ser reunida por subscrição popular.

   Entretanto, formar-se-ia um júri que poria à votação da assembleia popular presente, que não arredava  pé, o seguinte veredicto: determina-se a absolvição do José Diogo e condena-se, a título póstumo, o latifundiário Columbano Monteiro. Foi aprovado por unanimidade e aclamação.

   Nessa tarde, uma delegação popular saída da assembleia deslocou-se à  prisão de Leiria, para onde por “razões de segurança” tinha sido transferido o José Diogo. Nem na prisão de Tomar, onde se de diz que chegou a estar, se considerava o operário em segurança. Pagou-se a caução e levou-se o José Diogo para Lisboa onde já se preparava a realização de um grande comício no Campo Pequeno.

   O Campo Pequeno estava cheio naquela mesma noite. Quem mais conseguiria mobilizar, em horas, tanta gente para encher o Campo Pequeno? É que na altura ainda não havia redes sociais.

   Depois de iniciado o comício, com as competentes palavras de ordem, deu-se a palavra ao herói José Diogo. Foi, obviamente, muito aplaudido, apesar de ser uma pessoa simples a quem o fascismo negou instrução. No final da sua intervenção, punho ao alto, gritou, para embaraço da multidão: “viva a social-democracia!”. Alguém da mesa lhe deve ter dado uma corretiva cotovelada e ele emendou: “viva a democracia social!”. Do mal, o menos.

   Pela imprensa, disponível na Internet, sabe-se que José Diogo viria a ser definitivamente julgado, anos depois, pela justiça “normal” no Tribunal da Boa-Hora onde foi condenado a seis anos de prisão. Como já tinha cumprido grande parte desse tempo encarcerado aguardando julgamento, saiu em liberdade poucos meses depois.

   José Diogo faleceu em 2016 no seu Alentejo.

 

 

 

 

 

2 comentários

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    júlio farinha 27.05.2018

    Assim foi. O estruturado está a mais. Se é a isso a que se refere, obrigado.
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