Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

oraviva

oraviva

31
Mai18

Temos que ser racionais

publicado por júlio farinha

   Anteontem, nascido provavelmente num lago próximo de nossa casa, não se sabe como nem porquê, um patito selvagem assomou ao nosso quintal. Estava coberto de penugem e ainda não possuía uma só pena. Ainda não voava, mas corria que nem um desalmado. Foi encontrado pelo João que o tentou agarrar para o recolher e proteger de eventuais predadores –a começar pelo felino , "Mia," que habita há quase dez anos connosco.

    O João pegou-lhe mas, devido à sua natureza selvagem, o patinho rebelde debateu-se nas mãos do rapaz que, receoso de o magoar, não o apertava com força suficiente para o reter. Aproveitando-se disso, o patito libertou-se e correu a sete patas para o jardim de uma vizinha onde viria a ser procurado pela mãe do João. Esta, ao mesmo tempo que procurava o fugitivo que a ludibriava constantemente, ligara o telemóvel para informar e pedir desculpa à vizinha de ter invadido os seus privados domínios. Na azáfama, esqueceu –se de desligar o aparelho enquanto corria atrás do patito lançando impropérios e alguns palavrões devidos à frustração. Tudo isto estava, então a ser comunicado, via telefone, ao pai e à irmã em Sintra, a 300 quilómetros de distância. O relato do João era poderoso e indescritível, tal era a minúcia e o humor com que comentava a tentativa de captura do pato. Só visto (ou ouvido, neste caso). O pai e a filha deliciavam-se, então, com a caricata e embaraçosa situação. A vizinha, senhora muito respeitável e de grande nível educacional estaria a ouvir, sem querer, a sra. doutora – como tratava a mãe do João - a dizer palavrões.

   Finalmente, o rebelde viria a ser apanhado. Em Sintra, discutia-se já o destino do pato. Em primeiro lugar, devia-se investigar se a mãe pata e os irmãos do fugitivo se encontravam naquele lago. De casa, informaram que, depois de uma visita e prospecção ao local, não se encontraram aí vestígios da presença da família do bravo. Punha-se de parte, até mais detalhada pesquisa, a solução mais natural e benéfica para o destino da pequena criatura - devolvê-la à mãe, seguindo o dito de "quem tem uma mãe tem tudo, quem a não tem não tem nada". É que o patinho não devia ter mais que uns dias e precisava urgentemente da mãe para o ensinar a comer e a sobreviver.

   Punha-se como possível, mas difícil, a tarefa de criar o patito em casa. De Sintra para o Algarve deu-se conta da pesquisa internet de como cuidar de pato bébé. Soube-se que a dieta dos patos bravos era à base de insectos, pequenos peixes e certas ervas não identificadas. Como raio se iriam arranjar esses bichos vivos e descobrir as ervas adequadas?

   Recolhido o pato, colocado que foi numa gaiola para o proteger das intenções inconfessáveis da "Mia" que não tirava os olhos dele, aquecido com um aquecedor, e dispondo da indispensável água, dirigiu-se a mãe a uma loja dos animais para se documentar melhor dos procedimentos e alimentos alternativos. O senhor da loja ofereceu-se para ficar com o patito bravo, pois tinha uma solução. Tinha na sua quinta, uma galinha com pintos (o nosso pato não era maior que um pintainho e não fazia quá- quá mas sim piu-piu). Era do parecer que a galinha adoptaria o patito e o ajudaria, como de filho se tratasse, a aprender a procurar comida e a defender-se dos predadores. A mãe não se decidiu logo por essa saída. Também o pai foi responsável pela indecisão. É que não se sentia confortável com a ideia de entregar o pato a uma mãe galinha.

