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oraviva

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10
Jul18

Os afectos e os votos

publicado por júlio farinha

   Num texto a que chamou, e bem, os afectos não são neutros, Amato desmistifica, no seu blog, aquilo que é um péssimo hábito de quase todos, digo eu, os chefes desta pobre nação – o de se nomearem a si próprios presidentes de todos os portugueses. 

   Marcelo, para não variar, não é, ao contrário do que quer fazer passar, presidente de nós todos. Não é meu e demonstrou, recentemente, não o ser dos professores para os quais não dirigiu um único gesto, já não digo de afecto, que isso na dureza da luta actual da classe soaria fraco, mas de compreensão. Nada. A não ser uma bajulatória aproximação à tese gaspariana do não há dinheiro adoptada pelo bicéfalo Costacenteno. 

   Ninguém foi capaz de demonstrar, até hoje, que os professores não têm razão. Nem o governo que só deita mão do inquinado argumento da falta de dinheiro, nem o PSD que, na mira do voto, dá uma no cravo outra na ferradura. Este partido também tem - parece que está na moda - uma posição dupla: os professores têm direito à recuperação do tempo todo (D. Justino), mas a coisa é um problema do governo (Rio). Trocada a coisa por miúdos, não podem os professores contar com o voto a seu favor por parte dos laranjas.

  Os professores são 120.000, o que a multiplicar em média por mais 3 membros do  respectivo agregado familiar resulta, por alto, em cerca de 400.000 votantes. O PS, na sua obstinação, prepara-se para perder estes votos no próximo ano o que, no mínimo, significará dizer adeus à ambicionada e apetecível maioria absoluta.

   Mas o que leva, então, a um certo isolamento dos professores no seio da opinião pública e nas contas do presidente e dos partidos?

  A população escolar nos ensinos básico e secundário rondava em  2017 as 1.625.000 almas. Se multiplicarmos este número por 2 (pai e mãe), calcula-se que o número de pessoas dos agregados familiares com interesse directo na educação pública ronda, por defeito, os 3 milhões.

   Como se vê, na lógica do presidente Marcelo e dos partidos, que precisam de votos como de pão para a boca, os professores estão em franca desvantagem. Comparativamente, contam pouco. É por isso que são tão desprezados pelos partidos de massas, pelos órgãos de comunicação de massas, pelos comentadores de massas e pelos agentes relacionados não só com as massas, mas também com a massa, com os do pilim. Se existe alguma imprensa que ainda dá relevo à luta dos professores é justamente porque esta está a ser exemplar, cívica, determinada e impactante. Ao fim e ao cabo, fala-se na luta porque ela e o seu desfecho interessam a muita gente.

  A luta dos professores é incómoda. Tanto para o PS, como para o PCP, como para o BE e para o próprio Marcelo. Porque é incómoda para os seus eleitorados. É incómoda porque encaixa mal no jogo político-partidário e nas manobras e estratégias eleitorais. O ideal, para estas entidades alinhadas com interesses próprios, era que não houvesse tempo nenhum de serviço para recuperar. Mas há.

O PCP, que nos últimos tempos nos vem habituando a uma prática contorcionista notável - tudo por causa dos votitos – chumbou a eutanásia e votou contra o fim das touradas, num total desacerto com a filosofia marxista da qual se diz herdeiro. Daí,não sabermos verdadeiramente se o seu voto for necessário para os professores ganharem, o que é que vai acontecer. O importante, para o PCP, é que os seus sindicatos dirigiram a luta dos professores. O movimento é tudo (para os seus desígnios), o objectivo não é nada.O importante não é se os docentes recuperam efectivamente o tempo a que têm direito. O PCP só se salvará se os professores perderem no parlamento com os votos contra do PS e do CDS e com a abstenção do PSD. Aí, o PCP e o BE podem, respirar de alívio porque se terão safado: os professores perderam, mas não foi por causa deles.

   O BE já disse que está disposto a viabilizar o Orçamento 19. Ora, isso só acontecerá, no caso do PS continuar a opor-se aos professores, se o próprio BE deixar passar o Orçamento sem considerar a contagem citada. O que significaria traição.

 Os professores estão tão determinados a continuar as greves este ano lectivo, como a reiniciá-la no início do próximo. O seu descontentamento é tão grande como a sua vontade de vencer. E eles sabem quem lhes está a fazer esta maldade contra a qual se insurgem. Os professores condescendem com muita coisa. Com a traquinice dos seus alunos, com a arrogância de certos pais, com excesso de trabalho, com precárias condições de trabalho e com baixos salários. Não condescendem com injustiças e com a falta de dignidade a que a tutela os obriga. O ME tem desprezado e maltratado aqueles que devia acarinhar. Assim, quem semeia ventos, colhe tempestades. 

