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oraviva

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20
Out18

Mundo insondável

publicado por júlio farinha

 Não sou médico, técnico ou investigador em doenças como a Síndrôme de Asperger (espectro do autismo), Perturbação Obsessivo Compulsiva, depressão e outros distúrbios mentais incapacitantes.

  Para escrever estas linhas deitei mão da experiência que tenho tido com um jovem muito  próximo por quem nutro grande respeito, estima e admiração. Quando ele era pequenino, o pai deu-lhe o nome de Chão. É assim que aqui o tratarei.

   O Chão tem vinte e quatro anos, mas desde os onze meses de idade aprendeu o que é sofrer. Com essa idade foi operado ao coração a uma Tetralogia de Fallot – uma das mais graves anomalias cardíacas congénitas. A cirurgia não podia ser adiada, tal a gravidade do seu estado clínico.

   Na infância superior e na adolescência começou a revelar dificuldades de socialização. Foi perdendo os poucos amigos que fez no primeiro ciclo e, foi-se isolando dos grupos e evitando contactos sociais. Não fazia novos amigos.

   Na escola detinha-se, em aula, a fazer desenhos e rabiscos enquanto os professores se ocupavam da turma. Os professores, a braços com muitos alunos por grupo, "esqueciam-se" amiúde do Chão e muitos nunca reparariam que ali estava um aluno que não era como os outros. Apesar disso, durante toda a escolaridade, nunca os pais foram chamados por eventual mau comportamento do Chão. O Chão não só não era um problema para a escola como sempre se revelou um bom aluno. O Chão - vir-se-ia a apurar aos seus  dezasseis anos em testes psicológicos credíveis - tinha uma inteligência acima da média.

   Neste processo, nem toda a gente esteve desatenta. A professora do primeiro ano do primeiro ciclo alertou os pais para o facto dos comportamentos do aluno em contexto de turma serem um pouco "bizarros". Não obstante a sucessiva chamada de atenção dos pais para os sucessivos directores de turma sobre o problema, nada foi feito de substancial pelas escolas por onde sucessivamente o Chão ia passando. O Chão entrou em acompanhamento médico especializado a  partir dos dezasseis anos, mas o seu estado de saúde tem altos e baixos. Está diagnosticado com Síndrôme de Asperger e POC.

   Como muitos jovens da sua idade, o Chão não tinha, quando terminou o Ensino Secundário, uma ideia sobre o curso a seguir no superior. Como vinha de Humanidades e gostava de línguas, foi-lhe sugerido pelo pai que escolhesse Tradução, curso para o qual contava com 15,5 de média de ingresso. Foi colocado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, há seis anos. A sua condição de saúde só lhe permitiu, por enquanto, chegar ao meio da Licenciatura- que frequenta a tempo parcial.  A sua média actual das notas das cadeiras onde obteve aproveitamento é 14 valores.

   Uma das razões que leva o Chão a não frequentar mais regularmente a Faculdade está, para além das depressões recorrentes e às manifestações da POC, a um certo pavor pelas multidões, pelas enchentes nos comboios suburbanos de Lisboa e sobretudo a fuga ao contacto social e às interacções com colegas e professores. O Chão tornou-se um solitário. Penso (conjecturo) que ele tem a percepção que não é igual aos outros e sofre por causa disso. Ele acredita que os outros não o compreendem por causa dos mundos serem diferentes e as maneiras de comunicar a diferença  serem irredutíveis. O Chão não só sabe que é diferente como sabe que os outros o acham diferente. Por exemplo, não é raro que, por inabilidade social, o Chão tenha para com outrem um comportamento inadequado e estranho. Ele não faz por mal, mas a reacção de espanto ou desagrado do outro torna-se, no contexto, penalizante.

 O Chão deve ter, julgo, a percepção de que a vida dos outros inclui coisas que lhe não dizem respeito e por isso não se interessa por elas ou delas abdica. Sempre me interroguei pelo facto do  Chão não mostrar grandes afectos pelos humanos mas ser tão carinhoso e cuidadoso com os animais.

   O jovem de que falamos não é um alienado. Ele interpreta a realidade com muita acuidade e relaciona correctamente a muita informação que possui. Nas grandes conversas que temos, quando ele a isso está disposto, eu costumo sintetizar dizendo que ele tem um contencioso com a humanidade. O Problema dele é com pessoas, arrisco. Ele tem um nicho de interesses muito forte. Só que há muito que desistiu de levar os outros a comungarem desses mesmos interesses.

   O nosso jovem é um leitor compulsivo. Acabou de reler os dois volumes de D. Quixote e está a terminar a Origem das Espécies. Interessa-se por cinema, do qual é grande conhecedor. Gosta de música. Passa muito tempo na internet onde bebe e seleciona informação em abundância. Gosta de videojogos.

   O Chão tem limitações na recepção e envio da mensagem. Denota alguma imprecisão fonética, com um tom de voz monocórdico, e por vezes tem dificuldades reiteradas a nível da semântica. Por exemplo, nem sempre distingue o que é uma graça, uma ironia, uma metáfora. Para ele, todo o discurso é para entender literalmente. 

