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oraviva

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16
Mai18

Mãe

publicado por júlio farinha

   Ó minha mãe minha mãe

   Ó minha mãe minha amada

   Quem tem uma mãe tem tudo

   Quem não tem mãe não tem nada

   (Quadra popular recuperada por José Afonso)

 

 

   Diamantina, Mantina para a avó, foi uma mãe extremosa e muito amiga dos seus seis filhos. Não conhecendo uma só letra, não sabia sequer assinar o  seu nome. Mas o amor encerra fantásticos segredos. Criou os filhos à base de valores tão tradicionais quanto eficazes e sob uma cultura e sabedoria populares que dispensavam soberbamente grandes adornos e nobres e fúteis erudições. Não se sabe bem que voltas dá a educação, naquelas circunstâncias em que Mantina formou as suas três raparigas e os três rapazes. Só se sabe que a prole vingou todinha na vida. O mais rebelde de todos foi o “caga no ninho” mas que se fez à vida levando a peito a exigência da mãe. Estuda,Zéi, estuda.     O“caga no ninho”, durante os sete anos de estudo na escola secundária da cidade mais próxima, percorreu nos primeiros cinco anos, a pé, a distância de quatro quilómetros na ida e outros tantos de regresso à aldeia. Até que um dia o pai lhe comprou uma bicicleta, aliviando-lhe a penitência. O Zéi preparou-se e ingressou numa instituição de ensino médio, em Lisboa, onde frequentou parte do curso de electrotecnia e máquinas. A convicção entretanto formada, como tantos jovens dos fins da década de sessenta, de que devia dizer não à guerra colonial, levou-o a um exílio de um ano em França e na Holanda. Lá se fez operário para ganhar o sustento e estudou a língua e a cultura dos franceses anfitriões. Em 74 envolveu-se com o 25 de Abril e não teve tempo para formação académica senão após a década de oitenta. Após a suspensão das lides partidárias, tornou-se professor e estudante trabalhador serôdio. Hoje, exibe com orgulho, mas sem vaidade, duas licenciaturas e um curso de mestrado. Costuma dizer que tudo isso o deve à mãe que não sabia uma letra.

   Mantina tinha um lema. Era preciso dar ordem à vida, afirmava convenientemente, quando a vida exigia que se seguisse em frente, resolvendo problemas, organizando a vontade e lutando por vida melhor. Mantina não só dizia, fazia. Não simulava, enfrentava. Não parava, caminhava. O seu dar ordem à vida implicava labuta, muito suor e sacrifício.Trabalhava nos campos comprados pelo ti Jaquim com o dinheiro ganho e amealhado nos cinco anos que penou, como operário, nos caminhos de ferro da França para onde emigrara no início do século vinte.

   Lá nas terras da aldeia, Mantina dedicava-se à horta, à  sacha, à cura da vinha, à ceifa da madura ceara, à cava e à apanha da azeitona quando Dezembro se chegava. O utensílio que Mantina mais usava, taco a taco com os homens, era a enxada. Naqueles tempos passados não havia tractores, motores e outros objectos que aliviassem as dores.   Um exclusivo de Mantina era a rega da horta. A água, que corria nos regos, era tirada do poço com a ajuda da mula que girando à volta do engenho fazia emergir a água potável e a canalizava para onde fazia falta. Enquanto se esperava que as águas seguissem o seu caminho, saciando a sede dos legumes e outros futuros alimentos, Mantina colhia da horta o que era preciso para ir à mesa.

   Às sextas feiras era dia de praça na cidade. Na véspera, colhiam-se os legumes e outros produtos da horta destinados à venda no mercado semanal. Enchiam-se então os cestos das citadas iguarias e carregava-se a carroça, que não havia cá carros ou carretas. De manhã, manhãzinha, toca a andar que é preciso chegar cedo para apanhar um bom lugar para a venda. Estimulada a besta, ia a carroça célere com as mãos da mãe na arreata pelos caminhos de terra batida ao encontro das senhoras que no mercado, não tardariam a aparecer frente à mãe e seus produtos. Mantina vendia tudo antes do almoço. Já tinha a sua fiel clientela. Antes de arrumar os cestos vazios na carroça, a mãe deitava a mão aos bolsos da bata e contava os escudos apurados. Depois, na companhia do ti Jaquim e, por vezes do “caga no ninho”, era o tempo de se comer uma deliciosa sopa na taberna do mercado, acompanhada por uma acabada de fritar posta de peixe empurrada por um naco de broa. Barriga composta, os intervenientes na história dirigiam-se à mercearia do costume onde havia lugar ao reabastecimento. Mantina dirigia a encomenda e aviava-se de arroz, massa, bacalhau, açucar, sal, petróleo, fósforos, café e demais coisas que a terra não dava.

   Regressados a casa, Mantina daria o pasto à besta, o feno às ovelhas, os legumes aos coelhos,  o milho às galinhas e o destilado aos porcos. Preparava-se a janta, também por aquelas bandas chamada ceia, à base de sopa de couves com feijão (a melhor das sopas que os filhos e netos haveriam de comer) e talvez se aprontasse umas batatas com um naco de conduto, bocado de toucinho  tirado da salgadeira onde repousavam os destroços do porco criado com as melhores alimentações para fazer bons presuntos e magras costeletas.

,   Ainda antes de fazer oitenta anos, Mantina silenciou-se e nunca se saberá quantas vezes se imaginou em terras distantes. Acometida de grave doença, “trombose” explicou desinteressadamente a medicina, Mantina foi à cama e lá ficou, imóvel, calada, inerte, totalmente dependente. Olhava as visitas com suposta impaciência de quem quer revelar ou transmitir algo. Os filhos, os netos e os amigos desejavam muito poder ouvi-la, mas não tinham disso poder. Em vão esperaram durante quase seis anos de presumível grande sofrimento. Mantina não só se manteve calada como resolveu deixar-nos sem aviso, num certo longo e quente dia de um já distante Agosto.

 

 

 

 

Quem não tem mãe não tem nada

Quem a perde é pobrezinho

Ó minha mãe minha mãe

Onde estás que estou sozinho

   (José Afonso)

 

 

 

 

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