Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

oraviva

oraviva

13
Out18

O dinheiro é o ópio do rico

publicado por júlio farinha

   Karl Marx, que a troco de uma intensa vida de trabalho intelectual, praticamente gratuito, não nadava em riqueza, disse um dia: " Nunca ninguém escreveu tanto sobre o dinheiro tendo tanta falta dele".  Sua mãe, que não partilhava a  paixão  pelos ideais do filho, desabafou em jeito de azeda e cínica resposta: "Em vez de escrever O Capital, mais valia que o produzisse."

 

   Shakespeare, por sua vez, designaria  o  dinheiro por "vil metal". Esta é uma das expressões mais felizes e certeiras para atribuir ao citado condimento do capitalismo. A vilania está na redução das necessidades humanas ao poder de um fetiche, de uma entidade perversa de cariz sobrenatural, mágica e trágica.

 

   Tanto os pobres como os ricos são escravos desse fantasma. Para os despossuídos, ele é o senhor absoluto. Significa escravidão. Submissão. O vil metal é o feiticeiro da discórdia e da infelicidade no lar do pobre. Casa onde onde não há pão , todos ralham e ninguém tem tazão.

 

   Para os possuidores, o dinheiro representa uma prisão construída à custa dos pobres. O rico é vítima da desonra da exploração a que sujeita os que nada ou pouco têm, coisificando aquilo que devia ser enobrecido: o trabalho  Ele está preso à condição de quem depende dos bens que o dinheiro compra. O dinheiro é o ópio do rico. A bancarrota de um rico é a sua perdição, a sua própria morte. Pois, ele é o dinheiro e os bens que possui. E o dinheiro não tem alma. 

 

    O vil metal é necessário? A resposta é não. Podíamos viver sem ele? Sim. Historicamente, o nosso antepassado sobreviveu e era feliz enquanto colector, caçador, pastor e agricultor. Colhia da natureza o que lhe fazia falta e trocava excedentes e produtos entre si.

 

   É isto uma visão simplista, romântica e idealista? Provavelmente. Mas não faz mal irmos às origens – lá onde se vivia em simbiose com a natureza e havia respeito pelos próprios animais que se caçavam. Havia então,empiricamente,a noção que hoje não temos de que o planeta é frágil e exige cuidados nossos.

 

   A ciência multidisciplinar que hoje existe dá como provável o colapso, porque insustentável a prazo, dos sistemas sociais, políticos e económicos que temos. A história conhece períodos de revisitação e actualização do passado, como foi o caso do Renascimento  -  tão fértil em cultura, ciência e humanidade.

 

   Preparemos os vindouros na revisitação da felicidade perdida e na antecipação do futuro refeito. Para além deste tempo, outros tempos derivados virão.  Novos, feitos hoje a partir dos velhos. É que toda a antiga e madura sociedade, ao caír sob o desenlace dascontradições em que se envolveu, dá necessariamente origem a uma sociedade de nível superior. É uma questão de tempo e da acção dos homens. Como tão bem disse Ortega & Gasset: eu sou eu e as minhas circunstâncias. (*)

 

(*) Esta citação foi-me recordada pelo blogue de P.P. no seu perfil. Obrigado.

 

06
Out18

Triângulo obtusângulo: Costa , Centeno, Brandão

publicado por júlio farinha

   O que preocupa os professores e bloqueia a tão urgente qualidade e bem-estar na educação? 

 

   É o desgaste, o cansaço e a doença. É a injustiça na recuperação do seu tempo de serviço, a burocracia incomensurável, o excessivo número de alunos por turma e a consequente ausência de qualquer trabalho individualizado. A enorme extensão da carreira, – que a maior parte dos docentes nunca irá cumprir na íntegra -,os currículos e os programas mastodônticos e ingovernáveis, a incompetência técnica, teórica e prática do ME ,  a irresolúvel miopia política deste governo e a sua falta de seriedade ética.

 

   O peso dos malefícios que se abatem sobre os professores e a escola denota, por parte dos responsáveis, uma fraca ou mesmo inexistente moral e afecta e compromete a educação, que está em declínio, prejudicando também os alunos e o progresso social e económico. O futuro, a seguir-se este caminho, não é risonho. O futuro político e da democracia em Portugal podem estar em perigo.

 

   O mal-estar na educação e a irresponsabilidade deste governo e dos  anteriores tem igualmente produzido uma impreparação cultural, cívica, cognitiva e comportamental dos alunos, por vias da deficiente educação familiar e social a que os jovens têm sido sujeitos, o que tem implicações na disciplina nas aulas, nos estudos e aquisições escolares, colocando sérias e crescentes dificuldades aos professores. 

 

   Por tudo isto, os professores têm perdido sucessivamente autoridade e autoestima e estão cada vez mais sozinhos na tarefa de ensinar. A sua prolongada e intensa preocupação vai de mão dada com as compreensíveis e por vezes firmes exigências de dignidade, justiça, direitos e recompensa. Sem isto, os professores são, e serão sempre, uma classe com instrução e valores, mas pobre. Tão pobre e incompleta como a sociedade e o regime que os despromovem. 

 

Nota:   Num triângulo obtusângulo qualquer não há nenhum ângulo recto

mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D