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30
Nov18

Professores - triunfo da Razão

publicado por júlio farinha

A recente Resoluçao aprovada no âmbito da discussão do OE 19 recebeu os votos sim de todas as bancadas da Assembleia da República, excepto, claro, da do PS que deu o dito por não dito em relação a uma outra aprovada há meses com teor semelhante a esta última. Na primeira, os deputados socialista tinham-na aprovado. Agora fizeram uma pirueta digna de exímios artistas de circo.

   Esta última resolução obriga o governo a renegociar. Estiveram bem os deputados do CDS, PSD, Verdes, BE e PCP. Continua a ser obrigatório para o governo discutir com os sindicatos o modo e os prazos da recuperação do tempo congelado. Na íntegra.

 

  Lembremos que o Governo fez sair, na véspera do dia mundial do professor e de uma manifestação dos docentes, um Decº Lei infame e provocador determinando, como se fosse o dono disto tudo, que o tempo que oferecia, à força, aos professores, era nem mais nem menos do que 2,5 anos. Ficaram mais de 7 de fora. O governo e o Me (é tudo a mesma coisa) revelaram, mais uma vez o desprezo a que votam aos professores. Sabe-se que a anterior negociação foi um simulacro, um ímpeto de patifaria desses desgovernantes nos quais muita boa gente ainda acredita.

 

   Na Madeira , uma parte do território nacional, foi seguido o princípio da devolução de todo o tempo ainda não contado. Foi uma atitude política de valor na qual o PS, que também o há cá (ou talvez não) votou a favor. Mário Nogueira caracterizou assim a acção:  é sustentável, uniformizador e é totalmente recuperador. Esta circunstância levou uma professora do quadro a dizer-me que era de pensar em concorrer para aquelas amenas paragens onde os professores são ouvidos e respeitados. Sendo que lá há uma grande falta de docentes.

 

   Por cá, é reconfortante saber que o respeito e a consideração pelos trabalhadores do ensino ganha adeptos nos mais insuspeitos quadrantes. É um sinal positivo para o futuro. Tiro, pois, o chapéu aos deputados que propuseram e votaram sim na Resolução. Não me cabe a mim ajuizar, e não me interessa especular, sobre eventuais motivos adjacentes ao voto. O que está feito, feito está. A Resolução reabre um caminho que o governo fechou. O PS  e o seu Costa devem ter ficado desolados com aquilo que este temia: maioria negativa.

 

   O PS pode não ter maioria absoluta nas próximas eleições. Pode até perdê-las. Para já, reparo que o PS se enrola, não progride intelectualmente, não tem ideias. Mete-se em touradas, o Alegre parece assanhado com a Ministra da Cultura, ninguém sabe dizer das granadas roubadas e para que efeito eram, o ministro do ambiente é uma anedota, insistem e desistem da exploração do petróleo em Aljezur, as clientela são mais que muitas, e o bolo tem pretendentes a mais, graça o oportunismo e o carreirismo, o prenúncio de uma deriva, enfim.

 

   No que a eles diz particularmente respeito, os professores, estou certo, darão uma resposta à altura das trapalhadas do governo. É certo que a Razão ainda não triunfou em pleno: falta recuperar todo o tempo até agora confiscado. Para já, temos nos professores uma oposição qualificada. Quase todo o Parlamento está do lado da Razão e esta está com os docentes. O governo e o PS perderam credibilidade perante os professores e da opinião pública esclarecida. A imprensa independente e livre tem simpatia pela tenacidade, pelo orgulho e dignidade demonstrada pelos professores.

 

  Há professores que não acreditam nas potencialidades da Resolução que manda o governo negociar e dizem que se trata de uma maneira de protelar o problema. Sem dúvida que isso é possível. Muito dependerá da atitude e da disposição dos professores e dos sindicatos no processo. O governo ao aprovar o famigerado Decreto dos 2,5 anos não quis protelar. Quis dizer: acabou o barulho, acaba-se já com a guerra. Eles desistem. Eles estão cansados e fartos dos sindicatos. Quanto à Resolução, o PS não ficou nada contente. Foi uma humilhação ter ficado a falar sozinho.

 

   O dito Decreto -lei, ao que sei, ainda não foi promulgado pelo PR. Se este o fizer, está a desrespeitar o Parlamento que acaba de aprovar por larguíssima maioria a recente Resolução semelhante àquela que o governo ignorou.

