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oraviva

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30
Abr18

Rumo ao sul

publicado por júlio farinha

   Quando o cansaço da labuta e da escrita ameaça o discernimento, nada como rumar às origens e fazer uma reaproximação ao convívio dos velhos amigos, conhecidas paisagens, cheiros e memórias.

   Aproveitando a circunstância do eminente aparecimento do feriado do 1º de Maio, este ano ancorado num fim de semana, pedimos dispensa às obrigações profissionais e rumámos a sul em direcção ao Sotavento algarvio onde se situa o nosso domicílio original. Algarvios por adopção, pois claro. Viemos para arrumar a casa, em todos os sentidos.

   A longa viagem de carro pareceu curta naquela noite de sexta-feira. Muita, variada e sugestiva conversa. Tu falas muito, diria a patroa em termos de balanço quando, a meio caminho, parámos para meter a bucha no bucho. Respondemos, na circunstância à crítica: é porque temos muito para dizer. Vaidades. Realmente, verdade, verdadinha precisa-se de menos conversa, menos escrita e mais acção. Há muita gente a falar e poucos a fazer, como se pode inferir de uma alocução de Ferro Rodrigues no 25 de Abril.

   Chegados, já noite fora, à nossa casa que ajudámos a construír nos intervalos das funções docente numa escola próxima, revisitámos o passado. Ainda cansados, alguma tristeza consentida na mínima bagagem, mas reconfortados por chegarmos ao que era nosso. Emoções sem nostalgia, lúcidas, mas mesmo assim carregadas de saudade.

  Sem que nos dessemos conta, visualizámos no espírito e na memória a figura de Nicolai,um engenheiro mecânico ucraniano que obrigado a procurar trabalho fora de portas, nem que fosse nas obras para ganhar o pão, se sujeitou, como tantos outros, ao trabalho desqualificado em países como o nosso, em virtude do descalabro que ocorrera a Leste. Conhecemos Nicolai, quando num incerto dia do ano de 2000 lhe demos boleia, na 125. À pergunta sobre o que fazia em Portugal, respondeu que acabava de chegar da apanha do morango em Espanha e aventurava-se a procurar no Algarve o que houvesse para ganhar o sustento da família que havia deixado lá para os lados de Lviv,cidade turística, conhecida como a "pequena Paris", grande centro universitário e cujo centro histórico é, desde 1998, classificado pela UNESCO como património mundial. Nicolai estranhava que cidades como Lisboa tivessem tão poucos monumentos.  

   Empreguei Nicolai porque precisava de alguém , mesmo sem experiência na construção, que tivesse o engenho e a inteligência prática para aprender a acabar a nossa casa cuja construção tinha ficado a meio, quando o improvisado e manhoso arquitecto feito construtor me gastou todo o dinheiro acordado, no previsto orçamento, sem nos deixar a casa feita.Nicolai pareceu-nos ser esse tipo de gente que é boa em tudo no que se mete. E não nos enganámos. Ele foi,para além da vocação para o saber aprender fazendo, uma das pessoas mais honestas e bem formadas que até agora conhecemos. Diligente, pontual,inventor de soluções era,apesar da sua elevada formação académica, de uma grande humildade e dignidade. Neste 1º de Maio, que é o nosso segundo dia preferido, prestamos a nossa homenagem a este jovem engenheiro operário que, antes de partir já havia inscrito o seu legado e exemplo no chão, nas paredes da nossa casa e no espírito de quem a habita. Viver neste domicilio é viver com o nosso convidado: Nicolai. Nunca lhe agradecemos o suficiente ter contribuído decisivamente para o levantamento do alojamento de uma família inteira.  

   Quando demos por terminada a construção, grande parte dirigida através de administração directa, foi a vez de Nicolai subir de categoria e ingressar nos estaleiros navais de um Engenheiro amigo que rapida e solidariamente o integrou dos quadros da sua empresa onde continuou a ser trabalhador exemplar. Nicolai era um jovem homem forte e aparentemente saudável,mas a vida, por vezes, deixa-se escrever por linhas muito tortas. Numa fria manhã de inverno, Nicolai faltou, pela primeira vez, ao trabalho.Tinha sucumbido vítima de uma  síncope cardíaca no duche da apertada casa de banho anexa a um modesto quartinho que tinha alugado.

 

   No segundo dia de permanência na nossa habitação, cedo erguidos, caminhámos pelas veredas e trilhos das matas das proximidades, revendo o lugar, cheirando a resina dos mansos ou bravos pinheiros, ouvindo sinfonias da passarada, ou deitando o olho aos patitos bravos navegando os lagos. Detalhes a que a natureza se presta. Detalhes que afinal enchem aquilo que em nós há de irrepetível na espécie: o coração e a mente.De tempos a tempos, o silêncio era suavemente cortado pelo chiar de uma bicicleta de um conquilheiro com as suas artes da pesca no suporte. Havia estrangeiros que connosco se cruzavam e nos saudavam gentilmente com um "bom dia" ou um "olá" com sotaque. Seguiam caminho e levavam consigo pedaços de alegria, sobriedade,civilização. Sentimos pena de ser,às vezes,tão rudes e incompletos. De não termos as virtudes e os bons costumes dos povos do norte.

   Regressados a casa e feitas algumas tarefas administrativas e coisas práticas que alguém tem de fazer, fomo-nos deixando dormitar pedaço aqui, pedaço acolá. Até que chegou a hora do Sporting. Naquele sábado, já não no distante Café da Dona Berta ,mas ainda assim num café. Este, inscrito no espaço da urbanização. O Sporting ganhou, e bem. Nós também, jogando contra o infundado desânimo. Amanhã é outro dia, vai ser o dia do trabalhador. O dia de Nicolai, de milhões por esse mundo fora e também o nosso,porque não?

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