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oraviva

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11
Mai18

Afectos, educação e ensino

publicado por júlio farinha

   A partir de uma Conferência a que assistimos recentemente sobre formação de professores, ensino e educação, recuperámos a título de curiosidade um texto publicado em blogue de 2010 e cuja temática remete para a escola uma importante tarefa: fazer da escola um centro de difusão de amor, pois está relacionado com uma corrente “nova” a que convencionaram chamar de educação para os afectos.

   Esta corrente, adoptada pelo ME da altura como directora da acção escolar, atribuía à escola um papel estratégico de relevante importância e que consistia em formar afectuosamente os menores de idade que a frequentam. Ora, houve uma enorme confusão nas mentes e na caneta dos progenitores de tão arrojada promessa educativa. Relendo esse texto, extensíssimo como manda a tradição, encontramos pérolas, quando se fala em metas e prioridades da acção educativa . Assim temos: “promover a aquisição de técnicas elementares de pesquisa e organização de dados; desenvolver a capacidade de resolver problemas; facultar processos de aprender a aprender; desenvolver as capacidades de expressão e comunicação; etc,etc.”

   Tudo isto e muitas mais coisas parecidas seriam convenientemente embrulhadinhas  em muitos beijinhos e abraços distribuídos pelos professores, agora só educadores, e cuja principal tarefa seria a de seduzir os educandos numa inexplicável e súbita paixão. Ora, o que nos interessa sublinhar é que todos os objectivos chamados educativos acima citados não pertencem à educação, são propriedade do ensino. Os promotores da iniciativa de se tentar obrigar os professores a educar meteram-se numa grande alhada. Eles não perceberam que a escola não educa, ensina. Quem educa são os pais. São eles que dão beijinhos e abraços aos filhos. Os professores ensinam, transmitem conhecimentos. Educar, seja pelos afectos seja por outro qualquer estratagema, não se compagina com a profissão de professor. O professor sente respeito pelo aluno, o pai e a mãe amam-no. Entre pais e filhos há ligação afectuosa, contacto físico e espiritual. Entre professor e alunos há , no máximo, empatia, admiração, agradecimento, respeito. O professor tem deontologia mesmo que não formalizada em código. Os pais podem educar pelos e para os afectos, os professores não. Não se ensina para os afectos. Isso é, aliás, coisa que não se aprende. A  família sim, educa pelo e para o amor, na e pela tolerância, etc.

   Não há dúvida que para além de ensinar (transmitir) Português, Matemática, Filosofia, História, Física, etc. o professor pode dar uma mão, sob consentimento dos pais, em matéria de educação (favorecer a aquisição de valores culturais). Mas esta é uma acção subsidiária. De resto, existe uma disciplina transversal chamada educação para a cidadania, como há uma optativa de religião moral (que poucos escolhem).

   Para ensinar, o professor deve motivar, certo. Mas, mesmo para isso, existem técnicas e métodos, havendo lugar à intervenção da pedagogia e à capacidade comunicativa e de meios do professor. Tudo isto se faz com distanciamento na proximidade, ou seja com distanciamento afectivo. Por exemplo, o médico não se envolve com o doente, não o afecta mas também não é por ele afectado. Isso faz parte da deontologia. O médico perante o doente é um profissional. O professor não deve ser diferente.

   O ensino em Portugal está melhor do que aqui há alguns anos atrás. Isso deve-se ao bom senso e à inteligência dos professores que, ignorando as modas e modinhas dos burocratas e centralistas, têm resistido e seguido as suas convicções, saber e experiência. O ME tem os professores em má conta. Acha que eles são resistentes à (sua) mudança. Ainda bem para o ensino.

 

PS:   

   Em textos anteriores já aqui publicados, nem sempre distingui com suficiente clareza os conceitos de educação e ensino. Acontece que apresentei, por vezes, a educação como conceito geral que englobava o de ensino. Diz-se, por exemplo, que fulano foi educado nos melhores colégios para significar que ali obteve uma boa educação moral e beneficiou de um ensino de qualidade. A fronteira entre os dois conceitos é ténue, por vezes. A posição que hoje aqui deixo é a mais definitiva e peço desculpa se em textos anteriores misturei as coisas e falei indiscriminadamente em educação e em ensino como se fossem a mesma coisa. De facto não são.

11
Abr18

Ensino global

publicado por júlio farinha

   "Toda a velha sociedade está prenha de uma nova" (K.Marx). O futuro requer vir à luz do dia.