  O maior desejo dos pais era poderem penetrar na sua mente para o visitarem tal e qual ele é, para o compreenderem. Mas a isso não estão autorizados. Quando se lhe diz querer ajudá-lo, ele pressente e julga que não há, por enquanto, ajuda possível. O Chão sabe que o seu mundo não é transmissível. Apesar de o querer, ele não é capaz de nos comunicar o seu mundo. Está aqui o seu e o nosso drama.

   Quando se lhe fala dos médicos e na ciência em geral, ele descrê e afirma lucidamente que se conhece muito pouco acerca do funcionamento do nosso cérebro. Ao fim de tantos anos a tomar medicamentos, a experimentar, o jovem promissor que sonha ser tradutor tem, não se sabe como, de aprender a traduzir-se  numa linguagem comum a ser inventada.

   Entretanto, a cronicidade da sua doença vai ainda precisar de uma espécie de cuidados paliativos. A sensação de desalento invade regularmente os que o acompanham e dele gostam muito, mas a cada dia que o Chão nos aparece com um brilho calmo nos olhos, nós voltamos a acreditar e sentimos saudades imensas do Chão que, no passado, ainda sorria e nos surpreendia com um ou outro comentário irónico. Haverá um dia em que entenderemos o que agora desconhecemos. Os nossos mundos continuarão a ser diferentes, mas seremos uma unidade nessa diferença cimentada pelo amor e pela razão. Terás, então, Chão,traduzido a obra definitiva O Cérebro.

  

 

19
Mai18

Refazer

publicado por júlio farinha

 

 

   Há tempos, escrevi um pequeno artigo intitulado "Fazer e desfazer", o qual suscitou uma critica, enviada por e-mail,  por um grande amigo que andou literalmente ao meu colo e quando me quer visitar não precisa de pedir licença. Tem sempre a porta aberta.

Para melhor compreensão do assunto, e do debate que encetámos, vou republicar, de seguida, o texto para poupar o leitor à consulta do mesmo no blogue.

 

          Fazer e desfazer

 

      Ontem, ao passar em sentido inverso por duas senhoras que conversavam, ouvi, involuntariamente, a seguinte declaração que me soou a aforismo: "se está feito, não há nada a  fazer". Pensei com os meus botões e concluí: se se fez e está mal feito, desfaça-se e faça-se diferentemente. Até acertarmos. Não há nada de irremediável. A não ser a morte, por enquanto. 

 

  ( Doravante, chamo ao meu querido amigo comentador de interlocutor. Eu serei o autor.)

 

   Interlocutor:   " Há algumas coisas que não são fáceis de desfazer. Por exemplo, quando comunicas algo a alguém, "está feito". A menos que tenhas uma máquina do tempo, não podes voltar atrás e "descomunicar" o que comunicaste. Não podes apagar essa informação do cérebro do outro.

   A Internet também apresenta um caso interessante. Quando publicas algo, como por exemplo no teu blogue, rapidamente perdes o controlo sobre essa informação. Mesmo sendo que tens pleno controlo sobre o teu blogue, podendo editar ou até mesmo apagar conteúdo no mesmo, o facto é que o conteúdo originalmente publicado vai ser replicado noutros sites e motores de busca, e raramente desaparece por completo. Para mim, isso é uma virtude da plataforma (é virtualmente impossível censurar conteúdo), mas muitas pessoas não estão conscientes disso quando colocam material online, e pensam que têm controlo sobre o mesmo quando não é o caso."

 

   Respodeu o autor:   " Vistas as coisas pelo teu prisma, tens toda a razão. Pouco tempo depois da publicação do pequeno post, já me assaltava a suspeita da inconsistência e fragilidade da minha "tese". Do ponto de vista lógico, a "tese" não era verdadeira. Não era universalmente válida. De facto, ao contrário do que afirmo, há coisas que depois de feitas não têm remédio, Resta-me a defesa de considerar a minha asserção, não à luz da lógica, mas encará-la como imagem. Logicamente, não tem ponta por onde se pegue. A minha "tese" é voluntarista e procurava destacar a importância de acreditar que não nos devemos conformar com o erro e poderíamos valorizar a reconstrução na vida e nos sonhos. Como tu bem concluíste, a reconstrução não é sempre possível. A conversa das duas senhoras, parecendo fatalista é, afinal, logicamente verdadeira. A nós, resta-nos a poesia. Obrigado".

 PS:  um "resto" de lógica podia encontrar-se na seguinte interpretação: quando se faz mal e se quer emendar o erro, pode-se sempre fazer de novo, refazer ou fazer por cima. Estaríamos em presença de um "remediar" que não apagaria o que ficasse por baixo, mas talvez o pudesse substituír. Seria como termos uma má versão e uma menos má. Mas haveria sempre o problema da consciência. Isto é muito difícil. O melhor seria, talvez como sugeririam as senhoras, conformar-nos, arcar com as consequências do erro e pagar a dívida.

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