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oraviva

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25
Ago18

Ensinar como aprendemos

publicado por júlio farinha

   Ensinar é transmitir conhecimentos e desenvolver aptidões. Pressupõe um mestre, ou quem ou o que as suas vezes fizer. Logicamente, quem ensina fá-lo a alguém. O mestre domina o conhecimento, o aluno encontra-se no estado de relativa ignorância face à matéria a transmitir. Então, no acto de ensinar, existe um esforço de transmissão e um esforço de recepção. Tanto o mestre como o aluno trabalham para promover a ignorância ao estado do saber, da competência.

   Há que clarificar que não há ensino pelo ensino, nem se ensina tudo de uma só vez. Quem ensina, ensina algo a alguém, sendo necessário caracterizar o sujeito da aprendizagem, bem como o objecto ou conteúdo a aprender.

    Aprender matemática, por exemplo, exige clarificar previamente que parte dela se vai tratar e planear todos os factores que intervêm na acção da aprendizagem. Ao mestre, exige-se que domine os conteúdos a ensinar e esteja de posse de métodos e técnicas apropriados, bem como o domínio de processos adequados de comunicação tendo em conta o sujeito a quem se ensina. A matemática exige um especial esforço de compreensão da sua linguagem e respeito por regras próprias. Após o processo contínuo de compreensão e memorização das regras, pede-se ao aluno que exercite, que aplique o material teórico, resolvendo muitos exercícios. Errando, corrigindo, criando autonomia nos processos de progressão no domínio dos conteúdos e situações problemáticas. A matemática , seguindo estes caminhos, torna-se um jogo.

   Vamos fazer um exercício com um menino de três ou quatro anos. Vamos ensinar-lhe a contar até cinco. Elevemos uma das nossas mãos fechada e convide-se o menino a fazer o mesmo. Libertemos um dedo, por exemplo o mindinho, e convidemos o menino a imitar-nos. Pronunciamos devagar: UM. O menino repete várias vezes, seguindo-nos. De seguida, liberte-se o dedo seguinte (anelar) e dizemos: DOIS. Repetimos várias vezes ao mesmo tempo que o menino. Este procedimento prossegue até ao número cinco. Quando o menino tiver decorado a sequência dos números naturais de 1 a 5, recorremos à ajuda da teoria dos conjuntos, na sua forma elementar, para levar o menino a identificar 5 subconjuntos que possuam, sucessivamente, um, dois, três, quatro e cinco elementos, para desfazer o "dogmatismo" da contagem memorizada e aprender a trabalhar os números em concrecto.

   Numa folha de papel, desenho um círculo e lá dentro pinto uma bola. Pergunto ao menino quantas bolas estão dentro da linha circular. Espera-se que responda: UMA. De seguida, desenho outro círculo e lá dentro pinto duas bolas. Pergunto: quantas bolas estão dentro? Espera-se que responda: DUAS. E assim sucessivamente. Se houver erros, voltamos ao exemplo dos dedos, até que o menino acerte. Se quisermos, podemos chamar a atenção da criança que se dê conta que pimeiro vem o um, juntando-lhe outro um dá dois, juntando outro um ao dois dá três, etc. 

   Aprender a andar de bicicleta não tem nada de abstracto, nem há intervenção deliberada da memória, como a conhecemos, da matemática. Não se trata de uma operação  que envolva regras de cálculo conscientes. Então, não há nada de comum entre aprender matemática e aprender a andar de bicicleta? Há uma coisa muito importante em comum: a repetição. No segundo caso, a repetição não é exactamente do mesmo tipo que a do primeiro. Aprender a andar de bicicleta mobiliza competências motoras e de equilíbrio físico e emocional que se afirmam numa prática de meia dúzia de dias. Ambas as aprendizagens perduram no tempo. Quem aprendeu uma vez a andar de bicicleta, não se esquece mais. Quanto à matemática, por ser construída numa memória mais volátil, sofre, ao longo dos anos de inactividade, de alguma erosão. Mas quem aprendeu bem matemática um dia, não se torna inábil sem mais nem menos.