   Quando pensamos em educação surgem-nos perguntas pertinentes (algumas das quais de difícil resposta). Enlenquem-se e comentem-se algumas. Para haver mudança é necessário alterar os currículos? Não será que a "flexibilização" já em curso nalgumas escolas não é mais do que uma operação de cosmética feita à revelia das escolas - não será que anuncia a constatação de que "é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma"?  É possível aprender em turmas superlotadas?  Requere-se um ensino especializado ou "generalista"? Somos a favor ou contra a transversalidade? Um professor de Matemática tem que ser bom em Português, Línguas, Ciências, etc., ou "cada um no seu galho"? Quais são as causas da indisciplina na sala de aula? O ensino atual carateriza-se por ser desinteressante, livresco, expositivo e centrado no professor? Os professores perdem terreno para as novas tecnologias em termos de informação e comunicação? O nosso ensino está desligado da realidade, está "envelhecido"? Existe cansaço nos alunos e nos professores? Há falta de convicção e "alegria" dos professores por  não conseguirem estabelecer empatia com os seus alunos?

   A nosso ver, a maioria destas interrogações produz conclusões  afirmativas.

A ser assim, ousemos fazer duas propostas a pensar, sobretudo, nos 2º e 3º ciclos do Básico.

   Em primeiro lugar, sugerimos que se generalize e reformule aquilo que já se faz há muito tempo e em muitas escolas: reconfigure-se o conceito de "visita de estudo" e evitemos emprestrar-lhe o nome de passeio.

Assim, convidamo-vos, professores, a saírem das salas de aula e, com um plano bem elaborado, dirijam-se com os alunos, por exemplo, ao Castelo de Almourol em Tancos- Vila Nova da Barquinha.

A "visita de estudo e trabalho" será orientada pelo Diretor de  Turma e organizada por todos os professores da turma que serão previamente "motivados" para a iniciativa. Cada um adaptará a sua participação ao contexto: castelo medieval, Templários, Gualdim Pais, defesa territorial, rio Tejo,poluição, fauna piscícola do rio, gastronomia, passeio fluvial, subida para o castelo,  torre de menagem, ameias, etc. lendas árabes, encontro e comunicação com turistas estrangeiros,etc. Fiquem descansados com a informação localizada. Deixem-na para o barqueiro que vos levará até à ilha. Sabe tudo sobre o que interessa saber sobre o castelo e os Templários.

   Os docentes devem encarregar-se da produção prévia de pequenos textos e fichas de trabalho.

Posteriormente, haverá na escola um debate com todos os intervenientes sobre a atividade. Far-se-á um relatório sucinto da visita e das aprendizagens, havendo lugar a uma exposição com textos, fotografias, desenhos, passagem de vídeos, etc. No fim, divulgue-se o evento pelos meios disponíveis na escola e/ou na comunidade. E já está. Repita-se a receita várias vezes ao ano e vá-se apurando a confeção com novos ingredientes.

Nas restantes aulas, dadas em contexto da sala, aproxime-se a prática ao modelo das visitas: escolham-se temas e, à volta deles, fale-se e trabalhe-se Português, Matemática, Ciências, Educação Visual, História, etc. Promova-se um saber feito de diversidade.

 

   A segunda proposta é para ser concretizada na sala de aula, mas exige um condimento ainda não disponível - a existência de dois ou três professores por turma preparados para lecionar todas as disciplinas. De início, pensemos num professor encarregue das "letras", outro das "ciências", e um terceiro talvez bem dentro das "expressões". A ideia não é nova, mas exige que o grupo de alunos não ultrapasse a dezena. Neste caso, a sala de aula transforma-se numa sala de estudo e de trabalho. Os novos professores terão sido formados para "dar" (leia-se apoiar) todas as disciplinas do currículo e terão a liberdade, juntamente com os alunos de o alterar, conservando a matriz nacional. No fim de contas, estamos a falar de uma espécie de regresso ao 1º ciclo. Com uma diferença: cada sala disporia de um computador por aluno (em boas condições de funcionamento) para pesquisa  e trabalhos. Haveria psicólogos, assistentes sociais e técnicos de ensino especial para todos, bem como bibliotecas,  ludotecas, material de vídeo, de fotografia,etc.

 

   Provavelmente, tudo isto não passa de uma incursão nos campos do sonho mas, como dizia o poeta, este comanda a vida. Demos tempo ao tempo que novos tempos virão.

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