   Caros professores, (eu, aposentado ao fim de 40 anos de serviço, sinto-me sempre professor), sei que algum desânimo vos percorre devido a muitos  lutas que não produzem resultados. Tal como deixei aqui escrito, há muito tempo, no artigo Professores – contornos da razão, o copo tanto enche que transborda e por vezes fica  a meio. É minha convicção que o copo se vai encher de novo. É a dialéctica das coisas e quem o diz é aquele militante detentor de alguma experiência em intensa intervenção passada no domínio social e político. Preparai-vos para a eventualidade da existência de escolhos e reveses. O caminho pode não ser sempre a direito mas, como opinava Pitágoras,  o caminho mais difícil é o melhor. Permitam-me um conselho de velho: com bom senso, paciência e confiança no devir tudo se vai resolver. Contem com as próprias forças mas não deitem fora as ajudas, venham elas de partidos, dos sindicatos ou da imprensa. Não deixem que vos vençam pelo cansaço, nem troquem a Razão pelas emoções. Os professores são pessoas- Pessoas cultas e inteligentes. Força!

 

PS:  Sendo verdade que não se anda a pés juntos e que temos que dar um passo de cada vez, ponham (sobretudo os mais antigos) na agenda: reforma aos 36 anos de serviço independentemente da idade, sem penalização, após contagem integral do tempo devido e consequente reposicionamento na carreira.

 

 

06
Out18

Triângulo obtusângulo: Costa , Centeno, Brandão

publicado por júlio farinha

   O que preocupa os professores e bloqueia a tão urgente qualidade e bem-estar na educação? 

 

   É o desgaste, o cansaço e a doença. É a injustiça na recuperação do seu tempo de serviço, a burocracia incomensurável, o excessivo número de alunos por turma e a consequente ausência de qualquer trabalho individualizado. A enorme extensão da carreira, – que a maior parte dos docentes nunca irá cumprir na íntegra -,os currículos e os programas mastodônticos e ingovernáveis, a incompetência técnica, teórica e prática do ME ,  a irresolúvel miopia política deste governo e a sua falta de seriedade ética.

 

   O peso dos malefícios que se abatem sobre os professores e a escola denota, por parte dos responsáveis, uma fraca ou mesmo inexistente moral e afecta e compromete a educação, que está em declínio, prejudicando também os alunos e o progresso social e económico. O futuro, a seguir-se este caminho, não é risonho. O futuro político e da democracia em Portugal podem estar em perigo.

 

   O mal-estar na educação e a irresponsabilidade deste governo e dos  anteriores tem igualmente produzido uma impreparação cultural, cívica, cognitiva e comportamental dos alunos, por vias da deficiente educação familiar e social a que os jovens têm sido sujeitos, o que tem implicações na disciplina nas aulas, nos estudos e aquisições escolares, colocando sérias e crescentes dificuldades aos professores. 

 

   Por tudo isto, os professores têm perdido sucessivamente autoridade e autoestima e estão cada vez mais sozinhos na tarefa de ensinar. A sua prolongada e intensa preocupação vai de mão dada com as compreensíveis e por vezes firmes exigências de dignidade, justiça, direitos e recompensa. Sem isto, os professores são, e serão sempre, uma classe com instrução e valores, mas pobre. Tão pobre e incompleta como a sociedade e o regime que os despromovem. 

 

Nota:   Num triângulo obtusângulo qualquer não há nenhum ângulo recto

08
Set18

O absurdo desgoverno do ministério da educação

publicado por júlio farinha

   Com o fim do descanso estival que o ME e os sindicatos presentearam os professores, estes acabam por receber a notícia esperada. Não há descongelamento de todo o tempo de serviço confiscado.

   Do chamado braço de ferro havido entre o governo e os professores, o que é que restou? Uma exigência desmedida e absurda, nomeadamente através da imposição dos mais recentes trabalhos forçados  com os quais o incompetente e totalitário ME faz pagar a ousadia da dura e persistente luta dos professores.

   O burocrático e centralizado ministério da má educação, revanchista, acaba de impor brutalmente aos desamparados professores um antiprograma caótico a que chama flexibilização curricular que está a lançar a maior confusão nas escolas.

