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oraviva

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11
Ago18

A Fé e a Razão

publicado por júlio farinha

 

   A fé é um sentimento humano. Só o homem é capaz de acreditar. Os homens têm crenças diversas mas aquela que, geralmente, é para nós a mais nobre é a que diz respeito ao sobrenatural.

   Os crentes têm como verdadeira a existência de um ente ou algo que está para além de nós e que, de certo modo, supervisiona as nossas acções, a nossa existência.

   Para os não crentes, os deuses ou objectos de culto são criações humanas.

   Os nossos primitivos antepassados animistas acreditavam que tudo na vida e na natureza tinha uma alma ou espírito. Fossem animais, plantas, rochas, serras, rios ou corpos celestes.

   No mundo do sobrenatural e dos deuses, as entidades correspondentes manifestam-se ao mundo dos vivos e estes convocam aqueles através de rituais para deles obterem benefícios.

   As mais célebres e ricas mitologias da antiguidade mais recente no mundo ocidental são a grega e a romana. Quem não sabe que para os gregos Afrodite era a deusa da beleza e do amor, Zeus era o pai de todos os deuses, Atena era a deusa da sabedoria e Apolo o deus da luz?

   A tendência histórica foi a da humanidade se ir separando das religiões politeístas e converter-se às crenças e práticas monoteístas. Hoje, entre as religiões de um deus único estão o Cristianismo e o Islamismo.

   A Razão, por seu lado, tem coexistido, ao longo dos tempos, com a Fé ora aproximando-se, ora afastando-se radicalmente desta.

   Em traços gerais, podemos dizer que a Razão é uma faculdade humana que prescinde em grande medida do recurso ao uso de entidades estranhas ao intelecto para se afirmar autonomamente no processo do conhecimento. A Razão, diz-se, é uma característica distintiva no mundo animal. Trabalha com conceitos e é mestre do raciocínio.

   A Razão, tal como a Fé, procura chegar à verdade. No entanto, a Fé no seu exercício, torna-se dogmática e raramente é seguida pelos cientistas no processo investigativo. Os preceitos da Fé não são discutíveis, são para seguir, aceitar e não lidam bem com o contraditório. A Razão, afirmam os seus defensores, é livre, humanamente produtiva e superior. “Quanto mais de si o homem atribui a Deus, menos lhe resta”  (L. Feuerbach).

   Para os materialistas filosóficos a ferramenta privilegiada para a descoberta científica e para a condução de si mesmo na vida é a Razão.

   A Fé e a Razão são duas possibilidades humanas de ver o mundo. Uns, escolhem a primeira, outros, a segunda. E há quem conjugue as duas. Napoleão perguntou uma vez ao grande cientista Laplace porque não tinha ele mencionado uma única vez na sua Opera Celeste o nome do Criador, ao qual este respondeu: “não tinha necessidade dessa hipótese”. Para o astrónomo, Deus era apenas uma possibilidade de que não carecia para estabelecer a sua teoria científia sobre o universo.

   Não significa isto que não tenhamos convicções e emoções que nos completam enquanto pessoas. A Fé dá conforto ao espirito quando nos sentimos perdidos ou inseguros perante a extraordinária diversidade e grandiosidade do universo.

   Por vezes, quando a ciência não foi capaz de sossegar o nosso sofrimento físico ou psíquico em virtude, por exemplo de doença grave, inclino-me a considerar justificada a aproximação a um espírito omnipotente,  imanente à matéria universal - mater de todas as coisas - capaz de minorar a nossa pena. É que o homem não é apenas razão, é um ser muito complexo e delicado que possui aquilo que, embora em desuso, se chama espírito.  

 

 

 

 

 

30
Mar18

Escolhos, escolhas e subjetividades

publicado por júlio farinha

   Quem navega à vista pela noite escura sujeita-se à ruína provocada pelos destroços das embarcações naufragadas e pelos escolhos traiçoeiros abundantes no imprevisto mar.

   Quando não temos visão sobre o que está  à nossa volta corremos o risco de sermos abalroados pelas realidades duras e nefastas porque estamos desprotegidos pela falta dos sentidos e da inteligência, faróis que apontam para caminhos seguros e bons.

   Quanto a mim, gosto da noite para dormir, sonhar e refletir mas prefiro o dia para viver na plenitude. (Quando fico às escuras sinto insegurança. É capaz de ser um trauma da infância). É de dia, sobretudo com sol,  que me sinto vivo. Adoro e sinto-me capaz de navegar à vista do nascer ao pôr do sol.. Mas, cada um é como cada qual. Há gostos para tudo, até para a alienação. Enquanto pudermos escolher, dê-nos a natureza essa vantagem.

   O subjetivo é omnipotente, valha-nos isso. Por exemplo, Heraclito lembrou que "os burros preferem a palha ao ouro". É tudo uma questão de prioridades que se hierarquizam de acordo com as nossas necessidades naturais individuais vitais ou adquiridas socialmente. O néscio não ama Mozart, prefere música pimba. Uns consomem cultura, outras gostam de enfardar e beber à farta. E por aí fora.

