Temos que ser racionais
Anteontem, nascido provavelmente num lago próximo de nossa casa, não se sabe como nem porquê, um patito selvagem assomou ao nosso quintal. Estava coberto de penugem e ainda não possuía uma só pena. Ainda não voava, mas corria que nem um desalmado. Foi encontrado pelo João que o tentou agarrar para o recolher e proteger de eventuais predadores –a começar pelo felino , "Mia," que habita há quase dez anos connosco.
O João pegou-lhe mas, devido à sua natureza selvagem, o patinho rebelde debateu-se nas mãos do rapaz que, receoso de o magoar, não o apertava com força suficiente para o reter. Aproveitando-se disso, o patito libertou-se e correu a sete patas para o jardim de uma vizinha onde viria a ser procurado pela mãe do João. Esta, ao mesmo tempo que procurava o fugitivo que a ludibriava constantemente, ligara o telemóvel para informar e pedir desculpa à vizinha de ter invadido os seus privados domínios. Na azáfama, esqueceu –se de desligar o aparelho enquanto corria atrás do patito lançando impropérios e alguns palavrões devidos à frustração. Tudo isto estava, então a ser comunicado, via telefone, ao pai e à irmã em Sintra, a 300 quilómetros de distância. O relato do João era poderoso e indescritível, tal era a minúcia e o humor com que comentava a tentativa de captura do pato. Só visto (ou ouvido, neste caso). O pai e a filha deliciavam-se, então, com a caricata e embaraçosa situação. A vizinha, senhora muito respeitável e de grande nível educacional estaria a ouvir, sem querer, a sra. doutora – como tratava a mãe do João - a dizer palavrões.
Finalmente, o rebelde viria a ser apanhado. Em Sintra, discutia-se já o destino do pato. Em primeiro lugar, devia-se investigar se a mãe pata e os irmãos do fugitivo se encontravam naquele lago. De casa, informaram que, depois de uma visita e prospecção ao local, não se encontraram aí vestígios da presença da família do bravo. Punha-se de parte, até mais detalhada pesquisa, a solução mais natural e benéfica para o destino da pequena criatura - devolvê-la à mãe, seguindo o dito de "quem tem uma mãe tem tudo, quem a não tem não tem nada". É que o patinho não devia ter mais que uns dias e precisava urgentemente da mãe para o ensinar a comer e a sobreviver.
Punha-se como possível, mas difícil, a tarefa de criar o patito em casa. De Sintra para o Algarve deu-se conta da pesquisa internet de como cuidar de pato bébé. Soube-se que a dieta dos patos bravos era à base de insectos, pequenos peixes e certas ervas não identificadas. Como raio se iriam arranjar esses bichos vivos e descobrir as ervas adequadas?
Recolhido o pato, colocado que foi numa gaiola para o proteger das intenções inconfessáveis da "Mia" que não tirava os olhos dele, aquecido com um aquecedor, e dispondo da indispensável água, dirigiu-se a mãe a uma loja dos animais para se documentar melhor dos procedimentos e alimentos alternativos. O senhor da loja ofereceu-se para ficar com o patito bravo, pois tinha uma solução. Tinha na sua quinta, uma galinha com pintos (o nosso pato não era maior que um pintainho e não fazia quá- quá mas sim piu-piu). Era do parecer que a galinha adoptaria o patito e o ajudaria, como de filho se tratasse, a aprender a procurar comida e a defender-se dos predadores. A mãe não se decidiu logo por essa saída. Também o pai foi responsável pela indecisão. É que não se sentia confortável com a ideia de entregar o pato a uma mãe galinha.
A internet alertava também para os inconvenientes de uma proximidade afectiva grande entre humano cuidador e pato cuidado. Lá se diz que excesso de afecto podia provocar dependência exagerada por parte do pato em relação ao dono. Neste particular, a mãe deu conta da existência de um filme ("Voando para casa") em que uma ninhada de gansos domesticados por uma adolescente de 13 anos se habituaram de tal maneira à presença e atenção da menina que a seguiam, em fila indiana, para onde quer que ela fosse. Os animais super apaparicados não aprenderam a voar nem se interessaram por migrações próprias destes seres incrivelmente fofos. Foi preciso o recurso a um ultraleve para mostrar a experiência de voo à ninhada para, eventualmente, os animais se deslocarem para uma reserva de vida selvagem, algures no Canadá.
Dos cinco membros da família a viver em comunhão, três eram a favor de ficar com o fugitivo, um era radicalmente contra e a mãe, pragmática (realista como se julgou) disse que não havia condições para se guardar o pato, porque para além de tudo havia lá em casa o tal felino de que já falámos. Acrescia ainda que não se conhecia suficientemente os processos e as garantias de sucesso na criação de criatura tão pequenina e selvagem. Disse ainda a mãe que era melhor ficarmos um pouco tristes agora do que chorarmos se um dia ele fosse embora ou comido por um predador.
Seja como for, uma coisa é certa, não há lembrança de um acontecimento doméstico que tivesse mobilizado tanto o voluntariado e a atenção da família toda. Do seu lado, há anos que o pai não vivia um acontecimento tão simples e rico que lhe inspirasse tanta ternura e emoção. Por isso declarou a todos: "temos que ser racionais, o pato fica connosco".
Hoje, o patito não pacece não ter a energia demonstrada nos dias anteriores. Suspeita-se, agora, que tenha sido capturado por predador e eventualmente ferido internamente antes de se ter libertado ou refugiado no nosso quintal. Se sobreviver, irá ao veterinário e se não se descobrir o paradeiro da mãe, lá terá ele que ser entregue à galinha. Haja o que houver, já tem espaço disponível na memória de todos os que viveram o acontecimento.