   Paralelamente, num outro desumano ataque, metade dos professores com baixa – que a ordem dos médicos diz ser justificada – são mandados, como de malfeitores se tratasse, de volta ao serviço. Esta medida é triunfalmente anunciada associando-a aos efeitos pecuniários.  A coisa permite o encaixe de uns milhões de euros que irão direitinhos para os sítios do costume:  fazer boa figura em Bruxelas, exibindo um défice de rico, e para ""ajudar" a manter os jobs dos amigalhaços do partido que mais corruptos tem produzido e protegido desde que somos democracia.

   Em suma, o partido do governo que o bom povo está, desgraçadamente, a apoiar, tornou-se vingativo, arrogante e prepotente. Os professores estão a ser espezinhados nos seus direitos e dignidade e há muitos que afirmam não poder suportar tal estado de coisas. É como se do ME nos chegasse um tal mau hálito que envenena o espírito civilizado da classe docente. O ensino, a educação e a cultura estão a ser envenenados na pessoa dos seus mais dignos actores.

   Quem escreve estas linhas orgulha-se de ter sido combatente pela liberdade e pelo socialismo no que estas causas  têm de genuíno. Mas não tenho pejo em afirmar que nem no tempo da Salazar e Caetano a educação foi tão mal tratada. Então, os professores eram respeitados e tinham estatuto, apesar de ser grande o analfabetismo.

   O 25 de Abril instaurou um ensino obrigatório para todos. Com esta medida, abriu-se a porta para um outro nível mais elevado de dignificação da docência. Contra ventos e marés, Portugal é, hoje, um país alfabetizado, com um bom índice de qualidade educativa e que se pode orgulhar de possuir um grande número de licenciados, mestres, doutorados e quadros reconhecidos, cá e lá fora, pela sua competência e valor. Este conjunto de académicos e técnicos são, em grande parte, fruto da acção dos nossos professores dos ensinos básico e secundário, desde o 1º ao 12º anos.

   Em nome desta realidade, e por respeito pelas convicções e promessas dos próprios, deixa-se aqui um repto aos grupos parlamentares e às direcções do PCP, BE e Verdes: não viabilizem o novo orçamento se não houver, por parte do governo, a garantia inequívoca de que respeita e cumpre o compromisso de contar todo o tempo de serviço congelado aos professores para progressão na carreira. Como está no vosso ideário, nunca se vende a alma ao diabo. Sabemos que não são daqueles que, na ausência de princípios, a vendem por um prato de lentilhas.

  

  

13
Jul18

Gostar de ensinar

publicado por júlio farinha

   A equipa multidisciplinar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, coordenada pela Historiadora, Investigadora e Professors Universitária Raquel Varela, recolheu e está tratando cerca de 15.000 inquéritos validados, feitos a professores de todos os níveis de ensino, excepto aos docentes do ensino superior, para ajuizar da condição emocional dos professores portugueses.

 

   Segundo Raquel Varela, os professores sofrem de burnout. Esta síndrome, afirma a investigadora, pode caracterizar-se sumariamente por três factores. A exaustão emocional, a falta de realização profissional e a desumanização.

 

   Aquilo que já se adivinhava, pelo conhecimento empírico, veio a confirmar-se:  75% dos inquiridos revelam índices elevados de esgotamento emocional e 48% apresentam sinais muito preocupantes de exaustão. Isto sem se contabilizar, na amostra, os 10.000 profissionais que se encontravam, à data do inquérito, de baixa médica, muitos deles com atestados de longa duração.

   O grupo de trabalho apurou que os principais motivos que levam os professores ao mal-estar e à doença de matriz psicológica são essencialmente a indisciplina dos alunos, a burocracia e a idade.

   Apesar destes factores, mais de 90% dos inquiridos declarou, ao arrepio das evidências, que gosta de ensinar. Será esta razão que leva os docentes a manifestarem o seu desconforto e frustração através da implosão. Ou seja, os professores não descarregam o seu mal-estar nos seus alunos. Suportam autonomamente o sofrimento que lhe traz o desempenho da profissão. Tire daqui, quem quiser, as devidas consequências quando se falar em dignidade, profissionalismo e deontologia dos docentes portugueses.