 Há necessidades e necessidades.Tudo é relativo. Às vezes são as circunstâncias que decidem. Se um viajante perdido no deserto, sedento, tivesse que optar entre receber água ou um generoso tesouro, o que faria ele se não estivesse já privado da razão? Até à próxima e haja saúde.

28
Mar18

Professores - contornos da razão

publicado por júlio farinha

   A injustiça decorrente da recusa do Ministério da Educação ( e das Finanças, está claro) em considerar a contagem total dos anos de lecionação dos professores para efeitos de reposição na carreira tem a ver com desconsideração e desclassificação dos profissionais da educação, principais atores no sistema educativo.

    

   O governo está metido numa trapalhada. Não tem regras, não usa a razão como critério de decisão e até desrespeita decisões do Parlamento em geral, e do seu grupo de deputados em particular, que votaram pela recuperação faseada (mas sempre recuperação) do tempo de serviço em causa. Os docentes até ficaram expectantes quando, em reuniões com todos os sindicatos da classe, a Educação e as Finanças sugeriram, nos célebres compromissos, que estariam ali para negociar. Ora, dá-se o dito (implícito) por não dito e, agora, falam em contar uma bagatela de dois meses e uns trocos para ver se calam a contestação. Os professores não merecem isto!

   O ME não valoriza, na prática, a qualidade, o espírito de missão, o trabalho, enfim, de milhares de professores que sustentam o sistema. Eles são os principais responsáveis pelos significativos progressos da educação em Portugal nos últimos anos. Como prova, aconselha-se a consulta dos relatórios e estudos feitos internacionalmente por entidades independentes e de prestígio.

   A nível interno, pese embora a relutância (manhosa) desse reconhecimento por parte do próprio ME, o que não é de espantar, sugiro que se pegue em meia dúzia de relatórios da avaliação trimestral de alunos de diferentes escolas do 1º Ciclo, por exemplo, e avaliemos, através desses instrumentos, os respetivos professores. Sabeis o que encontramos? Os pais sabem. Encontramos profissionais de conhecimento e aptidões plurais com muita competência pedagógica, didática e científica. A maior parte deles revela uma proximidade e um conhecimento grande do aluno e produz uma avaliação criteriosa, elaborando diagnósticos e propostas estratégicas de grande qualidade muito úteis aos pais e encarregados de educação, encaminhando os alunos com problemas para áreas de apoio técnico que se revelam decisivas no combate ao insucesso escolar. Os educadores de infância e os seus colegas do 1º ciclo estão na primeira linha da prevenção e recuperação dos alunos e são os profissionais dos cuidados primários (desculpem a analogia). A sensibilidade e o profissionalismo de muitos destes docentes não tem preço, não é um bem descartável. É um bem para a vida toda. Quem não tem, na memória e no coração, a figura, os modos e a empatia de um(a) professor(a) da escola primária?

   O problema da não contagem integral do tempo de serviço perdido (ou confiscado) é, também, outro: é que se os professores não forem reposicionados nos escalões a que têm direito moral e legal ( não esqueçamos que quem aprovou e publicou as leis e regras para a progressão foram os governos da República ) a maior parte vai chegar à idade da reforma sem ter atingido o topo da carreira. É uma questão de dinheiro? É. Mas, na prática, é dinheiro que os professores justificam por terem trabalhado sem estarem posicionados nos escalões a que teriam direito se não estivessem "congelados". Será que o governo já está a pensar perpetuar-se no poder e quer poupar, no futuro, nas pensões? É que a reforma, no 8º ou 9ºescalões, é bem inferior à do 10º, não é Dr. Centeno?

   Os professores não querem este mundo e o outro. Querem o que é seu. Lutam por condições de vida e por valores dos quais se destaca a dignidade. Querem que todo o tempo que trabalharam seja contado e então ficarão todos conformados com o tempo. Isto do tempo tem coisas!  Para trabalhar já havia cronómetro, para contar é que não, certo sr. Primeiro Ministro?( O seu relógio foi comprado na feira da ladra em 2017? Além de obsoleto parece ser muito seletivo e  perverso).

   Os professores são sobretudo profissionais responsáveis e reconhecem e aceitam as hierarquias e as regras da “entidade patronal”, mas também têm, como aconselhava o nosso e vosso(?) António Sérgio, espírito crítico. Eles são cidadãos. Por vezes, muitos não fazem greve, porque o salário é pequeno e/ou pensam sobretudo nos alunos, embora aqueles que estão a fazer greve também a façam convictos que professores motivados, pelas melhores condições, produzem melhor ensino. Outros acham que as greves não dão em nada, por estarem habituados à crónica intransigência ou prepotência do poder, ou porque este é do seu partido. Há razões para lutar e para não lutar. No entanto, a história segue sempre o seu curso e, por vezes, ultrapassa a vontade dos homens. Ela tem momentos “subterrâneos” e de “superfície”. A períodos de calma, sucedem-se outros de turbulência. É preciso que os decisores estejam atentos aos sinais. Há limites e, vai- não vai, o copo transborda. Os professores têm razão, o governo contorna-a, foge dela.

   O país compreende e gosta mais dos seus professores do que de alguns políticos.  Tomem atenção.

 

                                                                                                Júlio Farinha, Março de 2018

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