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oraviva

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08
Jun18

Ser e parecer

publicado por júlio farinha

“Vale mais sê-lo do que parecê-lo”

                                                                                                                                                                                                                                                                                               

   A literatura erudita e filosófica e a cultura popular trataram o tema da oposição entre o ser e aparência em grande extensão e profundidade.

   Platão pensou e reflectiu imenso sobre aquela relação. Para ele, o mundo em que vivemos - o mundo sensível – não é senão uma cópia imperfeita do mundo da verdadeira realidade – o mundo inteligível ou das ideias.

   Para Platão, a grande missão do homem é a de, pela via intelectual, ascender ao superior mundo da ideia, libertando-se, simultaneamente, do corrompido mundo sensível ou das aparências. Ou seja, o homem comum que vive na ignorância, nas trevas, tem que se libertar e ascender à luminosa dimensão do ser.

   O caminho apontado pelo grande filósofo para a passagem do mundo de baixo (aparência) ao mundo de cima (ser) não é fácil, pois o homem passa demasiado tempo no desvirtuado mundo aparente. O hábito de estar preso numa caverna tolda-lhe a visão da luz e custa-lhe aceitar a verdade. Essa visão não é alcançavel pelos olhos, mas sim pela razão.

   Temos assim que se exige esforço e trabalho intelectual para a libertação da prisão onde os sentidos conservam, num conforto desconfortável, os homens de carne e osso. É preciso coragem e dedicação do pensar para se abandonar o mundo da corrupção e ir ao encontro do mundo da verdade descomprometida, livre e pura.

   Uma outra abordagem da dicotomia ser-parecer brota da cultura popular. O aforismo “As aparências iludem” chama a atenção para o equívoco dos juízos, onde não é raro tomar-se a parte pelo todo. Alguns juízos, precipitados, têm a sua génese no senso comum e são, muitas vezes, enganadores devido ao preconceito e ao vício do juíz. Na tomada invertida do ser e do parecer, diz-se, por exemplo, que em política o que parece, é. Por aqui se vê a nefasta influência dos juízos do senso comum que apresentam o parecer como critério de certeza. No caso em apreço, talvez fosse mais conveniente e certeiro dizer-se que o que parece não é.

   Os juízos do senso comum baseiam-se na maledicência, no superficial, no aspecto, na imagem, no politicamento correcto, e não na substância. Assim, nos enganamos com tanta frequência.

   Mas deixemo-nos, por enquanto, de filosofar (os filósofos e seus aprendizes são uns chatos).

   O poeta popular algarvio António Aleixo deixou-nos, numa das suas quadras, a crítica mais penetrante aos juízos de opinião e, no mais inteligente bom humor, afirma:

 

            “Sei que pareço um ladrão

            Mas há muitos que eu conheço

            Que sem parecer o que são

            São aquilo que eu pareço”

 

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