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oraviva

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18
Jul18

Nada será como dantes

publicado por júlio farinha

   O problema da contagem do tempo de serviço dos professores envolve muitos factores, organizações e pessoas. Tem a forma de uma contenda laboral donde emergem componentes políticas, sindicais, económicas, filosóficas, sociais e deontológicas. Abordando aquela que o governo mais gosta de invocar, a questão económica, tem-se a dizer o seguinte: O governo tem uma meta de défice, para mostrar em Bruxelas, que gostaria de encurtar. E as coisas até lhe estão a correr bem.  Em virtude da amortização de dívida, já se terá poupado mais de mil milhões de euros em juros. O crescimento económico está em bons níveis e o desemprego diminui, o que permite arrecadar mais impostos. As exportações e o turismo têm crescido. De uma forma geral, os indicadores económicos são razoáveis. Ao contrário das chantagens de Costa, não se prevê nenhuma crise económico-financeira a curto prazo.

  O tão entusiasmente défice que Centeno quer descer a níveis inferiores ao exigido pela UE, já está a perto dos 0%, não  havendo razão para poupanças no investimento na regularização da carreira dos professores. Centeno quer ficar bem na fotografia do Eurogrupo onde, por ser presidente, acha que lhe cabe, à custa dosportugueses, fazer figura de excelência na arte de bem extorquir direitos aos cidadãos doentes, privando-os de saúde e educação, para dotar o país de contas saudáveis. Mas que têm os contribuintes a ver com isso? E porque se hão de penalizar os professores e os contribuintes?

   A lengalenga do gaspariano não-há-dinheiro, afirmada à exaustão por Costa sob imposição de Centeno, já não tem sustentação. Que não há dinheiro para os professores (embora o haja para os outros funcionários públicos comuns) é uma vontade, uma opção do governo. Houve dinheiro para injectar mais de quatro mil milhões dele na CGD, onde grassou a incompetência dos gestores nomeados pelos sucessivos governos. Tem havido metal para pôr nos fundos de resolução dos bancos falidos por má gestão, corrupção e desmandos do sistema. Há milhares de milhões de euros à espera de serem recuperados, nas Finanças, devido a dívidas monstruosas. Há dinheiro previsto no Orçamento para a Defesa de não se sabe bem de quê. Há verbas avultadas para recuperar estradas onde houve incompetência na construção. E há muito dinheiro para alimentar um Estado ocioso na pessoa de todos os seus comensais.

   O que a obstinação do governo revela é que, a pretexto de  não haver dinheiro para tudo, opta-se por deixar para trás aquilo que não tem impacto eleitoral. Mesmo que o estado das finanças fosse problemático, se houvesse a consideração social, filosófica e cultural do problema, haveria sempre de haver dinheiro para a educação e, neste caso, para a normalização da carreira dos professores. Soube, há dias que, no Uruguai, um deputado propôs uma lei no Parlamento, segundo a qual nenhum político, nem mesmo o presidente, podia ganhar mais do que um professor primário. A isto chama-se valorizar a Educação.

   Foi no contexto de uma má vontade política e da desconsideração da profissão docente que os professores encetaram uma luta que dura há mais de um mês. Ao longo desse tempo, na esperançada ousadia de alcançar uma vitória, os professores contaram com as suas próprias forças, e pouco mais. Sem a presença de dirigentes ou delegados sindicais nas escolas, dirigidos através da Internet, trocaram entre si argumentos, sugestões e definiram orientações. Afastaram temores e deram-se à solidariedade e ao abraço da união, constituindo-se numa força que nunca se vira depois do 25 de Abril.

   No fim, não houve lugar a balanços. Só se sabia que a coisa tinha dado em quase nada. Ficou muita tristeza à solta. Muita revolta. E a aprendizagem da luta. Sei que muitos de vós continuarão as greves até 31 de Julho, com a ajuda do resistente S.T.O.P. Vai ser sempre um acrescento e quem sabe, se não implicará uma nova dimensão ao movimento. A plataforma já deu o que tinha a dar – e que foi pouco.

   Por muito que isso custe aos professores e aos que já o foram, como foi o meu caso durante cerca de 40 anos, estais quase sozinhos. Vocês foram aonde poucos daqueles que se afirmam vossos dirigentes foram. Estes ficaram-se muito lá para trás. Não tivestes dirigentes à altura, pois foram quase sempres ultrapassados pelo movimento.

   Impõe-se uma reflexão séria e desapaixonada sobre os episódios recentes da luta sindical, bem como sobre a sua história após o 25 de Abril. Sejam quais forem as consequências que se apurarem, desde já penso que a partir de agora, nada será como dantes.

11
Abr18

Ensino global

publicado por júlio farinha

   "Toda a velha sociedade está prenha de uma nova" (K.Marx). O futuro requer vir à luz do dia.