 

   Este estudo, e consequentes conclusões, merecia constar como preâmbulo de um outro estatuto da carreira docente, pois constitui um libelo acusatório contra os poderes centrais, burocráticos e desumanizantes. A classe docente não clama pela compreensão e o reconhecimento, em parte ausente, das famílias e da opinião pública, porque se basta a si prória, orgulhosamente, na certeza  do seu valor profissional e social. Afinal, os professores são dedicados, competentes, e esforçados. Gostam de ensinar. Não fossem as circunstâncias e os obstáculos externos adversos e dispensáveis, e os professores seriam  profissionais felizes.

 

  ( Informação recolhida em: Notícias de Seia, RTP3,  blog beatriz j a  e vídeo da Fenprof -Estudo sobre o Desgaste na Profissão Docente -  6/7/18 - https://www.youtube.com/watch?v=DOTz-I7oxgI)

 

  

04
Jul18

Um passo estratégico à retaguarda

publicado por júlio farinha

   As primeiras reuniões realizadas ao abrigo das sequestradoras instruções de um colégio que devia ser o primeiro a seguir a lei foram, certamente, um vexame para os professores que as não queriam realizar com o signo da ilegalidade e da irresponsabilidade pedagógica. Devem ter sido as reuniões mais tristes e humilhantes que os professores fizeram. O governo pode ter conseguido, trapaceiramente, atingido os seus intentos, mas cometeu um erro estratégico cujos efeitos lhe cairão em cima. O PS tornou-se definitivamente indigno da cruz no boletim de voto da esmagadora maioria dos professores.

   Tal como no início do problema da não consideração da contagem integral do tempo de serviço confiscado aos docentes, deixo aqui a minha solidariedade, ciente que nesse sentido me seguem muitos professores aposentados e cidadãos.

   A luta foi suficientemente longa e forte para que possa ser definitivamente derrotada. A História é feita de avanços e recuos e, enquanto permanecerem nas escolas aqueles que tão galhardamente se bateram, o fim do processo acabará com a sua vitória. Porque reside neles a força da razão, a força que a dureza da luta lhes transmitiu. O ME não derrotou os professores, tornou-os mais fortes para o combate que em ocasião propícia os levará à vitória.  

  Entretanto, julgo que os professores não devem abandonar a luta, e as greves às avaliações dos restantes anos de escolaridade são para continuar - dando mais força aos sindicatos na reunião com o ME. Se as negociações de dia 11/7 não derem em nada – o que é provável – exija-se que os sindicatos marquem uma grande Manifestação Nacional. Se as negociações não resultarem, ninguém tenha dúvidas que a luta tem que sair à rua. Só esta pode pesar no governo e no Parlamento. 

05
Jun18

Professores - resistência

publicado por júlio farinha

    Ao quarto dia do mês de Junho de 2018, o ME, finalmente pela mão do ministro - tão arredado que tem andado do contacto com os professores - sentou-se à frente dos sindicatos dos docentes. O ministro fez uma birra e, num inqualificável acto de vergonhosa e pueril chantagem, retirou da mesa os 2 anos, 9 meses e 18 dias que há tempos o ME havia “oferecido”. Antes terá afirmado, no dizer do Expresso, que “ou os sindicatos aceitam “apagar” anos de serviço ou perdem tudo” (Expresso, 4/6 20h08m). Que grande desorientação, irresponsabilidade e prepotência. Espera o governo outra atitude por parte dos professores que não seja o endurecimento da luta?

   Os sindicatos não abriram mão da exigência da recuperação de todo o tempo de serviço confiscado sem razão. Estiveram bem os sindicatos em não apresentar qualquer contraproposta. Como se diz, o tempo conta-se, não se negoceia. Não pode haver cedências. Estiveram bem a Fenprof, a FNE e todos os outros da Plataforma. Unidos é que é. A FNE surpreendeu favoravelmente ao sugerir, desde já, a intenção de paralisar, no início do próximo ano lectivo.

