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12
Jun18

Professores em luta

publicado por júlio farinha

   A greve às avaliações marcada pela maioria dos sindicatos da Plataforma foi antecipada por um recém-criado sindicato que se distanciou dos demais. Esta iniciativa não é consensual. Não se esperou pela data marcada para o início das greves a partir de 18/6 e, pegando-se na disponibilidade e mobilização natural dos professores para a luta pela recuperação do tempo de serviço roubado, avançou-se com uma greve solitária que está a decorrer.

   Uma Plataforma unitária com mais de 20 sindicatos onde se encontram duas federações tem uma força que um só sindicato não tem, pese embora a sua legitimidade, vontade e determinação.

   A iniciativa tem aspectos positivos e negativos. Positivos, porque lançou a base da grande luta que se prevê a partir da próxima semana. Foram pioneiros os professores que aderiram, tendo-se aferido os pontos fortes e fracos do combate próximo. Há que elogiar as muitas centenas de profissionais que sem logística alguma têm sido a infantaria corajosa de um exército que se apronta para ir à guerra. Tenho, por eles, admiração.Negativos, porque se lançou alguma confusão na classe que abriu caminho para o aparecimento de alguns “indecisos” que procuram aberta ou encapotadamente comprometer não só a greve que ora decorre como aquela que terá lugar a partir de 18/6.

   Há que, desde já, retirar ensinamento e ver como se desconfiguram os argumentos que, entre os nossos, se levantam em defesa do abandono do campo da luta.

   Em primeiro lugar, convém desmontar a opinião de que os professores andam a reboque de uma das principais federações que integram a Plataforma. Se é certo que esta organização tem as suas prioridades marcadas e nem sempre luta por aquilo que só interessa aos professores, também é verdade que não se deve passar um atestado de menoridade aos outros sindicatos e federações que possuem, como se sabe, grandes diferenças entre si. A diversidade de posições e interesses lá estão para impedir hegemonias. O múltiplo dentro do uno justifica-se, na circunstância, pela defesa da maior aspiração dos professores desde há muitos anos a esta parte. Em suma, é difícil conceber um rebocador de um grupo tão grande e heterogéneo de organizações.

   O segundo argumento é que prováveis compromissos, que até podem incluir o próprio governo (via “geringonça”), levam os sindicatos ao amolecimento na luta contribuindo para a desmobilização da classe. Por exemplo, pergunta-se porque é que a Plataforma não marcou as greves às avaliações do 9º ano – o que teria um impacto maior que as dos restantes anos. Não sei responder a essa pergunta. Ponho a hipótese de ser necessário tempo para organizar e lançar datas das greves. Posso discordar de muita coisa na actuação dos sindicatos, mas sei que os de maior dimensão são organizações sérias e ponderadas que não comprometem o sucesso das lutas com decisões irresponsáveis ou menos cuidadas. Penso que a maioria dos professores estima que os seus representantes sejam entidades à altura da importância da classe.

   Em terceiro lugar, argumenta-se que a greve retira dinheiro aos professores que a fazem. É verdade. Mas neste caso, quanto se perde se não se recuperar os tais perto de dez anos de serviço?

   A maior parte destes argumentos são desculpas de mau pagador. Não querem fazer greve porque os seus interesses não são os da maioria dos docentes. Ou, que querendo aquilo que os grevistas querem, querem tê-lo sem fazer greve. São os oportunistas. Há também aqueles que, provavelmente, estão na profissão errada. E há aqueles que sendo bons professores pensam demasiado nos prejuízos que a greve pode provocar a terceiros. São honestos mas estão errados. Precisam de ser esclarecidos. 

   Finalmente, há as convicções, o foro íntimo insondável a respeitar. E há também a ideologia, o partido, a carreira, a posição. Interesses. Normalmente, estas variantes não defendem sequer o direito à greve, à indignação. A estes apetece dizer que haverá valores de ordem superior a tudo isso. Que há liberdade de pensar por si. Há a dignidade.

   A luta actual dos professores é uma luta inteira pela autonomia que se quer para os nossos e para os outros. É a demanda da valorização da profissão construtora de uma escola decente. É uma luta com futuro. Em nome dos alunos e dos nossos filhos.

 

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