   Quando pensamos em educação surgem-nos perguntas pertinentes (algumas das quais de difícil resposta). Enlenquem-se e comentem-se algumas. Para haver mudança é necessário alterar os currículos? Não será que a "flexibilização" já em curso nalgumas escolas não é mais do que uma operação de cosmética feita à revelia das escolas - não será que anuncia a constatação de que "é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma"?  É possível aprender em turmas superlotadas?  Requere-se um ensino especializado ou "generalista"? Somos a favor ou contra a transversalidade? Um professor de Matemática tem que ser bom em Português, Línguas, Ciências, etc., ou "cada um no seu galho"? Quais são as causas da indisciplina na sala de aula? O ensino atual carateriza-se por ser desinteressante, livresco, expositivo e centrado no professor? Os professores perdem terreno para as novas tecnologias em termos de informação e comunicação? O nosso ensino está desligado da realidade, está "envelhecido"? Existe cansaço nos alunos e nos professores? Há falta de convicção e "alegria" dos professores por  não conseguirem estabelecer empatia com os seus alunos?

   A nosso ver, a maioria destas interrogações produz conclusões  afirmativas.

A ser assim, ousemos fazer duas propostas a pensar, sobretudo, nos 2º e 3º ciclos do Básico.

   Em primeiro lugar, sugerimos que se generalize e reformule aquilo que já se faz há muito tempo e em muitas escolas: reconfigure-se o conceito de "visita de estudo" e evitemos emprestrar-lhe o nome de passeio.

Assim, convidamo-vos, professores, a saírem das salas de aula e, com um plano bem elaborado, dirijam-se com os alunos, por exemplo, ao Castelo de Almourol em Tancos- Vila Nova da Barquinha.

A "visita de estudo e trabalho" será orientada pelo Diretor de  Turma e organizada por todos os professores da turma que serão previamente "motivados" para a iniciativa. Cada um adaptará a sua participação ao contexto: castelo medieval, Templários, Gualdim Pais, defesa territorial, rio Tejo,poluição, fauna piscícola do rio, gastronomia, passeio fluvial, subida para o castelo,  torre de menagem, ameias, etc. lendas árabes, encontro e comunicação com turistas estrangeiros,etc. Fiquem descansados com a informação localizada. Deixem-na para o barqueiro que vos levará até à ilha. Sabe tudo sobre o que interessa saber sobre o castelo e os Templários.

   Os docentes devem encarregar-se da produção prévia de pequenos textos e fichas de trabalho.

Posteriormente, haverá na escola um debate com todos os intervenientes sobre a atividade. Far-se-á um relatório sucinto da visita e das aprendizagens, havendo lugar a uma exposição com textos, fotografias, desenhos, passagem de vídeos, etc. No fim, divulgue-se o evento pelos meios disponíveis na escola e/ou na comunidade. E já está. Repita-se a receita várias vezes ao ano e vá-se apurando a confeção com novos ingredientes.

Nas restantes aulas, dadas em contexto da sala, aproxime-se a prática ao modelo das visitas: escolham-se temas e, à volta deles, fale-se e trabalhe-se Português, Matemática, Ciências, Educação Visual, História, etc. Promova-se um saber feito de diversidade.

 

   A segunda proposta é para ser concretizada na sala de aula, mas exige um condimento ainda não disponível - a existência de dois ou três professores por turma preparados para lecionar todas as disciplinas. De início, pensemos num professor encarregue das "letras", outro das "ciências", e um terceiro talvez bem dentro das "expressões". A ideia não é nova, mas exige que o grupo de alunos não ultrapasse a dezena. Neste caso, a sala de aula transforma-se numa sala de estudo e de trabalho. Os novos professores terão sido formados para "dar" (leia-se apoiar) todas as disciplinas do currículo e terão a liberdade, juntamente com os alunos de o alterar, conservando a matriz nacional. No fim de contas, estamos a falar de uma espécie de regresso ao 1º ciclo. Com uma diferença: cada sala disporia de um computador por aluno (em boas condições de funcionamento) para pesquisa  e trabalhos. Haveria psicólogos, assistentes sociais e técnicos de ensino especial para todos, bem como bibliotecas,  ludotecas, material de vídeo, de fotografia,etc.

 

   Provavelmente, tudo isto não passa de uma incursão nos campos do sonho mas, como dizia o poeta, este comanda a vida. Demos tempo ao tempo que novos tempos virão.

28
Mar18

Professores - contornos da razão

publicado por júlio farinha

   A injustiça decorrente da recusa do Ministério da Educação ( e das Finanças, está claro) em considerar a contagem total dos anos de lecionação dos professores para efeitos de reposição na carreira tem a ver com desconsideração e desclassificação dos profissionais da educação, principais atores no sistema educativo.