   A próxima batalha – se não for já, como sugerem os sindicatos, a greve aos exames e às aulas que ainda decorrem – é para se iniciar a partir deste mês com greves às avaliações. Os alunos não serão prejudicados, pois já não têm aulas. Os pais irão de férias nas datas marcadas se a luta se prolongar – só não saberão de imediato se os filhos passaram de ano. As matrículas podem ficar para mais tarde. As escolas ver-se-ão a braços com os problemas da constituição de turmas e dos horários, com a requisição de professores, e outras questões organizativas. As direcções das escolas pouco poderão fazer para minorar os efeitos da greve. Por isso, ela é poderosa. Se as greves não provocassem constrangimentos às entidades patronais, seriam inócuas. A greve dos professores não causa danos imediatos ou irrecuperáveis às populações. Ironicamente, este tipo de greve pode penalizar os professores. Se a greve se arrastar, os professores terão, eles sim, que protelar as suas férias. Mas este é um risco que têm que correr. O objectivo da recuperação integral do tempo está ao alcance dos professores. Há que contrapor a dimensão do sacrifício à canalhice que fizeram aos professores. Resistir, não ceder.

   A eficácia da greve está garantida. Basta um professor faltar à reunião para que esta não se realize. Cabe aos sindicatos agilizar estratégias, mobilizar e ajudar os professores a organizarem-se em cada escola, de modo que as paralisações sejam um êxito com o mínimo de custos materiais para os professores.

   Não há razão nenhuma para que os professores não façam greve às avaliações. Os que a não fizerem, devem interrogar-se sobre a legitimidade ética e a justiça de poderem vir a colher os benefícios conseguidos à custa de apenas alguns. Solidariedade e união precisam-se.

 

18
Abr18

Professores - recuperar é possível

publicado por júlio farinha

   Há uma petição à Assembleia da República no blogue DeAr Lindo chamada Iniciativa Legislativa de Cidadãos para Recuperar Todo o Tempo de Serviço. São necessárias 20 mil assinaturas. Por outro lado, os sindicatos estão a marcar uma Manifestação para 19 de Maio.

   Embora aposentado é, para mim, um imperativo categórico subscrever a primeira iniciativa e estar presente na segunda. Declaro, assim e desde já, a minha solidariedade activa.

  Saúdam-se os membros da comissão e os promotores da Petição e dizer que admiro a sua coragem e determinação. Aos sindicatos pede-se um enorme esforço de mobilização para uma grande demonstração reivindicativa dos direitos e da dignidade da classe. A razão vingará. É a ordem natural das coisas.

11
Abr18

Ensino global

publicado por júlio farinha

   "Toda a velha sociedade está prenha de uma nova" (K.Marx). O futuro requer vir à luz do dia.

   Quando pensamos em educação surgem-nos perguntas pertinentes (algumas das quais de difícil resposta). Enlenquem-se e comentem-se algumas. Para haver mudança é necessário alterar os currículos? Não será que a "flexibilização" já em curso nalgumas escolas não é mais do que uma operação de cosmética feita à revelia das escolas - não será que anuncia a constatação de que "é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma"?  É possível aprender em turmas superlotadas?  Requere-se um ensino especializado ou "generalista"? Somos a favor ou contra a transversalidade? Um professor de Matemática tem que ser bom em Português, Línguas, Ciências, etc., ou "cada um no seu galho"? Quais são as causas da indisciplina na sala de aula? O ensino atual carateriza-se por ser desinteressante, livresco, expositivo e centrado no professor? Os professores perdem terreno para as novas tecnologias em termos de informação e comunicação? O nosso ensino está desligado da realidade, está "envelhecido"? Existe cansaço nos alunos e nos professores? Há falta de convicção e "alegria" dos professores por  não conseguirem estabelecer empatia com os seus alunos?

   A nosso ver, a maioria destas interrogações produz conclusões  afirmativas.

A ser assim, ousemos fazer duas propostas a pensar, sobretudo, nos 2º e 3º ciclos do Básico.

   Em primeiro lugar, sugerimos que se generalize e reformule aquilo que já se faz há muito tempo e em muitas escolas: reconfigure-se o conceito de "visita de estudo" e evitemos emprestrar-lhe o nome de passeio.

Assim, convidamo-vos, professores, a saírem das salas de aula e, com um plano bem elaborado, dirijam-se com os alunos, por exemplo, ao Castelo de Almourol em Tancos- Vila Nova da Barquinha.

A "visita de estudo e trabalho" será orientada pelo Diretor de  Turma e organizada por todos os professores da turma que serão previamente "motivados" para a iniciativa. Cada um adaptará a sua participação ao contexto: castelo medieval, Templários, Gualdim Pais, defesa territorial, rio Tejo,poluição, fauna piscícola do rio, gastronomia, passeio fluvial, subida para o castelo,  torre de menagem, ameias, etc. lendas árabes, encontro e comunicação com turistas estrangeiros,etc. Fiquem descansados com a informação localizada. Deixem-na para o barqueiro que vos levará até à ilha. Sabe tudo sobre o que interessa saber sobre o castelo e os Templários.