   Tive um professor de Lógica que, na sua erudição, nos ensinou uma coisa tão simples como verdadeira: "só a repetição nos dá conhecimento em profundidade" (M. Lourenço). Seja no ensino da Matemática, de uma língua estrangeira, da Física, na aprendizagem da circulação em bicicleta ou no exercício competente de qualquer ofício.

   Se aprendemos bem como nos ensinaram, então talvez não haja nada para inventar: ensinemos como aprendemos.

 

 

19
Mai18

Refazer

publicado por júlio farinha

 

 

   Há tempos, escrevi um pequeno artigo intitulado "Fazer e desfazer", o qual suscitou uma critica, enviada por e-mail,  por um grande amigo que andou literalmente ao meu colo e quando me quer visitar não precisa de pedir licença. Tem sempre a porta aberta.

Para melhor compreensão do assunto, e do debate que encetámos, vou republicar, de seguida, o texto para poupar o leitor à consulta do mesmo no blogue.

 

          Fazer e desfazer

 

      Ontem, ao passar em sentido inverso por duas senhoras que conversavam, ouvi, involuntariamente, a seguinte declaração que me soou a aforismo: "se está feito, não há nada a  fazer". Pensei com os meus botões e concluí: se se fez e está mal feito, desfaça-se e faça-se diferentemente. Até acertarmos. Não há nada de irremediável. A não ser a morte, por enquanto. 

 

  ( Doravante, chamo ao meu querido amigo comentador de interlocutor. Eu serei o autor.)

 

   Interlocutor:   " Há algumas coisas que não são fáceis de desfazer. Por exemplo, quando comunicas algo a alguém, "está feito". A menos que tenhas uma máquina do tempo, não podes voltar atrás e "descomunicar" o que comunicaste. Não podes apagar essa informação do cérebro do outro.

   A Internet também apresenta um caso interessante. Quando publicas algo, como por exemplo no teu blogue, rapidamente perdes o controlo sobre essa informação. Mesmo sendo que tens pleno controlo sobre o teu blogue, podendo editar ou até mesmo apagar conteúdo no mesmo, o facto é que o conteúdo originalmente publicado vai ser replicado noutros sites e motores de busca, e raramente desaparece por completo. Para mim, isso é uma virtude da plataforma (é virtualmente impossível censurar conteúdo), mas muitas pessoas não estão conscientes disso quando colocam material online, e pensam que têm controlo sobre o mesmo quando não é o caso."

 

   Respodeu o autor:   " Vistas as coisas pelo teu prisma, tens toda a razão. Pouco tempo depois da publicação do pequeno post, já me assaltava a suspeita da inconsistência e fragilidade da minha "tese". Do ponto de vista lógico, a "tese" não era verdadeira. Não era universalmente válida. De facto, ao contrário do que afirmo, há coisas que depois de feitas não têm remédio, Resta-me a defesa de considerar a minha asserção, não à luz da lógica, mas encará-la como imagem. Logicamente, não tem ponta por onde se pegue. A minha "tese" é voluntarista e procurava destacar a importância de acreditar que não nos devemos conformar com o erro e poderíamos valorizar a reconstrução na vida e nos sonhos. Como tu bem concluíste, a reconstrução não é sempre possível. A conversa das duas senhoras, parecendo fatalista é, afinal, logicamente verdadeira. A nós, resta-nos a poesia. Obrigado".

 PS:  um "resto" de lógica podia encontrar-se na seguinte interpretação: quando se faz mal e se quer emendar o erro, pode-se sempre fazer de novo, refazer ou fazer por cima. Estaríamos em presença de um "remediar" que não apagaria o que ficasse por baixo, mas talvez o pudesse substituír. Seria como termos uma má versão e uma menos má. Mas haveria sempre o problema da consciência. Isto é muito difícil. O melhor seria, talvez como sugeririam as senhoras, conformar-nos, arcar com as consequências do erro e pagar a dívida.

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