    

   O governo está metido numa trapalhada. Não tem regras, não usa a razão como critério de decisão e até desrespeita decisões do Parlamento em geral, e do seu grupo de deputados em particular, que votaram pela recuperação faseada (mas sempre recuperação) do tempo de serviço em causa. Os docentes até ficaram expectantes quando, em reuniões com todos os sindicatos da classe, a Educação e as Finanças sugeriram, nos célebres compromissos, que estariam ali para negociar. Ora, dá-se o dito (implícito) por não dito e, agora, falam em contar uma bagatela de dois meses e uns trocos para ver se calam a contestação. Os professores não merecem isto!

   O ME não valoriza, na prática, a qualidade, o espírito de missão, o trabalho, enfim, de milhares de professores que sustentam o sistema. Eles são os principais responsáveis pelos significativos progressos da educação em Portugal nos últimos anos. Como prova, aconselha-se a consulta dos relatórios e estudos feitos internacionalmente por entidades independentes e de prestígio.

   A nível interno, pese embora a relutância (manhosa) desse reconhecimento por parte do próprio ME, o que não é de espantar, sugiro que se pegue em meia dúzia de relatórios da avaliação trimestral de alunos de diferentes escolas do 1º Ciclo, por exemplo, e avaliemos, através desses instrumentos, os respetivos professores. Sabeis o que encontramos? Os pais sabem. Encontramos profissionais de conhecimento e aptidões plurais com muita competência pedagógica, didática e científica. A maior parte deles revela uma proximidade e um conhecimento grande do aluno e produz uma avaliação criteriosa, elaborando diagnósticos e propostas estratégicas de grande qualidade muito úteis aos pais e encarregados de educação, encaminhando os alunos com problemas para áreas de apoio técnico que se revelam decisivas no combate ao insucesso escolar. Os educadores de infância e os seus colegas do 1º ciclo estão na primeira linha da prevenção e recuperação dos alunos e são os profissionais dos cuidados primários (desculpem a analogia). A sensibilidade e o profissionalismo de muitos destes docentes não tem preço, não é um bem descartável. É um bem para a vida toda. Quem não tem, na memória e no coração, a figura, os modos e a empatia de um(a) professor(a) da escola primária?

   O problema da não contagem integral do tempo de serviço perdido (ou confiscado) é, também, outro: é que se os professores não forem reposicionados nos escalões a que têm direito moral e legal ( não esqueçamos que quem aprovou e publicou as leis e regras para a progressão foram os governos da República ) a maior parte vai chegar à idade da reforma sem ter atingido o topo da carreira. É uma questão de dinheiro? É. Mas, na prática, é dinheiro que os professores justificam por terem trabalhado sem estarem posicionados nos escalões a que teriam direito se não estivessem "congelados". Será que o governo já está a pensar perpetuar-se no poder e quer poupar, no futuro, nas pensões? É que a reforma, no 8º ou 9ºescalões, é bem inferior à do 10º, não é Dr. Centeno?

   Os professores não querem este mundo e o outro. Querem o que é seu. Lutam por condições de vida e por valores dos quais se destaca a dignidade. Querem que todo o tempo que trabalharam seja contado e então ficarão todos conformados com o tempo. Isto do tempo tem coisas!  Para trabalhar já havia cronómetro, para contar é que não, certo sr. Primeiro Ministro?( O seu relógio foi comprado na feira da ladra em 2017? Além de obsoleto parece ser muito seletivo e  perverso).

   Os professores são sobretudo profissionais responsáveis e reconhecem e aceitam as hierarquias e as regras da “entidade patronal”, mas também têm, como aconselhava o nosso e vosso(?) António Sérgio, espírito crítico. Eles são cidadãos. Por vezes, muitos não fazem greve, porque o salário é pequeno e/ou pensam sobretudo nos alunos, embora aqueles que estão a fazer greve também a façam convictos que professores motivados, pelas melhores condições, produzem melhor ensino. Outros acham que as greves não dão em nada, por estarem habituados à crónica intransigência ou prepotência do poder, ou porque este é do seu partido. Há razões para lutar e para não lutar. No entanto, a história segue sempre o seu curso e, por vezes, ultrapassa a vontade dos homens. Ela tem momentos “subterrâneos” e de “superfície”. A períodos de calma, sucedem-se outros de turbulência. É preciso que os decisores estejam atentos aos sinais. Há limites e, vai- não vai, o copo transborda. Os professores têm razão, o governo contorna-a, foge dela.

   O país compreende e gosta mais dos seus professores do que de alguns políticos.  Tomem atenção.

 

                                                                                                Júlio Farinha, Março de 2018

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