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oraviva

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07
Mai18

Um ponto

publicado por júlio farinha

   Tivemos um professor de Física, Nuno da Fonseca, que marcou uma alargada geração de estudantes que passaram, nos fins dos anos sessenta pelo então Instituto Industrial de Lisboa, precursor do agora Instituto Superior de Engenharia. O professor Nuno sabia de Física até dizer chega. Dava a sua aula teórica, muito cedo, e raramente faltava, a turmas de meia centena de alunos de Máquinas que se apertavam em cadeiras/secretárias, velhinhas, daquelas que se usavam, então, nas escolas do ensino primário com um buraquinho no tampo destinado a receber os tinteiros das canetas de aparo com as quais se aprontava a caligrafia perfeitinha.

   O Nuno era um provocador. Gozava com a malta toda. Enérgico, vivo, apressado, sorridente, carregado de humor inteligente. Bom dia! Num ápice, enche-se o velho e desbotado quadro de ardósia feito de matéria. O Nuno fala,explica, demonstra, escreve, apaga sem esperar pelos mais lentos. Lá fora, passas-me os apontamentos. Não tive tempo,não apanhei. Quase ninguém apanhava, a coisa requeria muito estudo lá em casa. O Nuno era muito exigente com a natureza humana. Era uma daquelas figuras que, não sendo deste mundo, são obrigadas a viver nele.

   O que é um ponto? - perguntou um dia para nos aliviar a cabeça e os nervos. Nenhuma alma respondeu, porque já se suspeitava, por não vir a propósito, que era um engodo. E nós já sabiamos que ele sabia que nós não sabíamos onde nos levaria a provocação. Afinal, não havia entre nós nenhum Aristóteles, nem o velho casarão da Buenos Aires, visitado amiúde pela Pide, se parecia com a Academia de Platão.

   Explicado o que é o ponto no léxico da geometria e da física, indagou,de seguida, o Nuno: e um grande ponto? O que é um grande ponto, vá digam.Tu, aí? Quem explica? Quem sabe? Que tristeza. Pequeninos éramos todos nós, mais atrapalhados na nossa tacanhez provinciana, por não vislumbrar-nos até onde nos levava Nuno,do que pela ignorância científica. "Um grande Ponto",esclareceu o Nuno, "sou eu".

  O Nuno há muito que deixou de estar entre nós, mas como dizia Parménides - o que é, permanece. Há mais de quarenta e cinco anos. É obra.

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