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oraviva

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19
Mai18

Refazer

publicado por júlio farinha

 

 

   Há tempos, escrevi um pequeno artigo intitulado "Fazer e desfazer", o qual suscitou uma critica, enviada por e-mail,  por um grande amigo que andou literalmente ao meu colo e quando me quer visitar não precisa de pedir licença. Tem sempre a porta aberta.

Para melhor compreensão do assunto, e do debate que encetámos, vou republicar, de seguida, o texto para poupar o leitor à consulta do mesmo no blogue.

 

          Fazer e desfazer

 

      Ontem, ao passar em sentido inverso por duas senhoras que conversavam, ouvi, involuntariamente, a seguinte declaração que me soou a aforismo: "se está feito, não há nada a  fazer". Pensei com os meus botões e concluí: se se fez e está mal feito, desfaça-se e faça-se diferentemente. Até acertarmos. Não há nada de irremediável. A não ser a morte, por enquanto. 

 

  ( Doravante, chamo ao meu querido amigo comentador de interlocutor. Eu serei o autor.)

 

   Interlocutor:   " Há algumas coisas que não são fáceis de desfazer. Por exemplo, quando comunicas algo a alguém, "está feito". A menos que tenhas uma máquina do tempo, não podes voltar atrás e "descomunicar" o que comunicaste. Não podes apagar essa informação do cérebro do outro.

   A Internet também apresenta um caso interessante. Quando publicas algo, como por exemplo no teu blogue, rapidamente perdes o controlo sobre essa informação. Mesmo sendo que tens pleno controlo sobre o teu blogue, podendo editar ou até mesmo apagar conteúdo no mesmo, o facto é que o conteúdo originalmente publicado vai ser replicado noutros sites e motores de busca, e raramente desaparece por completo. Para mim, isso é uma virtude da plataforma (é virtualmente impossível censurar conteúdo), mas muitas pessoas não estão conscientes disso quando colocam material online, e pensam que têm controlo sobre o mesmo quando não é o caso."

 

   Respodeu o autor:   " Vistas as coisas pelo teu prisma, tens toda a razão. Pouco tempo depois da publicação do pequeno post, já me assaltava a suspeita da inconsistência e fragilidade da minha "tese". Do ponto de vista lógico, a "tese" não era verdadeira. Não era universalmente válida. De facto, ao contrário do que afirmo, há coisas que depois de feitas não têm remédio, Resta-me a defesa de considerar a minha asserção, não à luz da lógica, mas encará-la como imagem. Logicamente, não tem ponta por onde se pegue. A minha "tese" é voluntarista e procurava destacar a importância de acreditar que não nos devemos conformar com o erro e poderíamos valorizar a reconstrução na vida e nos sonhos. Como tu bem concluíste, a reconstrução não é sempre possível. A conversa das duas senhoras, parecendo fatalista é, afinal, logicamente verdadeira. A nós, resta-nos a poesia. Obrigado".

 PS:  um "resto" de lógica podia encontrar-se na seguinte interpretação: quando se faz mal e se quer emendar o erro, pode-se sempre fazer de novo, refazer ou fazer por cima. Estaríamos em presença de um "remediar" que não apagaria o que ficasse por baixo, mas talvez o pudesse substituír. Seria como termos uma má versão e uma menos má. Mas haveria sempre o problema da consciência. Isto é muito difícil. O melhor seria, talvez como sugeririam as senhoras, conformar-nos, arcar com as consequências do erro e pagar a dívida.

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