   Os docentes devem encarregar-se da produção prévia de pequenos textos e fichas de trabalho.

Posteriormente, haverá na escola um debate com todos os intervenientes sobre a atividade. Far-se-á um relatório sucinto da visita e das aprendizagens, havendo lugar a uma exposição com textos, fotografias, desenhos, passagem de vídeos, etc. No fim, divulgue-se o evento pelos meios disponíveis na escola e/ou na comunidade. E já está. Repita-se a receita várias vezes ao ano e vá-se apurando a confeção com novos ingredientes.

Nas restantes aulas, dadas em contexto da sala, aproxime-se a prática ao modelo das visitas: escolham-se temas e, à volta deles, fale-se e trabalhe-se Português, Matemática, Ciências, Educação Visual, História, etc. Promova-se um saber feito de diversidade.

 

   A segunda proposta é para ser concretizada na sala de aula, mas exige um condimento ainda não disponível - a existência de dois ou três professores por turma preparados para lecionar todas as disciplinas. De início, pensemos num professor encarregue das "letras", outro das "ciências", e um terceiro talvez bem dentro das "expressões". A ideia não é nova, mas exige que o grupo de alunos não ultrapasse a dezena. Neste caso, a sala de aula transforma-se numa sala de estudo e de trabalho. Os novos professores terão sido formados para "dar" (leia-se apoiar) todas as disciplinas do currículo e terão a liberdade, juntamente com os alunos de o alterar, conservando a matriz nacional. No fim de contas, estamos a falar de uma espécie de regresso ao 1º ciclo. Com uma diferença: cada sala disporia de um computador por aluno (em boas condições de funcionamento) para pesquisa  e trabalhos. Haveria psicólogos, assistentes sociais e técnicos de ensino especial para todos, bem como bibliotecas,  ludotecas, material de vídeo, de fotografia,etc.

 

   Provavelmente, tudo isto não passa de uma incursão nos campos do sonho mas, como dizia o poeta, este comanda a vida. Demos tempo ao tempo que novos tempos virão.

02
Abr18

A marmita

publicado por júlio farinha

 

 

   A marmita tornou-se numa peça popular ( também ) entre os professores e não chegou às escolas por vias da moda. A dita tornou-se um objeto tão necessário como a pasta dos livros porque a crise também chegou à classe docente. Hoje em dia, marmitar não escolhe novos ou velhos, homens ou mulheres. Quase todos marmitam.

   Nalgumas regiões, como no Algarve - conhecido pelas exigências económicas postas às comunidades residentes nacionais decorrentes dos preços carotes devido ao turismo - a omnipresente e simpática marmita modificou o estatuto dos professores, até há pouco conhecidos pelos "meias doses". 

   A amiga marmita é uma figura tão atraente e amorosa que promete invadir todas as comunidades, contribuindo para o aparecimento previsível de autênticos centros piqueniqueiros onde se come e partilha o pitéu trazido de casa degustado frio ou até aquecido em microondas a instalar, mercê das evidências, pelas juntas de freguesia nos locais mais apropriados.

   Fim à austeridade, não aos "tachos" do ME! Abaixo o consumismo, sim à comida personalizada! Contra o desperdício, poupar, poupar!

Bom apetite, e Viva a marmita!

   Tenho dito. Abraços e até breve.

28
Mar18

Professores - contornos da razão

publicado por júlio farinha

   A injustiça decorrente da recusa do Ministério da Educação ( e das Finanças, está claro) em considerar a contagem total dos anos de lecionação dos professores para efeitos de reposição na carreira tem a ver com desconsideração e desclassificação dos profissionais da educação, principais atores no sistema educativo.

    

   O governo está metido numa trapalhada. Não tem regras, não usa a razão como critério de decisão e até desrespeita decisões do Parlamento em geral, e do seu grupo de deputados em particular, que votaram pela recuperação faseada (mas sempre recuperação) do tempo de serviço em causa. Os docentes até ficaram expectantes quando, em reuniões com todos os sindicatos da classe, a Educação e as Finanças sugeriram, nos célebres compromissos, que estariam ali para negociar. Ora, dá-se o dito (implícito) por não dito e, agora, falam em contar uma bagatela de dois meses e uns trocos para ver se calam a contestação. Os professores não merecem isto!