   A internet alertava também para os inconvenientes de uma proximidade afectiva grande entre humano cuidador e pato cuidado. Lá se diz que excesso de afecto podia provocar dependência exagerada por parte do pato em relação ao dono.    Neste particular, a mãe deu conta da existência de um filme ("Voando para casa") em que uma ninhada de gansos domesticados por uma adolescente de 13 anos se habituaram de tal maneira à presença e atenção da menina que a seguiam, em fila indiana, para onde quer que ela fosse. Os animais super apaparicados não aprenderam a voar nem se interessaram por migrações próprias destes seres incrivelmente fofos. Foi preciso o recurso a um ultraleve para mostrar a experiência de voo à ninhada para, eventualmente, os animais se deslocarem para uma reserva de vida selvagem, algures no Canadá.

   Dos cinco membros da família a viver em comunhão, três eram a favor de ficar com o fugitivo, um era radicalmente contra e a mãe, pragmática (realista como se julgou) disse que não havia condições para se guardar o pato, porque para além de tudo havia lá em casa o tal felino de que já falámos. Acrescia ainda que não se conhecia suficientemente os processos e as garantias de sucesso na criação de criatura tão pequenina e selvagem. Disse ainda a mãe que era melhor ficarmos um pouco tristes agora do que chorarmos se um dia ele fosse embora ou comido por um predador.

   Seja como for, uma coisa é certa, não há lembrança de um acontecimento doméstico que tivesse mobilizado tanto o voluntariado e a atenção da família toda. Do seu lado, há anos que o pai não vivia um acontecimento tão simples e rico que lhe inspirasse tanta ternura e emoção. Por isso declarou a todos: "temos que ser racionais, o pato fica connosco".

   Hoje, o patito não pacece não ter a energia demonstrada nos dias anteriores. Suspeita-se, agora, que tenha sido capturado por predador e eventualmente ferido internamente antes de se ter libertado ou refugiado no nosso quintal. Se sobreviver, irá ao veterinário e se não se  descobrir o paradeiro da mãe, lá terá ele que ser entregue à galinha. Haja o que houver, já tem espaço disponível na memória de todos os que viveram o acontecimento.

16
Mai18

Mãe

publicado por júlio farinha

   Ó minha mãe minha mãe

   Ó minha mãe minha amada

   Quem tem uma mãe tem tudo

   Quem não tem mãe não tem nada

   (Quadra popular recuperada por José Afonso)

 

 

   Diamantina, Mantina para a avó, foi uma mãe extremosa e muito amiga dos seus seis filhos. Não conhecendo uma só letra, não sabia sequer assinar o  seu nome. Mas o amor encerra fantásticos segredos. Criou os filhos à base de valores tão tradicionais quanto eficazes e sob uma cultura e sabedoria populares que dispensavam soberbamente grandes adornos e nobres e fúteis erudições. Não se sabe bem que voltas dá a educação, naquelas circunstâncias em que Mantina formou as suas três raparigas e os três rapazes. Só se sabe que a prole vingou todinha na vida. O mais rebelde de todos foi o “caga no ninho” mas que se fez à vida levando a peito a exigência da mãe. Estuda,Zéi, estuda.     O“caga no ninho”, durante os sete anos de estudo na escola secundária da cidade mais próxima, percorreu nos primeiros cinco anos, a pé, a distância de quatro quilómetros na ida e outros tantos de regresso à aldeia. Até que um dia o pai lhe comprou uma bicicleta, aliviando-lhe a penitência. O Zéi preparou-se e ingressou numa instituição de ensino médio, em Lisboa, onde frequentou parte do curso de electrotecnia e máquinas. A convicção entretanto formada, como tantos jovens dos fins da década de sessenta, de que devia dizer não à guerra colonial, levou-o a um exílio de um ano em França e na Holanda. Lá se fez operário para ganhar o sustento e estudou a língua e a cultura dos franceses anfitriões. Em 74 envolveu-se com o 25 de Abril e não teve tempo para formação académica senão após a década de oitenta. Após a suspensão das lides partidárias, tornou-se professor e estudante trabalhador serôdio. Hoje, exibe com orgulho, mas sem vaidade, duas licenciaturas e um curso de mestrado. Costuma dizer que tudo isso o deve à mãe que não sabia uma letra.