   Marcelo, Costa, Catarina e Jerónimo devem estar fartos de ouvir falar em professores. Estes só lhes estão a trazer chatices. Estas personagens não são de afectos para com a Razão e   para com os trabalhadores. São de a-feitos. Feitos com a popularidade, com as sondagens. Representam variantes matizadas de populismo. As suas palmadinhas nas costas, os beijinhos,os abraços,os sinais de suposta compreensão solidária por quem sofre são, afinal, mentira. Hipocrisia. Os afectos são outros tantos beijos de Judas para sinalizar os condenados perante os seus algozes. Dispensamos. Quem tem amigos destes, não precisa de inimigos.

 

11
Mai18

Afectos, educação e ensino

publicado por júlio farinha

   A partir de uma Conferência a que assistimos recentemente sobre formação de professores, ensino e educação, recuperámos a título de curiosidade um texto publicado em blogue de 2010 e cuja temática remete para a escola uma importante tarefa: fazer da escola um centro de difusão de amor, pois está relacionado com uma corrente “nova” a que convencionaram chamar de educação para os afectos.

   Esta corrente, adoptada pelo ME da altura como directora da acção escolar, atribuía à escola um papel estratégico de relevante importância e que consistia em formar afectuosamente os menores de idade que a frequentam. Ora, houve uma enorme confusão nas mentes e na caneta dos progenitores de tão arrojada promessa educativa. Relendo esse texto, extensíssimo como manda a tradição, encontramos pérolas, quando se fala em metas e prioridades da acção educativa . Assim temos: “promover a aquisição de técnicas elementares de pesquisa e organização de dados; desenvolver a capacidade de resolver problemas; facultar processos de aprender a aprender; desenvolver as capacidades de expressão e comunicação; etc,etc.”

   Tudo isto e muitas mais coisas parecidas seriam convenientemente embrulhadinhas  em muitos beijinhos e abraços distribuídos pelos professores, agora só educadores, e cuja principal tarefa seria a de seduzir os educandos numa inexplicável e súbita paixão. Ora, o que nos interessa sublinhar é que todos os objectivos chamados educativos acima citados não pertencem à educação, são propriedade do ensino. Os promotores da iniciativa de se tentar obrigar os professores a educar meteram-se numa grande alhada. Eles não perceberam que a escola não educa, ensina. Quem educa são os pais. São eles que dão beijinhos e abraços aos filhos. Os professores ensinam, transmitem conhecimentos. Educar, seja pelos afectos seja por outro qualquer estratagema, não se compagina com a profissão de professor. O professor sente respeito pelo aluno, o pai e a mãe amam-no. Entre pais e filhos há ligação afectuosa, contacto físico e espiritual. Entre professor e alunos há , no máximo, empatia, admiração, agradecimento, respeito. O professor tem deontologia mesmo que não formalizada em código. Os pais podem educar pelos e para os afectos, os professores não. Não se ensina para os afectos. Isso é, aliás, coisa que não se aprende. A  família sim, educa pelo e para o amor, na e pela tolerância, etc.

   Não há dúvida que para além de ensinar (transmitir) Português, Matemática, Filosofia, História, Física, etc. o professor pode dar uma mão, sob consentimento dos pais, em matéria de educação (favorecer a aquisição de valores culturais). Mas esta é uma acção subsidiária. De resto, existe uma disciplina transversal chamada educação para a cidadania, como há uma optativa de religião moral (que poucos escolhem).

   Para ensinar, o professor deve motivar, certo. Mas, mesmo para isso, existem técnicas e métodos, havendo lugar à intervenção da pedagogia e à capacidade comunicativa e de meios do professor. Tudo isto se faz com distanciamento na proximidade, ou seja com distanciamento afectivo. Por exemplo, o médico não se envolve com o doente, não o afecta mas também não é por ele afectado. Isso faz parte da deontologia. O médico perante o doente é um profissional. O professor não deve ser diferente.

   O ensino em Portugal está melhor do que aqui há alguns anos atrás. Isso deve-se ao bom senso e à inteligência dos professores que, ignorando as modas e modinhas dos burocratas e centralistas, têm resistido e seguido as suas convicções, saber e experiência. O ME tem os professores em má conta. Acha que eles são resistentes à (sua) mudança. Ainda bem para o ensino.

 

PS:   

   Em textos anteriores já aqui publicados, nem sempre distingui com suficiente clareza os conceitos de educação e ensino. Acontece que apresentei, por vezes, a educação como conceito geral que englobava o de ensino. Diz-se, por exemplo, que fulano foi educado nos melhores colégios para significar que ali obteve uma boa educação moral e beneficiou de um ensino de qualidade. A fronteira entre os dois conceitos é ténue, por vezes. A posição que hoje aqui deixo é a mais definitiva e peço desculpa se em textos anteriores misturei as coisas e falei indiscriminadamente em educação e em ensino como se fossem a mesma coisa. De facto não são.

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