   O ME não valoriza, na prática, a qualidade, o espírito de missão, o trabalho, enfim, de milhares de professores que sustentam o sistema. Eles são os principais responsáveis pelos significativos progressos da educação em Portugal nos últimos anos. Como prova, aconselha-se a consulta dos relatórios e estudos feitos internacionalmente por entidades independentes e de prestígio.

   A nível interno, pese embora a relutância (manhosa) desse reconhecimento por parte do próprio ME, o que não é de espantar, sugiro que se pegue em meia dúzia de relatórios da avaliação trimestral de alunos de diferentes escolas do 1º Ciclo, por exemplo, e avaliemos, através desses instrumentos, os respetivos professores. Sabeis o que encontramos? Os pais sabem. Encontramos profissionais de conhecimento e aptidões plurais com muita competência pedagógica, didática e científica. A maior parte deles revela uma proximidade e um conhecimento grande do aluno e produz uma avaliação criteriosa, elaborando diagnósticos e propostas estratégicas de grande qualidade muito úteis aos pais e encarregados de educação, encaminhando os alunos com problemas para áreas de apoio técnico que se revelam decisivas no combate ao insucesso escolar. Os educadores de infância e os seus colegas do 1º ciclo estão na primeira linha da prevenção e recuperação dos alunos e são os profissionais dos cuidados primários (desculpem a analogia). A sensibilidade e o profissionalismo de muitos destes docentes não tem preço, não é um bem descartável. É um bem para a vida toda. Quem não tem, na memória e no coração, a figura, os modos e a empatia de um(a) professor(a) da escola primária?

   O problema da não contagem integral do tempo de serviço perdido (ou confiscado) é, também, outro: é que se os professores não forem reposicionados nos escalões a que têm direito moral e legal ( não esqueçamos que quem aprovou e publicou as leis e regras para a progressão foram os governos da República ) a maior parte vai chegar à idade da reforma sem ter atingido o topo da carreira. É uma questão de dinheiro? É. Mas, na prática, é dinheiro que os professores justificam por terem trabalhado sem estarem posicionados nos escalões a que teriam direito se não estivessem "congelados". Será que o governo já está a pensar perpetuar-se no poder e quer poupar, no futuro, nas pensões? É que a reforma, no 8º ou 9ºescalões, é bem inferior à do 10º, não é Dr. Centeno?

   Os professores não querem este mundo e o outro. Querem o que é seu. Lutam por condições de vida e por valores dos quais se destaca a dignidade. Querem que todo o tempo que trabalharam seja contado e então ficarão todos conformados com o tempo. Isto do tempo tem coisas!  Para trabalhar já havia cronómetro, para contar é que não, certo sr. Primeiro Ministro?( O seu relógio foi comprado na feira da ladra em 2017? Além de obsoleto parece ser muito seletivo e  perverso).

   Os professores são sobretudo profissionais responsáveis e reconhecem e aceitam as hierarquias e as regras da “entidade patronal”, mas também têm, como aconselhava o nosso e vosso(?) António Sérgio, espírito crítico. Eles são cidadãos. Por vezes, muitos não fazem greve, porque o salário é pequeno e/ou pensam sobretudo nos alunos, embora aqueles que estão a fazer greve também a façam convictos que professores motivados, pelas melhores condições, produzem melhor ensino. Outros acham que as greves não dão em nada, por estarem habituados à crónica intransigência ou prepotência do poder, ou porque este é do seu partido. Há razões para lutar e para não lutar. No entanto, a história segue sempre o seu curso e, por vezes, ultrapassa a vontade dos homens. Ela tem momentos “subterrâneos” e de “superfície”. A períodos de calma, sucedem-se outros de turbulência. É preciso que os decisores estejam atentos aos sinais. Há limites e, vai- não vai, o copo transborda. Os professores têm razão, o governo contorna-a, foge dela.

   O país compreende e gosta mais dos seus professores do que de alguns políticos.  Tomem atenção.

 

                                                                                                Júlio Farinha, Março de 2018

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