   Mantina tinha um lema. Era preciso dar ordem à vida, afirmava convenientemente, quando a vida exigia que se seguisse em frente, resolvendo problemas, organizando a vontade e lutando por vida melhor. Mantina não só dizia, fazia. Não simulava, enfrentava. Não parava, caminhava. O seu dar ordem à vida implicava labuta, muito suor e sacrifício.Trabalhava nos campos comprados pelo ti Jaquim com o dinheiro ganho e amealhado nos cinco anos que penou, como operário, nos caminhos de ferro da França para onde emigrara no início do século vinte.

   Lá nas terras da aldeia, Mantina dedicava-se à horta, à  sacha, à cura da vinha, à ceifa da madura ceara, à cava e à apanha da azeitona quando Dezembro se chegava. O utensílio que Mantina mais usava, taco a taco com os homens, era a enxada. Naqueles tempos passados não havia tractores, motores e outros objectos que aliviassem as dores.   Um exclusivo de Mantina era a rega da horta. A água, que corria nos regos, era tirada do poço com a ajuda da mula que girando à volta do engenho fazia emergir a água potável e a canalizava para onde fazia falta. Enquanto se esperava que as águas seguissem o seu caminho, saciando a sede dos legumes e outros futuros alimentos, Mantina colhia da horta o que era preciso para ir à mesa.

   Às sextas feiras era dia de praça na cidade. Na véspera, colhiam-se os legumes e outros produtos da horta destinados à venda no mercado semanal. Enchiam-se então os cestos das citadas iguarias e carregava-se a carroça, que não havia cá carros ou carretas. De manhã, manhãzinha, toca a andar que é preciso chegar cedo para apanhar um bom lugar para a venda. Estimulada a besta, ia a carroça célere com as mãos da mãe na arreata pelos caminhos de terra batida ao encontro das senhoras que no mercado, não tardariam a aparecer frente à mãe e seus produtos. Mantina vendia tudo antes do almoço. Já tinha a sua fiel clientela. Antes de arrumar os cestos vazios na carroça, a mãe deitava a mão aos bolsos da bata e contava os escudos apurados. Depois, na companhia do ti Jaquim e, por vezes do “caga no ninho”, era o tempo de se comer uma deliciosa sopa na taberna do mercado, acompanhada por uma acabada de fritar posta de peixe empurrada por um naco de broa. Barriga composta, os intervenientes na história dirigiam-se à mercearia do costume onde havia lugar ao reabastecimento. Mantina dirigia a encomenda e aviava-se de arroz, massa, bacalhau, açucar, sal, petróleo, fósforos, café e demais coisas que a terra não dava.

   Regressados a casa, Mantina daria o pasto à besta, o feno às ovelhas, os legumes aos coelhos,  o milho às galinhas e o destilado aos porcos. Preparava-se a janta, também por aquelas bandas chamada ceia, à base de sopa de couves com feijão (a melhor das sopas que os filhos e netos haveriam de comer) e talvez se aprontasse umas batatas com um naco de conduto, bocado de toucinho  tirado da salgadeira onde repousavam os destroços do porco criado com as melhores alimentações para fazer bons presuntos e magras costeletas.

,   Ainda antes de fazer oitenta anos, Mantina silenciou-se e nunca se saberá quantas vezes se imaginou em terras distantes. Acometida de grave doença, “trombose” explicou desinteressadamente a medicina, Mantina foi à cama e lá ficou, imóvel, calada, inerte, totalmente dependente. Olhava as visitas com suposta impaciência de quem quer revelar ou transmitir algo. Os filhos, os netos e os amigos desejavam muito poder ouvi-la, mas não tinham disso poder. Em vão esperaram durante quase seis anos de presumível grande sofrimento. Mantina não só se manteve calada como resolveu deixar-nos sem aviso, num certo longo e quente dia de um já distante Agosto.

 

 

 

 

Quem não tem mãe não tem nada

Quem a perde é pobrezinho

Ó minha mãe minha mãe

Onde estás que estou sozinho

   (José Afonso)

 

 

 

 

mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D